O Vaticano admite que ignorar os abusos causou “repercussões devastadoras”

O cardeal O’Malley lamenta que muitos dentro da Igreja ainda não sejam conscientes da magnitude do problema

Sean O'Malley e Marie Collins, da comissão contra a pedofilia na Igreja.
Sean O'Malley e Marie Collins, da comissão contra a pedofilia na Igreja.Riccardo De Luca / AP

Durante décadas, a Igreja católica tem estado --ou quis estar-- cega, surda e muda diante dos abusos sexuais a menores cometidos por seus sacerdotes e religiosos. Uma atitude que, segundo os membros da Comissão para a Proteção do Menor instituída pelo papa Francisco, provocou “repercussões devastadoras”. De tal forma que, a partir de agora, a atuação do Vaticano deverá ser regida por um princípio muito claro: “O bem de uma criança ou de um adulto vulnerável é prioritário na hora de tomar qualquer decisão”.

Em um comunicado emitido depois de seus primeiros três dias de reunião, a comissão –da qual faz parte Marie Collins, uma mulher irlandesa de 66 anos que sofreu abusos de um sacerdote quando tinha 13 anos e estava doente— propõe ao Vaticano que “dê ênfase às trágicas consequências do abuso sexual e das devastadoras repercussões de não escutar ou não informar quando se suspeita de um abuso, bem como da falta de ajuda às vítimas de abusos sexuais e suas famílias”.

De forma habitual, diante de um crime tão repugnante como a pedofilia, a Igreja costumava se defender atacando, se mostrando como a vítima de campanhas midiáticas desproporcionais que queriam converter uma suposta exceção –as denúncias por abusos nos EUA e no Reino Unido—em um mal muito estendido. Dito isso, o que está sendo vivido hoje na Sala de Imprensa do Vaticano permite incubar uma certa esperança. Por um lado, um alto representante da hierarquia católica, o cardeal Sean Patrick O’Malley, arcebispo de Boston, falando de forma muito clara do alcance do problema e inclusive lamentando que dentro da Igreja ainda tenha quem “não considera que se trata de um problema universal, mas sim de certos países do mundo”. E, por outro lado, a presença nessa comissão –por expressa vontade de Jorge Mario Bergoglio— de Marie Collins, que há dois anos expressou sem rodeios, em um simpósio ocorrido na Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma, toda a dor sofrida pelo jeito que a Igreja protegeu o sacerdote abusador, jogando para ela o peso da culpa: “Já se passaram 50 anos e não consigo esquecer. Aquelas visitas noturnas ao meu quarto mudaram a minha vida”.

Mais informações

O cardeal capuchinho, e a vítima que não esquece o que ocorreu para que outras não tenham que passar por seu calvário, encheram de propostas o silêncio. Um e outro, como porta-vozes da comissão formada por oito pessoas mas que aumentará em breve com representantes de outras partes do mundo, destacaram que a luta contra a pedofilia no seio da Igreja será eficaz se cada paróquia, se a cada diocese, a tome como um problema concreto a ser combatido e não como um problema abstrato. Tanto os fieis como a hierarquia católica têm que se comprometer, segundo a Comissão, “para que as igrejas, escolas e instituições sejam locais seguros para todos os menores; para garantir que as crianças e os adultos vulneráveis estejam protegidos dos abusos”.

A primeira reunião da comissão vaticana para a proteção dos menores tem um curioso –ou talvez seria mais exato escrever preocupante—ponto de coincidência com o Conselho de Economia que fez suas primeiras conclusões na sexta-feira. Ambos grupos formados por religiosos e laicos constataram que as reformas urgentes que o Vaticano precisa, seja relativo à transparência financeira ou à luta contra a pedofilia, estão encontrando mais reticências no seio da Igreja do que se esperava. A própria Marie Collins denunciou que, a essa altura, “muitos bispos acham ainda que é impossível que em sua diocese ocorram casos de abusos por parte do clero…”. A comissão, cujas funções não correspondem à de apresentar propostas concretas, vigiará para que a Igreja assuma sua “responsabilidade” diante de algo que, como lembrou o papa Francisco na volta do Rio de Janeiro, “não é só um pecado, mas também um crime”. Um crime cuja dor não prescreve na memória das vítimas.