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luto na política brasileira

O corpo de Campos é enterrado diante de gritos políticos e cantos religiosos

Admiradores do ex-governador pernambucano pediam que a viúva dele fosse a vice de Marina Silva na disputa presidencial.

A viúva e os filhos de Eduardo Campos durante o velório em Recife.
A viúva e os filhos de Eduardo Campos durante o velório em Recife. EFE

Os restos mortais do ex-governador de Pernambuco e presidenciável Eduardo Campos foram enterrados na noite deste domingo em um ambiente que misturava política, folclore pernambucano e fé religiosa no Recife. Cerca de 130.000 pessoas, segundo a Polícia Militar, participaram das solenidades do velório e sepultamento do líder do PSB.

Desde o Palácio do Campo das Princesas, onde ocorreu o velório, até o cemitério do Santo Amaro, os admiradores de Campos e os militantes do partido dele alternavam cânticos de igrejas com gritos políticos. Em um momento cantavam a música Entra na minha casa para logo depois entoar o hino nacional ou para criticar a presidenta Dilma Rousseff (PT). Em várias ocasiões gritaram “fora Dilma”, mesmo depois de a mandatária ter deixado a cidade. Ela participou da missa campal, na manhã de domingo, e foi vaiada por pouco menos de um minuto assim que apareceu nos telões que mostravam cada ato do velório do socialista. O evento foi fortemente marcado pela frase que ele disse em uma entrevista na véspera de sua morte: “Não vamos desistir do Brasil”.

Os admiradores de Campos, que se penduraram em vários jazigos do cemitério, gritaram por justiça, cantaram jingles de campanha do ex-governador e pediram que a viúva dele, Renata Campos, entrasse na disputa presidencial como vice na chapa encabeçada por Marina Silva. “É tudo ou nada, Marina e Renata”, pediram a toda voz. A possibilidade de Renata disputar uma campanha eleitoral foi descartada pelo cunhado dela, Antônio Campos.

Quando Silva chegou ao cemitério, os eleitores diziam: “Brasil pra frente, Marina presidente”. Abatida, a ex-senadora caminhava devagar, com um ramalhete de flores nas mãos e acenando timidamente para a população. O caixão foi enterrado ao lado do túmulo do avô de Campos, o ex-governador Miguel Arraes, após uma queima de fogos de artifícios que durou 20 minutos.

Música e conciliação

Um pouco antes do sepultamento, ainda no velório, um grupo de artistas locais fez um mini show para o público que tomava a praça da República, em frente à sede do governo. Entre os músicos estava o famoso pernambucano Alceu Valença, amigo do ex-governador. “Talvez nem todos saibam, mas o Eduardo era muito simpático, alegre e brincalhão. Ele fez uma revolução em Pernambuco”, disse pouco antes de cantar a canção Madeira que cupim não rói, uma tradicional música do Estado que era uma das favoritas do socialista. O público que acompanhava a celebração cantou cada verso com Alceu. Nesse momento, a viúva de Campos, que pediu que os artistas fizessem a apresentação, também cantava as canções que alegravam o seu marido. Ao seu lado, Marina Silva chorava.

Com exceção da cúpula do PSB e de Marina, que não concedeu entrevistas, nenhum outro político de relevância nacional foi ao enterro. Dos que estiveram no velório, poucos falaram com a imprensa, entre eles, está o presidenciável Aécio Neves (PSDB). Ao deixar o Palácio do Campo das Princesas, o tucano afirmou que desejou paz à Marina Silva e que também conversou com a presidenta Dilma, suas principais concorrentes à presidência. Ele pregou a conciliação entre os partidos. “É importante que nós tenhamos a capacidade de compreender, talvez até segundo uma velha lição Tancrediana, que quem deve brigar são as ideias, não as pessoas”, afirmou se referindo ao seu avô, o ex-presidente Tancredo Neves.

Amigo de Campos, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva esteve no velório e chorou muito ao lado da viúva e dos familiares do ex-governador. Ao menos dez governadores e 12 senadores acompanharam as homenagens ao presidenciável que morreu em um acidente aéreo em Santos no último dia 12. Neste domingo, as outras seis vítimas da queda do avião bimotor também foram sepultadas. O assessor de imprensa Carlos Percol, o fotógrafo Alexandre Severo e o cinegrafista Marcelo Lyram tiveram seus corpos enterrados em Pernambuco. O assessor Pedro Valadares foi sepultado em Sergipe, enquanto os pilotos Geraldo Magela Cunha e Marcos Martins foram para Minas Gerais e Paraná, respectivamente.

Após as cerimônias de sepultamento e homenagens ao ex-governador começam no PSB as discussões para a escolha do candidato a vice na chapa de Marina. O mais cotado, conforme fontes do partido, é o deputado pelo Rio Grande do Sul Beto Albuquerque. Ele era um dos porta-vozes de Campos e amigo de Marina Silva. Correm por fora a ex-prefeita paulistana Luiza Erundina, o ex-deputado federal Maurício Rands e o primeiro secretário dos socialistas, Carlos Siqueira. Os dois últimos eram os atuais coordenadores da campanha de Campos. A decisão oficial será anunciada oficialmente após uma reunião marcada para a próxima quarta-feira, dia 20, em Brasília.