FRANK-WALTER STEINMEIER Ministro alemão de Assuntos Exteriores

“É preciso fazer todos os esforços para evitar uma nova Guerra Fria”

O chefe da diplomacia alemã alerta que as imagens de Odessa mostram que “estamos a poucos passos” de um conflito militar aberto na Ucrânia

Frank-Walter Steinmeier, ministro de Assuntos Exteriores da Alemanha.
Frank-Walter Steinmeier, ministro de Assuntos Exteriores da Alemanha.

Frank-Walter Steinmeier (Detmold, 1956) está há menos de cinco meses à frente do Ministério de Relações Exteriores da Alemanha. Quando lhe ofereceram novamente o cargo que já havia ocupado na primeira coligação liderada por Angela Merkel, este sócio-democrata não podia imaginar que seu trabalho se tornaria tão complicado em tão pouco tempo. Num encontro realizado na segunda-feira com o EL PAÍS, Le Monde, La Repubblica e Gazeta Wyborcza, Steinmeier falava bem devagar, como se medisse em cada palavra a gravidade dos acontecimentos na Ucrânia.

Pergunta. Depois dos acontecimentos deste fim de semana, a Ucrânia está em guerra?

Resposta. As sangrentas imagens de Odessa nos mostraram que estamos a poucos passos de um conflito militar aberto na Ucrânia. Mas a função dos ministros de Relações Exteriores não é descrever a situação, mas mudá-la. E por isso quero buscar os instrumentos que evitem uma guerra civil.

P. Quais são esses instrumentos?

R. Não há muitas possibilidades. Todos descartamos uma intervenção militar dos países da UE. Por isso queremos criar as bases para uma solução equilibrada entre a pressão política e a oferta diplomática. Ninguém nega que esta solução, depois dos acontecimentos dos últimos dias, é mais difícil, mas talvez a tragédia de Odessa possa transformar-se em um alerta para os envolvidos de que esta situação não pode e, acima de tudo, não deve continuar.

P. A convocatória de uma segunda conferência de Genebra faz parte das propostas construtivas da Alemanha?

R. Denunciar a violação ao direito internacional, como a separação da Crimeia da Ucrânia, era necessário. Mas nos últimos meses nos mostraram que é muito mais difícil propor soluções em um conflito cada vez mais quente. Estamos convencidos de que é urgente uma missão de observadores da OSCE, para ter ao menos uma visão geral da situação do país. Será necessário ainda mais esforço colocar em andamento uma nova reunião em Genebra entre as quatro partes —Ucrânia, Rússia, a UE e os Estados Unidos—. Claro que é complicado, mas não temos outra solução.

P. O que falhou na primeira reunião de Genebra?

R. O erro não foi a conferência, mas a falta de um mecanismo que permitisse garantir sua aplicação. Genebra serviu para estabelecer uma base política que tratasse de desativar o conflito. Mas os passos para chegar a essa meta nem foram descritos nem colocados em prática. E por isso necessitamos de uma segunda reunião dos quatro.

P. O que Putin está buscando? Reconstruir uma parte do império soviético?

R. A política exterior russa está focada em suas zonas de influência. E isso não dá lugar apenas a mal-entendidos, mas também a conflitos na parte do mundo que a partir de 1989 separou-se de sua visão geoestratégica. A ideia da Europa de desenvolver uma relação política e econômica com seus vizinhos do Leste não se desenhou como uma ameaça à Rússia. Devemos convencer a Rússia de que a estabilidade da Ucrânia interessa tanto a eles quanto à UE.

P. As eleições na Ucrânia previstas para 25 de maio poderão ser realizadas?

R. As condições não são boas. Mas não se pode permitir uma estratégia que impeça a Ucrânia de realizar eleições presidenciais. Aí a Rússia está presa numa contradição: por um lado, coloca em dúvida a legitimidade política dos dirigentes da Ucrânia, e por outro dificulta as possibilidades de restaurar a legitimidade por meio das urnas.

P. Estamos diante de uma nova Guerra Fria?

R. A política tem a responsabilidade de evitar aquilo que se teme. O conflito ucraniano adquire uma velocidade e nitidez que há algum tempo não teríamos acreditado. De repente, 25 anos depois da política de blocos opostos, podemos ter na Europa uma nova virulenta divisão. Este não é um risco apenas para a Ucrânia. Este conflito pode acabar com a arquitetura de segurança conseguida na Europa ao longo de décadas. Temos que fazer todos os esforços para evitar uma nova Guerra Fria.

P. Quais foram os efeitos das leves sanções impostas à Rússia?

R. Não posso dizer exatamente o que é resultado das sanções e o que reflete a incerteza econômica. Mas depois do conflito a Rússia sofre com uma saída de capitais no montante de bilhões. A Rússia está pagando um preço muito alto. Moscou, ainda que apenas por razões econômicas, tem um interesse comum com a Europa para a estabilidade da Ucrânia.

P. Desde o começo da crise, a Alemanha tem liderado o grupo de países europeus que pedem sanções moderadas. O agravamento do conflito e as pressões externas fizeram com que mudassem de ideia?

R. Não me parece um debate muito inteligente. Em vez de sanções duras ou moderadas, prefiro as inteligentes. Até agora todas as decisões foram tomadas pelos chefes de Estado e de Governo e pelos ministros de Relações Exteriores de maneira coordenada.

P. Como se conseguiu a liberação dos inspetores da OSCE?

R. Estou muito contente pela liberação dos reféns. É preciso agradecer a muitos dos que intervieram. Acima de tudo, à OSCE, uma instituição que pode ter sido subestimada nos últimos anos e décadas. A OSCE pode atuar como intermediário neutro. Mas, provavelmente, a OSCE não teria obtido êxito na liberação dos reféns se a Rússia não houvesse exercido sua influência sobre os sequestradores.

P. Esta crise começou o ano passado, quando o ex-presidente ucraniano recusou uma oferta europeia para um acordo comercial. Esta oferta serviu como desculpa para Putin adotar uma postura radical? Foi um erro da UE obrigar a Ucrânia a escolher entre Moscou ou Bruxelas?

R. A política de vizinhança europeia nasceu como uma alternativa à adesão. A UE se deu conta, com razão, de que não era bom afastar seus vizinhos do Sul e do Leste, e de que tinha que lhes oferecer possibilidades para o desenvolvimento político e econômico. Estes acordos apresentaram-se como uma obrigação de escolher entre um sócio ou outro, e nunca deveremos fazer isso no futuro.

P. As conclusões da cúpula da OTAN realizada em Bucareste em 2008 apontavam a Ucrânia e a Geórgia como futuros membros. Esta ideia continua valendo? Seria possível imaginar a Ucrânia como membro da UE em 10 ou 20 anos?

R. Adoraria poder me dedicar a pensar o que será da Europa em 20 ou 30 anos, mas infelizmente tenho que concentrar em contribuir para desativar este perigoso conflito. Não vejo a Ucrânia no processo de entrar na OTAN. Sobre a ampliação da UE, agora temos como foco os Balcãs. Já é algo suficientemente complicado. O que virá no futuro, não sei.

P. Putin ainda é um membro em potencial ou já é apenas um inimigo?

R. Não podemos permitir que seja nosso inimigo.