A Promotoria do México não denunciará Mamá Rosa

As autoridades do país afirmam que a fundadora do albergue 'La Gran Familia', que estava em liberdade por sua idade e condições físicas, tem “transtorno senil”

Rosa Verduzco, no domingo em Zamora (Michoacán).
Rosa Verduzco, no domingo em Zamora (Michoacán). (AFP)

O Ministério Público mexicano não denunciará à Justiça a fundadora do albergue La Grande Família, conhecida como Mamá Rosa. De acordo com um anúncio feito na segunda-feira pela Procuradoria Geral da República (PGR), Rosa do Carmen Verduzco Verduzco, de 81 anos, sofre de um "transtorno senil" e, portanto, não será denunciada por nenhum dos crimes que, conforme o testemunho de dezenas de crianças, eram cometidos no interior da instituição, na localidade de Zamora, Estado de Michoacán.

Verduzco havia ficado livre das acusações nas primeiras horas do domingo e, com o anúncio de segunda-feira, se torna oficialmente inimputável. Há uma semana, o próprio Ministério Público havia conduzido uma operação policial-militar para intervir no albergue, ocasião em que Mamá Rosa e seus oito cuidadores foram detidos. Seis deles foram judicialmente denunciados pela PGR por abusos físicos e sexuais, entre outros delitos. No interior do albergue estavam amontoadas, em condições precárias, quase 600 pessoas, entre elas 492 menores de idade.

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Mamá Rosa, oriunda de uma rica família de Zamora, fundou o albergue em 1947. Durante 60 anos ela recebeu milhares de crianças que viviam em condições miseráveis, abandonadas por seus pais ou mesmo trazidas de instituições familiares estatais em municípios espalhados por várias partes do México. Ela impunha uma formação rigorosa às crianças, e é lembrada com carinho por vários ex-internos. "Apesar de tudo, gosto muito dela. É a única e verdadeira mãe que tive", explicava um de seus filhos ao jornal El Universal. O jornal descreve, de fato, uma acolhida maternal ao rapaz. "Você precisa seguir em frente, se comportar bem e se erguer. Não quero que você ande por aí como vagabundo, bêbado. Precisa trabalhar, se casar e ter filhos com uma só mulher", aconselhou ao interno, que falou ao jornal banhado em lágrimas.

Quase 300 menores permanecem no albergue La Grande Família. Na segunda-feira, o Governo mexicano liberou 138 adultos que permaneciam no local, dando-lhes um documento oficial de identidade. Alguns deixaram o asilo imediatamente, mas outros decidiram ficar no albergue por não terem outro lugar aonde ir. Durante o fim de semana, as autoridades transferiram 167 crianças para outras regiões do país.

As primeiras denúncias contra Verduzco datam de 1989

As primeiras denúncias contra Mamá Rosa e o albergue que ela administrava surgiram há pelo menos 25 anos. Muitos pais que tinham entregado seus filhos a Verduzco assinaram também uma procuração em cartório autorizando-a a "educá-los" até atingirem a maioridade. Mas, em caso de arrependimento dos pais, a diretora do La Grande Família impedia a saída dos menores, a menos que pagassem uma quantia equivalente "ao investimento" que a instituição havia feito na criança. A procuração não autorizava legalmente Verduzco a decidir sobre as crianças – no México, a custódia só pode ser alterada por um juiz.

Pelo menos 20 pais apresentaram denúncias pelo crime de cárcere privado à Procuradoria estadual de Michoacán entre 1989 e 2013. Dois ex-governadores locais, Lázaro Cárdenas Bote e Leonel Godoy Rangel, saíram publicamente em defesa da atuação de Verduzco, sem explicar por que as denúncias contra ela não foram investigadas nos seus mandatos.

Em Jalisco, Estado vizinho a Michoacán, as primeiras acusações surgiram em meados dos anos oitenta, recorda a jornalista e professora Alina García, que acrescenta que um ex-diretor do Sistema para o Desenvolvimento Integral da Família (DIF) de Jalisco, Miguel Castellanos Puga, tentou visitar o albergue para investigar as denúncias em 1985. "E ela o mandou passear. Nem sequer o deixou entrar, embora fosse uma autoridade estatal", conta García por telefone. A procuradoria mexicana afirma que, desde a intervenção federal, recebeu pelo menos 150 novas denúncias.

O futuro da casa onde permanecem quase 300 crianças e que durante 60 anos foi a sede do albergue La Grande Família é incerto. A propriedade pertence a Rosa Verduzco, que, por estar livre de acusações judiciais, pode reivindicá-la legalmente. Tampouco há respostas sobre o destino das milionárias doações que o La Grande Família recebia de empresários e do Governo.

Uma mulher de 30 anos, registrada por Rosa Verduzco, mostra seu documento de identidade obtido hoje.
Uma mulher de 30 anos, registrada por Rosa Verduzco, mostra seu documento de identidade obtido hoje.HECTOR GUERRERO (AFP)

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