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Washington ordena outra autópsia do jovem de Ferguson

Insatisfeita com os resultados apresentados pela polícia local, a família de Brown pede ao Governo federal um novo exame

A polícia usou gás lacrimogêneo durante o toque de recolher no domingo.
A polícia usou gás lacrimogêneo durante o toque de recolher no domingo. AFP

Alegando "circunstâncias extraordinárias", o Departamento de Justiça dos EUA anunciou neste domingo que efetuará uma autópsia no corpo de Michael Brown, o afro-americano de 18 anos que morreu há oito dias baleado por um policial branco em Ferguson, um subúrbio de St. Louis (Missouri). A morte do jovem desatou os maiores protestos raciais em quase um século nessa localidade do Meio Oeste dos EUA, habitada majoritariamente por negros, que acusam a polícia, quase exclusivamente branca, de atuar frequentemente com racismo.

O anúncio chegou poucas horas antes de se encerrar a primeira madrugada com toque de recolher em Ferguson. A polícia deteve sete pessoas e outra foi gravemente ferida à bala por outro civil em circunstâncias confusas, segundo as autoridades.

A polícia do condado fez uma autópsia de Brown no dia seguinte ao tiroteio. Na terça-feira anunciou os resultados preliminares, nos quais certificou que ele morreu por disparos em pleno dia em uma rua residencial, mas não especificou quantos recebeu e anunciou que o diagnóstico final demoraria quatro semanas. A escassez de detalhes indignou a família Brown, que pediu ao Governo federal que realizasse seu próprio exame, alegando falta de confiança nas autoridades locais.

Ao mesmo tempo, a família anunciou no sábado que contratou um conhecido legista para fazer uma autópsia independente. A polícia assegura que o jovem atacou o agente que o matou, mas o garoto que o acompanhava sustenta que ele foi baleado quando já havia erguido os braços.

A decisão do Departamento de Justiça de efetuar a autópsia "o quanto antes" evidencia o crescente mal-estar do Governo federal pelo modo como as autoridades de Ferguson estão levando o caso. A polícia local e do condado ofereceu informação contraditória sobre a morte, e sua forte estratégia de vigilância acirrou os ânimos nos primeiros dias de protestos.

A Casa Branca criticou na semana passada os excessos policiais e ordenou uma investigação paralela sobre o falecimento, que será feita pelo Departamento de Justiça e por volta de quarenta agentes do FBI. As tensões por questões raciais entre o Governo federal e as autoridades locais têm sido constantes na história recente dos EUA. Nos anos 50 e 60, Washington forçou o cumprimento das leis do fim da segregação aos que se opunham.

Durante a manhã deste domingo e na noite de sábado, a principal queixa das centenas de pessoas que protestavam em Ferguson era que o agente que matou Brown ainda não havia sido processado. O governador do Missouri prometeu acelerar a investigação e declinou especificar a duração do toque de recolher, que voltou a entrar em vigor na madrugada de domingo.

Na primeira noite de estado de emergência (que buscava conter os saques da véspera) a maior parte dos manifestantes abandonou antes da meia-noite as áreas dos protestos, mas um grupo de 150 se recusou a fazê-lo. Os agentes, com material antidistúrbio, usaram alto-falante para dispersá-los. Depois, lançaram gás lacrimogêneo para resgatar a pessoa baleada, segundo a polícia.