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Le Pen pai faz uma piada antissemita e arruína a estratégia de sua filha

A presidenta da Frente Nacional critica seu pai em público pela primeira vez

Marine Le Pen e seu pai, Jean-Marie Le Pen, em 2011. Ampliar foto
Marine Le Pen e seu pai, Jean-Marie Le Pen, em 2011. AFP

Marine Le Pen passou três anos maquiando o discurso da Frente Nacional, colocando camadas de Botox sobre as rugas fascistas e xenófobas do velho partido de extrema direita. Em um instante, seu pai, Jean-Marie Le Pen, octogenário fundador da Frente Nacional (FN) e presidente vitalício, jogou por terra essa estratégia com um de seus habituais comentários. No domingo, o recém-eleito eurodeputado atacou os artistas que criticam a FN e afirmou, falando sobre o ator e cantor Patrick Bruel, que é judeu: "Na próxima vez vamos passá-lo pelo forno."

A piada antissemita levou a que duas associações pró-direitos humanos denunciassem o ex-paraquedistas nos tribunais, onde já foi condenado duas vezes por negacionismo. A novidade é que a piada deixou a Frente Nacional no pior lugar possível depois que Marine Le Pen conseguiu uma importante vitória nas eleições europeias, convertendo seu partido na primeira força política do país.

Pela primeira vez, a sucessora enfrentou em público seu pai e classificou como um "erro político" suas palavras, matizando que deveria ter previsto que iam ser mal-interpretadas, e concluindo que a Frente Nacional "condena com firmeza toda forma de antissemitismo".

Em outros escalões do partido, Gilbert Collard, um dos dois deputados nacionais da FN, aconselhou Le Pen pai a fazer como o Rei da Espanha e pensar em sua aposentadoria. O vice-presidente Florian Philipott afirmou que o fundador utilizou palavras inapropriadas e excessivas, mas negou que sejam antissemitas. Louis Aliot, companheiro sentimental de Marine Le Pen e também vice-presidente, afirmou que os termos empregados pelo fundador "são desoladores e estúpidos politicamente”. Le Pen pai respondeu a Aliot dizendo que, se há gente em seu campo que pensa isso, “é porque são uns imbecis”.

A polêmica supõe um duro golpe para a imagem de normalidade edificada pela presidenta desde que, ao assumir o comando do partido em janeiro de 2011, assegurou que os campos de extermínio nazistas foram "o sumo da barbárie". Nos últimos meses, a líder, advogada de 46 anos, tinha ameaçado levar aos tribunais todos que associassem a etiqueta "extrema direita" com a FN.

Nesses dias, Marine Le Pen está tentando formar um grupo no Parlamento Europeu, e está encontrando sérias dificuldades para conseguir precisamente porque alguns de seus potenciais aliados (precisa convencer seis partidos de outros tantos países) consideram que a FN é antissemita.

O objetivo a longo prazo de Le Pen é liderar um partido nacionalista, moderno, respeitável e republicano, capaz de governar a França e livre de suas velhas alianças com os grupinhos violentos nostálgicos do nazismo e do colaboracionismo.

A penúltima provocação do ancião fundador e a reação morna de sua sucessora parecem demonstrar que sob a grande camada de Botox ideológico, a Frente Nacional continua sendo fiel a suas rançosas e delitivas essências de extrema direita.