A morte do dançarino DG aponta um novo escândalo policial no Rio

O jovem recebeu um disparo feito por um dos nove policiais que participavam da operação

Enterro de Douglas Rafael da Silva Pereira no Rio.
Enterro de Douglas Rafael da Silva Pereira no Rio.FELIPE DANA (AP)

As primeiras conclusões das investigações conduzidas pela Polícia Civil do Rio de Janeiro sobre a morte do dançarino carioca Douglas Rafael da Silva Pereira, mais conhecido por DG, não deixam muito espaço para dúvida: o jovem recebeu um disparo feito por um dos nove policiais que, na noite de 22 de abril, participavam de uma suposta operação contra narcotraficantes na favela do Pavão-Pavãozinho.

Segundo os investigadores, a bala que tirou a vida de DG foi de calibre 40 e corresponde às pistolas usadas naquela noite por dois policiais. O grupo fazia a patrulha equipada com fuzis de assalto de diferentes calibres. A investigação mantém em aberto duas interrogações cruciais: a primeira, em que circunstâncias DG foi morto. De acordo com a versão da polícia, o dançarino fugia de um intenso fogo cruzado entre policiais e narcotraficantes quando recebeu um disparo que entrou pela região lombar esquerda e saiu pelo ombro direito. No entanto, não são poucas as testemunhas que naquela noite se encontravam próximas ao local do incidente e que insistem que não houve nenhum confronto. As mesmas fontes falam de alguns disparos concentrados em um breve momento.

A segunda interrogação tem a ver com a autoria do disparo, com nomes e sobrenomes. Os investigadores ainda não chegaram a uma conclusão definitiva, embora as provas já apontem diretamente para dois policiais.

A isso é preciso somar que o primeiro relatório forense realizado, na hora, negou que o cadáver apresentasse marcas de disparo. Uma segunda análise do corpo, realizada pelo Instituto Médico Legal (IML), confirmou “uma hemorragia interna desencadeada por laceração pulmonar gerada por objeto transfixante”. Foi a partir desse momento que a mãe de DG, Maria de Fátima Silva, iniciou uma campanha sem pausa para esclarecer o contexto da morte de seu filho. Ela sustenta que a unidade formada por nove policiais executou DG a sangue frio e que o plano inicial contemplava inclusive o desaparecimento do cadáver.

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“Tudo o que foi publicado é falso. Meu filho não fugia de ninguém naquela noite. O que acontecia é que ele se estranhava com um policial militar da Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) local, porque havia roubado sua moto. Na noite de 22 de abril, policiais o abordaram na rua, o jogaram dentro de uma creche, roubaram tudo o que tinha de valor e lhe deram um tiro. Depois o espancaram enquanto agonizava”, relata Maria de Fátima.

“Tudo o que esses policiais declararam é tão grotesco que faz rir”, insiste. Segundo consta nas investigações, foi desprezada uma prova trazida pelos agentes que participaram da operação e que era claramente dirigida para relacionar DG com o tráfico de drogas do Pavão-Pavãozinho. Os agentes apresentaram um radiotransmissor que, de acordo com a versão deles, foi encontrado junto ao corpo sem vida do jovem. Os traficantes usam com frequência estes aparelhos para se comunicar dentro das favelas sem que suas conversas sejam interceptadas pela polícia.

Maria de Fátima, que recentemente iniciou estudos de direito e que nos últimos dois meses dedicou sua vida a investigar a morte do filho, denuncia também que os moradores do Pavão-Pavãozinho vivem amedrontados pelos agentes locais. Sobram pessoas, diz ela, que poderiam dar testemunhos que jogariam por terra a versão da Polícia Militar, mas a lei do silêncio impera na favela, oprimida duplamente por uma preocupante repressão dos agentes e pela aparição repentina de uma milícia que pretende tomar o controle da economia local.

As versões dos fatos apresentadas pelos policiais investigados têm grandes contradições, como na hora de calcular a duração do suposto tiroteio. O sargento presente na operação declarou que o enfrentamento durou entre 40 minutos e uma hora. Um dos soldados afirma, contudo, ter estado em um fogo cruzado de meia hora. Versões de vários moradores mencionam alguns disparos isolados.

Pouco depois da morte de DG, na praça do Pavão-Pavãozinho - onde ele perdeu a vida, apareceu um grafite homenageando sua figura na comunidade. São muitos os moradores que afirmam que o dançarino, que trabalhava em um dos programas mais populares da Rede Globo, era uma pessoa carismática e feliz como poucas.

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