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Com ‘dança da chuva’, sem-teto protestam contra a falta de água

Cerca de 5.000 pessoas se concentram na frente da Sabesp para pedir uma solução para o rodízio que já afeta as áreas periféricas

Grupo de sem-teto em protesto na zona oeste de São Paulo.
Grupo de sem-teto em protesto na zona oeste de São Paulo. AFP

Um grupo de cerca de 5.000 integrantes do Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto (MTST) marchou na tarde desta quinta-feira até a sede da Sabesp (companhia de saneamento básico do Estado), localizada em uma área nobre da zona oeste de São Paulo, para protestar contra o rodízio de água que afeta principalmente a periferia.

O Estado vive desde o início desse ano uma crise hídrica e a principal reserva de abastecimento, o sistema Cantareira, está com os níveis mais baixos desde que foi criada, em 1983. Cerca de 14 milhões de pessoas na Grande São Paulo e em 62 cidades do interior do Estado dependem dessa represa, que está com 7,4% da capacidade atualmente. Nesta quinta, o secretário de Saneamento e Recursos Hídricos do Estado, Mauro Arce, disse à imprensa que essa cota do Cantareira pode terminar em 57 dias, caso o nível de chuva permaneça como está. Será preciso acessar uma segunda cota, do chamado “volume morto” (reservatório abaixo das comportas do reservatório) –o primeiro já foi acessado, emergencialmente, em maio.

O Governo do Estado nega a existência de rodízio no Estado, apesar de muitos moradores afirmarem que estão sem água em suas casas –o governador Geraldo Alckmin (PSDB) concorre à reeleição no pleito do próximo dia 5 de outubro, está em primeiro lugar nas pesquisas e tem a preferência das classes mais altas do Estado. “Todo mundo sabe que está tendo racionamento, mas ele só está acontecendo nas casas de periferia. Duvido que em Higienópolis [bairro rico na região central] falte água”, afirmou Josué Rocha, um dos coordenadores do MTST.

“Em casa, é um dia com água e outro sem. Faz meses que a gente se vira como pode. A água acaba às 23h e só volta lá para 4h, 5h”, conta a manicure Josiane da Silva, 32, que mora em Paraisópolis, favela na zona oeste da cidade. Ao lado dela, a moradora do Jardim Ângela, na zona sul, afirmava que há duas semanas a água só vem a cada quatro dias no bairro. “À noite, às vezes chega por volta de 2h e às 4h já acaba.” No Jardim Oriente, bairro da zona sul, também há relatos de seca. "Faz três meses que tomo banho no trabalho. Em casa, a água acaba às 19h e só volta às 8h", conta o ajudante de obra Laércio Ferreira, 38. 

O grupo dos sem-teto se reuniu no início da tarde no Largo da Batata e caminhou até a rua Sumidouro, nos fundos da sede da Sabesp, acompanhado por um efetivo de 850 policiais. Às 17h15, uma comissão foi recebida por diretores da companhia.

Do lado de fora, o restante do grupo gritava palavras de ordem e fazia uma dança da chuva, com pessoas fantasiadas de índios. “O governador diz que a culpa da falta de água é da chuva, então vamos ajudar”, explicava um deles.

Depois de 1h30 a comissão deixou o prédio e afirmou que houve um acordo com a empresa para que fossem feitas reuniões periódicas nas regiões que, segundo os moradores, estão sendo mais afetadas. “Teremos um diálogo permanente nas regiões sul, leste e oeste”, disse Rocha. Uma nova reunião foi marcada para 7 de outubro.