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Tarantino: “Com o formato digital, o cinema que eu conhecia está morto”

O cineasta vai a Cannes para celebrar os 20 anos da Palma de Ouro de ‘Pulp fiction’ e apresentar ‘Por um punhado de dólares’

Quentin Tarantino, no Festival de Cannes.
Quentin Tarantino, no Festival de Cannes.Virginia Mayo

Em Cannes há filas para tudo. Embora também haja nuances. Uma espera normal dura praticamente toda uma projeção. Para os filmes inevitáveis ou encontros como a master class que Sophia Loren ofereceu, a fila se prolonga notavelmente. E depois estão situações como a de hoje: uma coletiva de imprensa de Quentin Tarantino anunciada de um dia para outro. Mais filas com dezenas de fotógrafos e inclusive redatores com as credenciais mais privilegiadas esperando há uma hora antes da chegada do cineasta. Por essas razões, custa imaginar o que pode ocorrer esta noite, quando o diretor apresentará na tela que Cannes tem montada na praia uma projeção de Pulp Fiction, com acesso livre às 21.30, para celebrar os 20 anos da Palma de Ouro que o filme recebeu e à qual irão também Uma Thurman e John Travolta.

O cineasta começou disparando rajadas de palavras, como faz normalmente, como uma homenagem aos Bang-bangs italianos que tanto ama e principalmente Por um punhado de dólares, cuja edição restaurada, apresentada pelo próprio Tarantino, fecha o festival amanhã.

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E, justo depois, o diretor elogiou também os 35 mm, o formato no qual seu filme será projetado esta noite: “O fato de que já não se apresentem filmes assim significa que a guerra está perdida. Não entendo. Com o formato digital, o cinema como eu conhecia está morto. Se converteu em ver televisão em público, e se tenho uma tela grande em casa, não vejo razão para fazê-lo”.

Os fogos artificiais do princípio levaram a muitas perguntas centradas na vitória do digital sobre o cinema, que o cineasta anunciou. “Acho que para esta geração é demasiado tarde, mas espero que a seguinte recupere o que se perdeu”, afirmou Tarantino. E o show continuou, ao ritmo frenético que o cineasta impõe às suas frases e ao seu entorno. “Vou considerar que você está exagerando”, soltou Tarantino a um jornalista que disse que Godard falou que ele era um “homem pobre”. E a um redator de Bangladesh disse que adorava sua voz e perguntou na sala se tinha “alguém da Pixar [produtora]” para contratá-lo.

Ovacionado ao entrar na sala, o cineasta estava encantado com a atenção midiática que desperta tudo o que faz: “Francamente, não sinto uma pressão. Quero que as pessoas esperem muito de mim, quero que tenham grande expectativa pelo meu prósimo trabalho”, defendeu Tarantino, em sua sétima aparição na Croisette. A primeira foi em 1992, quando apresentou Reservoir dogs fora de competição. Desde então, o cineasta levou até Cannes Kill Bill vol. 2, Death proof e Malditos bastardos, além de presidir o júri em 2004. E também premiou Fahrenheit 9/11.

Tanto gosta de seus filmes que ele mesmo os assiste várias vezes: “Quando estou diante da televisão e abro o menu dos filmes, se vejo algum meu, ponho sempre. Outro dia transmitiram Kill Bill vol. 1 e pensei: ‘Vou ver o começo’. E vi até o último título dos putos créditos”. Tarantino reconheceu que a Palma de Ouro que ganhou em 1994 é o troféu que ocupa o lugar mais importante em sua casa dos muitos que acumulou ao longo de sua carreira. E esclareceu porque nunca usa uma trilha sonora original para seus filmes: “Precisaria contratar um compositor que seja capaz de dar uma alma ao filme. E não confio em ninguém até esse ponto”.

Afinal de contas, a confiança de Tarantino em relação ao seu entorno também deve ter sido afetada pelo recente vazamento do roteiro de um de seus novos projetos, o faroeste The hateful eight. Em seu momento, o diretor assegurou que renunciaria ao filme, embora finalmente acabou participando de uma leitura do roteiro ante o público, junto com Tim Roth. “Já me acalmei. Até quero voltar a organizar leituras com outros roteiros, embora talvez não publicamente. Estou terminando o segundo rascunho de The hateful eight. Não sei o que farei: talvez grave, talvez publique ou talvez o converta em uma obra de teatro”. Faça o que faça, será um show.