Conchita, bem mais do que uma ‘drag queen’ provocante

Thomas Neuwirth criou o personagem por causa da intolerância que sofreu ao revelar sua homossexualidade

Conchita Wurst, recém-chegada a Viena depois de ganhar Eurovisión.
Conchita Wurst, recém-chegada a Viena depois de ganhar Eurovisión.GEORG HOCHMUTH (EFE)

Conchita Wurst é um delicado personagem feminino que nasceu nas montanhas da Colômbia e cresceu na Alemanha. Tem olhos grandes e melancólicos, exibe uma bela cabeleira escura e uma barba postiça que lhe cobre as bochechas e o queixo, como um enfeite provocativo e simbólico. Thomas (Tom) Neuwirth, autor da biografia de Gmunden, vive em Viena e tornou pública sua homossexualidade aos 14 anos, ao mesmo tempo em que se lançou em busca do sucesso no mundo da música.

Abençoado por um grande talento musical, Tom conseguiu saborear as doçuras do sucesso em 2006 ao participar do programa de televisão Starmania, mas sua fama disparou quando, em 2011, decidiu criar Conchita Wurst, o personagem que o converteu agora em herói do seu país e em porta-bandeira da tolerância depois que ganhou o Eurovisión com um hino ao direito de ser sexualmente diferente: Rise like a Phoenix.

O triunfo foi mais do que um número extravagante de um travesti provocante e com boa voz. A sua apresentação foi um ato político que converteu o jovem artista em figura midiática europeia, adorado em seu país e em todo o mundo gay do continente, mas odiado na Rússia, onde Vladjmir Zhirinovsky disse diante da televisão estatal russa que o sucesso de Conchita significava o “fim da Europa”. “Nossa indignação não tem limites. Há 50 anos, o exército soviético ocupou a Áustria. Sua saída foi um erro, deveria ter ficado”, acrescentou.

“A tolerância não tem fronteiras. Também na Rússia há lugares onde sou muito bem vinda”, diz Conchita Wurst ao lembrar que sua atuação recebeu cinco pontos desse país, uma clara demonstração de que na Rússia também tem gente que pensa diferente. “Esta noite está dedicada a todos aqueles que acreditam na paz e na liberdade. Somos uma unidade”, acrescentou ao saber-se vencedora, sem poder conter as lágrimas. “Foi também uma vitória para todas as pessoas que acreditam num futuro que pode funcionar sem discriminações e exclusões”.

“Graças a Conchita, a Áustria ganhou uma nova imagem, a imagem de um país tolerante”, escreveu o jornal Kurier, ao avaliar a dimensão que teve a vitória da cantora em Copenhague. “É uma mensagem de tolerância dirigida a Putim”, destacou o jornal Kronen Zeitung, enquanto o presidente da Áustria, o socialdemocrata Keinz Fischer, comunicava que a vitória de Conchita Wurst, além de ser uma vitória para a Áustria, era um triunfo da diversidade e da tolerância na Europa. “O fato de ela ter dedicado sua vitória a todos aqueles que acreditamos num futuro de paz e liberdade a torna duplamente valiosa”, escreveu o presidente no Facebook, onde também postou uma foto sua com ela.

A vitória de Conchita Wurst, cujo sobrenome significa “salsicha”, mas que também pode significar, dependendo de como se pronuncie, “indiferente”, tem suas raízes na televisão pública austríaca ORF, que possibilitou que ela fosse candidata ao Eurovisión já em 2012. Mas naquele ano, da mesma forma que agora, a sua presença despertou a fúria da extrema direita da Áustria, que qualificou a sua participação de “ridícula” e insinuou que Thomas Neuwirth tinha problemas psiquiátricos.

Às vésperas do novo concurso, as críticas contra Conchita aumentaram, mas a ORF defendeu publicamente sua decisão de escolher a cantora como representante da Áustria e lançou uma campanha em defesa da tolerância.

“Conchita nasceu por causa da intolerância que Tom sofreu quando era um jovem adolescente”, diz uma breve biografia escrita por Tom sobre seu personagem e ele mesmo. “Por isso, criou uma mulher com barba. Como um catalisador para a discussão de termos como outros ou normais”. “A única coisa que conta é o ser humano”, escreveu Tom/Conchita. “Cada um deve poder viver a sua vida como considerar correto, desde que não prejudique ninguém”.

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