MARAT DESCARTES | ATOR BRASILEIRO

"Estou bem decepcionado com o cinema brasileiro"

Marat Descartes diz que ainda existe preconceito com o cinema nacional e conta quais são seus planos diante desse cenário

O ator Marat Descartes em sua casa, em São Paulo. / Bosco Martín
O ator Marat Descartes em sua casa, em São Paulo. / Bosco Martín

A família é brasileira, mas o nome é francês. Ao ser recebido pela reportagem do EL PAÍS em sua casa, um simpático sobrado no bairro da Vila Romana, em São Paulo, o ator Marat Descartes avisou: "A pronúncia, em francês, é 'Marrá'. Mas em português, é 'Marati' mesmo", disse sobre a homenagem que o bisavô materno, que era coronel, fez aos filhos, dando-lhes nomes de guerreiros da Revolução Francesa, e que foram passados para as próximas gerações.

Aos 39 anos, dos quais 20 de carreira, o ator com nome de revolucionário tem sido chamado de "o queridinho do cinema" pela imprensa brasileira. Rótulo que ele dispensa, elegantemente. "Fico muito grato, acho muito bacana de dizerem que eu sou o queridinho, mas eu nem acho que sou", diz. "Tem gente que está fazendo muito mais cinema do que eu".

Porém, é preciso reconhecer que Descartes está na moda. Foi o homenageado da 17º Mostra de Cinema de Tiradentes, que ocorreu em janeiro deste ano. "(O Festival de) Tiradentes foi muito emocionante, a minha família e os meus amigos mais próximos estavam lá, foi lindo", diz. "E esse é o primeiro festival que acontece no ano, então é uma plataforma de lançamento para todos todos os filmes legais que serão lançados".

Além disso, está na TV Globo com a série A Teia, vai estrear a nova temporada de O Natal do Harry, no dia 1 de março no Sesc Ipiranga e, recentemente, estava nas telas de cinema de todo o país com o longa Quando eu era vivo, com direção de Marco Dutra. O filme, com Antonio Fagundes e Sandy como protagonistas ao lado de Descartes, faz o gênero de suspense, algo um tanto raro quando se fala de produções brasileiras, viciadas no gênero de comédias. Isso, talvez, tenha afetado a aceitação do público.

O resultado foi um tanto frustrante para o ator. "Para falar a verdade, eu estou bem decepcionado com o cinema", diz. "É uma entrega, uma paixão louca, principalmente do diretor, e o que acontece é que os filmes saem, são lançados e não têm público". Quando eu Era Vivo não ficou nem três semanas em cartaz. Descartes conta que ficou "meio deprimido" por duas semanas depois do ocorrido, tentando entender o que havia dado errado. "E a resposta mais imediata que eu encontro para isso é que o filme não era uma comédia. E realmente só quem bomba no Brasil são as comédias", explica. "Ninguém quer sofrer ou refletir".

De fato, de acordo com a Agência Nacional do Cinema (Ancine), das dez maiores bilheterias de filmes nacionais no ano passado, oito eram comédias. Por outro lado, o cinema brasileiro bateu o recorde de lançamentos, público e renda em 2013. Foram 127 filmes lançados - segundo o órgão, desde 1986 não se registrava mais de 100 lançamentos em um ano - que atraíram 27,8 milhões de espectadores, gerando uma renda de 1,7 bilhão de reais.

Embora os resultados tenham sido comemorados, na realidade, os números são pequenos. O público do cinema nacional representou apenas 18% do público total que foi ao cinema em 2013. "A realidade é que nunca se produziu tanto. Por isso, nem que as salas comercias fossem supergenerosas não daria para passar tudo", diz Descartes. "E qual é a explicação para esse número tão baixo de espectadores diante do público de filmes estrangeiros, senão o preconceito?".

Outro fenômeno, lembra o ator, é a tecnologia. "As pessoas não saem mais de casa para assistir a um filme. Elas baixam na internet ou assistem pelo Netflix, que é um modo muito mais automático de você satisfazer o seu desejo", diz. "E isso é uma contradição. Agora que estão produzindo centenas de filmes, ninguém quer ir ao cinema".

Por isso, o ator passou a buscar uma nova área de atuação. "Eu tenho refletido que, pra você entrar no fluxo do que está acontecendo no mundo, você tem que fazer série agora", diz. "É a chance do momento", conta, emendando que está viciado em House of Cards e Breaking Bad.

Essa oportunidade enxergada por Descartes também tem a ver com a Lei do Conteúdo Nacional, que passou a valer no segundo semestre do ano passado. A nova norma exige dos canais por assinatura  que exibam ao menos três horas e meia semanais de conteúdo brasileiro em horário nobre. "Isso deu uma alavancada na produção. Eu, por exemplo, fiz uns testes para uma série muito bacana, realmente incrível de um canal fechado. Estou rezando para dar certo".

Descartes, aliás, reza também antes de entrar no palco. Filho de Ogum, orixá do panteão religioso afro-brasileiro, e admirador do budismo, o ator conta que sabe bem a hora de "acionar" o Pai-Nosso e Ave-Maria que aprendeu no colégio jesuíta. "Na hora do aperto eu rezo. E antes de entrar no palco também dou uma rezadinha", conta. Foi também no colégio que Descartes se descobriu como ator. Aos 13 anos, incentivado por um professor de filosofia, foi montado um grupo de teatro. Depois disso, ele nunca mais deixou os palcos. Nem quando decidiu estudar Direito na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), logo que encerrou a escola. "O Direito tinha aquela coisa da pressão dos pais de "Ah, legal, você é muito bom no teatro, mas vamos fazer um curso bacana (risos). Eles apostavam em mim, mas não 100% ainda".

Mesmo na faculdade de Direito, Descartes fazia parte do grupo de teatro da universidade. Por isso, decidiu prestar vestibular para a Escola de Arte Dramática (EAD) da Universidade de São Paulo (USP).  "Passei um ano estudando Direito de manhã e indo para a EAD a noite. Eu chegava na PUC parecendo um zumbi, porque os ensaios iam até a meia noite", conta. "Até que decidi largar o Direito e me dedicar somente ao teatro", diz ele, que se formou em 1998.

Filho de uma família de classe média paulistana, Descartes viveu por alguns anos dentro de uma locadora de livros particular. Seus pais, quando se aposentaram, montaram uma locadora de livros em casa. "Eu não lia tudo, mas estava sempre olhando os títulos e lendo as orelhas dos livros. A literatura sempre fez parte da minha vida", diz. Pelo amor à literatura e para ajudar na formação como ator, Descartes decidiu fazer mais uma faculdade e, em 2001, foi estudar Letras. "Mas dessa vez, fiz bem tranquilo. Demorei nove anos para me formar (risos)".

Essa formação em Letras contribuiu para o estilo de peças que o ator contracena. Algumas delas são adaptações de textos do dramaturgo e escritor irlandês Samuel Beckett e também do poeta português Luis de Camões. Por outro lado, fora dos palcos ele não descarta uma carreira internacional. "Sou muito fã de alguns diretores e seria o topo da carreira poder trabalhar com eles, diz.  "Por exemplo, o Michael Haneke, o Almodóvar e o Woody Allen. Gosto muito deles. E, assim, se um desses três rolasse de me convidar, eu ficaria bem feliz!  Já tava ótimo (risos)".