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Miguel Gonçalves Mendes | cineasta português

O sentido da vida dá a volta ao mundo

O cineasta Miguel Gonçalves Mendes discute questões existenciais em um filme que encontra mitos da vida pública. Mujica e Rousseff podem estar no elenco

O cineasta Miguel Gonçalves Mendes, em São Paulo.
O cineasta Miguel Gonçalves Mendes, em São Paulo.

“Se nossas vidas são dominadas pela busca da felicidade, talvez poucas atividades revelem tanto a respeito da dinâmica desse anseio quanto o ato de viajar. Ainda que de maneira desarticulada, ele expressa um entendimento de como a vida poderia ser fora das limitações do trabalho e da luta pela sobrevivência”. A frase foi escrita pelo filósofo suíço Alain de Botton, no livro A arte de viajar, mas poderia ser uma frase encontrada no filme O Sentido da Vida, que o diretor português Miguel Gonçalves Mendes pretende lançar no início de 2016.

Isso porque o novo filme do diretor de José e Pilar - longa de 2010 sobre a intimidade do Nobel de Literatura José Saramago e sua mulher, Pilar Del Río - é uma proposta ousada, que mistura questionamentos sobre o sentido, a efemeridade e a urgência da vida, além de questões sobre como criamos figuras míticas que acreditamos ser heróis - e, na realidade são tão mortais como nós – misturadas à arte de viajar, como diz o título da obra de Botton. Entre os personagens, um paciente em estado terminal e figuras míticas da contemporaneidade como José Mujica, presidente do Uruguai e, possivelmente, a presidenta Dilma Rousseff, que ainda não respondeu ao convite do cineasta.

Para responder aos questionamentos sobre qual é o sentido da vida, pergunta tão filosófica quanto contemporânea haja vista que uma tentativa de resposta encontra-se hoje até na Wikipedia, Mendes elaborou um roteiro dividido em duas partes. Uma, é acompanhar a viagem ao redor do mundo por oito meses de um homem que sofre de uma doença terminal. A outra, é filmar a intimidade de pessoas públicas e míticas para mostrar, na realidade, o quanto elas são “normais”.

O Sentido da Vida é um documentário construído com premissas da ficção. Eu me aproprio dessas pessoas que eu considero geniais para fazer questionamentos que, eu espero, sejam úteis para muita gente”, define Mendes. “A narrativa conta a história de um jovem que tem uma doença rara e um prazo de vida curto que faz uma viagem ao redor do mundo para conhecer o mundo nas suas mais diversas formas” conta o diretor. “Paralelamente, o filme conta a história da vida privada de sete figuras públicas de diferentes áreas (da literatura, da política, da música, da ciência) que nós consideramos heróis. E o nosso personagem só tem contato com eles através da sua dimensão pública e midiática. Eles nunca vão se cruzar pessoalmente”, explica.

Eu me aproprio dessas pessoas que eu considero geniais para fazer questionamentos que, eu espero, sejam úteis para muita gente

Para isso, Mendes e sua equipe estão trabalhando em duas frentes: Uma é procurar e encontrar o personagem central. “Pensamos que ele deveria ter uma doença que para o filme seria muito rica, que é a paramiloidose. É uma doença que os portugueses, na época das navegações e descobrimentos, espalharam pelo mundo”, explica Mendes. “Falando das coisas ‘legais’ que Portugal deixou pelo mundo, além de roubar ouro e matar índios, também deixaram essa doença”, ironiza o diretor, que é português e está vivendo no Brasil desde o meio do ano passado. Sua produção será fruto de uma parceria entre a sua produtora, a JumpCut, e a O2, do realizador brasileiro Fernando Meirelles. A mesma parceria que lançou José e Pilar há quatro anos.

Com essas especificidades, o personagem principal ainda não foi selecionado. “Já entrevistamos 30 pessoas e ainda temos mais outras 20 para entrevistar”, explica Mendes. Embora ainda não tenham batido o martelo sobre o viajante que dará a volta ao mundo, a equipe já tem duas pessoas que são “boas possibilidades” para participar do filme.

A equipe de sete pessoas, contando com o personagem principal, sairá do Brasil em novembro deste ano e terá Portugal como primeiro destino. Em oito meses, o objetivo é passar por lugares na Europa, Ásia, Oceania, América e terminar no Polo Sul.

A corrida contra o tempo não é apenas para encontrar o personagem. O outro desafio da produção é fazer contato e acertar os ponteiros com as figuras públicas que terão parte de sua vida privada acompanhada por uma câmera durante dois anos.

Agora, a equipe do cineasta batalha por outros nomes, como a presidenta Dilma Rousseff. E esse é mais um dos desafios que Mendes achou para falar sobre o sentido da vida

A ideia é que, no mínimo, sete personalidades, de países diferentes, aceitem participar do filme. O presidente do Uruguai, José Mujica, o fundador do Wikileaks Julian Assange, o escritor português Valter Hugo Mãe, e o filósofo suíço Alain de Botton – Sim, o mesmo do início deste texto – já confirmaram a participação.

Agora, a equipe batalha por outros nomes, como a presidenta Dilma Rousseff. E esse é mais um dos inúmeros desafios que Mendes encontrou para conseguir falar sobre o sentido da vida. “É normal que existam prioridades muito maiores do que o meu filme para a agenda dessas pessoas. E também por isso está sendo muito difícil acessar o gabinete da presidenta Dilma”, diz. “Acho que ela seria uma personagem muito legal. Não só porque ela é a primeira mulher presidenta do Brasil, mas também porque estamos falando de uma mulher que foi torturada, foi guerrilheira, sobreviveu a um câncer… Então eu acho que seria muito importante em termos contemporâneos ter a participação dela”, explica. Por ora, a equipe espera por uma resposta do gabinete da presidenta.

O filme, por ter um orçamento alto por causa principalmente das viagens, deve contar com recursos de editais, patrocinadores e de crowdfunding. Com todos os desafios que Mendes e sua equipe têm pela frente, ainda é cedo para saber se eles descobrirão o sentido da vida. Mas, no mínimo, acharão diversos caminhos para chegar lá.

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