A polêmica metamorfose do templo do futebol

A questionada reforma do Maracanã para a Copa se soma a um controverso projeto urbanístico

Vista aérea do estádio Mário Filho (Maracanã).
Vista aérea do estádio Mário Filho (Maracanã).YASUYOSHI CHIBA (AFP)

O estádio do Maracanã, templo do futebol brasileiro e parada imprescindível dos fãs desse esporte que forjou lendas como Pelé, Maradona, Di Stéfano e Beckenbauer, vive dias difíceis. Sua questionada reforma para esta Copa do Mundo se soma a um controvertido projeto urbanístico que modificou radicalmente a fisionomia de um bairro suburbano por definição, de um estranho conglomerado de ruas e avenidas que às quartas e domingos costumava reger-se pelos códigos das vigorosas e folclóricas torcidas cariocas. Os vendedores ambulantes de cerveja e pastel e os velhos botecos boleiros impregnados do aroma antigo de cerveja gelada e cachaça barata correm risco de extinção. Em seu lugar, proliferaram as ciclovias e as avenidas convenientemente sinalizadas conforme exige a FIFA. A vizinha comunidade do Metrô Mangueira deixou de ser uma favela para virar algo muito pior: uma imagem de pós-guerra, com centenas de casas demolidas e montanhas de escombros e lixo onde os ratos, os viciados em crack e as doenças infecciosas proliferam à vontade.

A poucos metros se eleva o imponente estádio de 78.000 lugares, equipado com todo luxo de detalhes. Seu interior, segundo os especialistas, é cômodo e irretocável. Sua fachada, dizem muitos cariocas, perdeu o encanto de antigamente, quando nela preponderavam as cores branca e azul. Agora é uma gigantesca estrutura de concreto armado, cuja reforma custou mais de 1,2 bilhão de reais, sem que tenha obtido a unanimidade do afeto local. Os torcedores se queixam de que a filosofia do estádio mudou completamente, de que o Maracanã é hoje um lugar mais elitista, com ingressos mais caros, pensados para um público nada popular. Por exemplo, as torcidas organizadas se queixam de que é difícil ficar de pé para impulsionar seus times, já que todos os lugares, teoricamente, são para torcedores sentados. A entrada de bandeiras e outros artefatos também está muito mais controlada.

“A construção de um estádio dessa magnitude, do tamanho do Maracanã, tinha como objetivo mostrar ao mundo a pujança do Brasil depois da Segunda Guerra Mundial, quando as grandes potências ainda se recuperavam. O Brasil aparecia como o grande colosso do futebol”, explica Maurício Drummond, professor de história da UFRJ (Universidade Federal do Rio do Janeiro). Na final da Copa de 1950, quando o Brasil caiu diante do Uruguai no histórico maracanazo, 177.000 pessoas ingressaram oficialmente no estádio, embora os historiadores estimem que na verdade foram 200.000 torcedores.

A imagem contrasta fortemente com o Maracanã de hoje. Vários comerciantes explicam que os três anos de reforma levaram ao fechamento de numerosos estabelecimentos. “Só nos trouxe poeira e barulho. Ninguém nos ajudou, nem moral nem economicamente. Abandonaram a gente completamente e, no meu caso, isso causou prejuízos incalculáveis. Outros inclusive tiveram que fechar”, lamenta-se João de Sales, proprietário do Bar dos Esportes, localizado naquela que é possivelmente a esquina mais estratégica nas imediações do estádio.

Os táxis tampouco se livraram da metamorfose. Os pontos antes distribuídos ao redor do Maracanã precisaram se mudar para ruas vizinhas, muito menos acessíveis. “Os prejuízos estão sendo gigantescos. O táxi é um serviço de utilidade pública, mas, aqui, nos dias de jogo nem os moradores podem usá-los”, queixa-se Yani Lassé, que administra uma das paradas. Ao seu lado está David Costa, proprietário de um apartamento com vista direta para o estádio. David diz que se beneficiou da reforma urbanística do bairro, que entre outras coisas reduziu os indicadores de criminalidade e fez o mercado imobiliário disparar. “O bairro está esteticamente mais bonito, e meu apartamento vale hoje muito mais do que há alguns anos. Além disso, melhorou muito o nível dos frequentadores do estádio. Antes havia muitas brigas”, comenta.

A opinião de David, no entanto, não é compartilhada por dezenas de índios das etnias pataxó e tucano que durante anos ocuparam o antigo Museu do Índio, a poucos metros do estádio. No ano passado, eles foram desalojados pelo Governo estadual com o argumento de que esses terrenos faziam parte do plano de reforma urbanística do bairro. Depois de uma violenta desocupação, as ruínas do edifício continuam em pé nas imediações do Maracanã, dando-lhe um ar de decadente abandono. “Tiraram-nos de nossa aldeia pela força e nos prometeram uma moradia digna. Mas não o cumpriram”, sentencia Garapirá, um índio pataxó que foi um dos líderes da luta contra o desalojamento do edifício.

O mesmo aconteceu na favela do Metrô Mangueira, a apenas 500 metros do estádio, onde 700 famílias precisaram fazer as malas para acatar uma ordem municipal de despejo. Até hoje, ninguém sabe explicar qual é o plano urbanístico que embasou a demolição maciça de moradias nesse subúrbio. No Metrô Mangueira, restam poucas famílias e algumas dezenas de oficinas mecânicas que sobrevivem como podem em meio a um cenário dantesco de escombros e moradias demolidas, como se um terremoto ou um bombardeio não tivessem deixado pedra sobre pedra. “O Maracanã está bonito para os estrangeiros, mas nós, que trabalhamos aqui todos os dias, vivemos em uma situação de precariedade, com as crianças lavando a roupa no meio da rua. Ninguém fez nada por nós. É uma vergonha”, diz Josevan da Silva, que trabalha em uma oficina desta favela.

O compositor e cronista popular carioca Carlos Althier do Lemos Escobar, mais conhecido como Guinga, dedicou há alguns anos uma preciosa canção ao bairro do Maracanã. A letra, assinada por Edu Kneip, diz em uma de suas estrofes: “Morada do sol e do futebol, monumento de histórias reais, a vida contada em bandeiras de almas rivais”. Muita água rolou desde que Guinga e Kneip se inspiraram no subúrbio carioca, do qual hoje restam poucos reflexos.

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