ELEIÇÕES NA COLÔMBIA

Os rivais de Santos impõem condições para as negociações com as FARC

Dos quatro candidatos à presidência, só o uribista Oscar Iván Zuluaga suspenderia o processo de paz conduzido com a guerrilha desde novembro de 2012

Membros das Farc que participam do processo de paz.
Membros das Farc que participam do processo de paz.YAMIL LAGE (AFP)

Se há algo que na Colômbia é um bumerangue político é a receita para terminar com mais de cinco décadas de conflito armado. No passado, a oferta de paz em tempos de campanhas presidenciais, fosse a de solução negociada ou armada, fez que candidatos como os conservadores Belisario Betancur, Andrés Pastrana e Álvaro Uribe chegassem à presidência.

Agora, a oferta de paz volta a ser usada como uma fórmula para conquistar a presidência. Por isso, desde que o presidente Juan Manuel Santos anunciou que concorreria à reeleição, o processo de paz com a guerrilha das Farc se converteu no cavalo de batalha de sua campanha. Santos justificou sua decisão de disputar um segundo mandato dizendo que “quando se vê a luz no fim do túnel, não se volta atrás”. Esta semana, durante a apresentação de seu programa de governo e a menos de um mês do primeiro turno das presidenciais, ele aprimorou a ideia e lançou a seguinte frase: “O segundo tempo será o da paz”.

O mandatário colombiano apostou sua carreira política num novo processo de paz com a guerrilha mais antiga da América Latina, iniciado em Cuba há um ano e meio. Mas aqueles cálculos iniciais, quando Santos dizia com otimismo que obter um acordo para pôr fim a um conflito armado de 50 anos seria questão de meses, não se tornaram realidade. Dos seis temas que compunham a agenda de negociação, foram obtidos acordos parciais em dois deles (desenvolvimento agrário e participação política). Por isso, foi inevitável que o processo de paz permeasse a campanha eleitoral e fizesse parte das agendas dos quatro candidatos que disputam a presidência com Santos.

A pergunta sobre o futuro do processo de paz é inevitável. Saber o que ocorrerá caso Santos não seja eleito – algo que até o momento parece que não acontecerá – preocupa muitos colombianos, tanto os que estão a favor de uma saída negociada do conflito como aqueles que preferem uma solução militar. Três dos quatro rivais do presidente colombiano coincidem que, se forem eleitos, continuarão com as conversações, mas desde que sejam cumpridas algumas condições diferentes das que regem atualmente a mesa de negociações. Só um deles, o opositor uribista Oscar Iván Zuluaga, suspenderia o diálogo de paz.

Para Zuluaga, que se recuperou nas últimas pesquisas, encurtando a distância em relação a Santos, as Farc são “o principal cartel do narcotráfico do mundo e a principal organização terrorista da Colômbia”. Zuluaga assegurou ao EL PAÍS que, se for eleito presidente, o primeiro que fará será suspender as negociações para impor como condição a essa guerrilha que ponha fim a todas ações terroristas. “E darei uma semana às Farc para que decidam se querem continuar a negociação sob essa condição”, acrescentou.

O principal temor do aspirante presidencial do Centro Democrático é que os chefes desse grupo subversivo não sejam processados pelos crimes de lesa-humanidade que cometeram contra a população colombiana e, além disso, possam participar da política. “A paz não pode ser construída sobre a base da impunidade. Embora estejamos de acordo com a redução de penas, não vamos permitir que fiquem impunes os delitos atrozes e de lesa-humanidade. Aqueles que tiverem de responder por esse tipo de delitos têm de ir para a prisão.” A proposta de paz de Zuluaga se baseia, portanto, em que os guerrilheiros se submetam à justiça e compensem suas vítimas, para que assim se obtenha a reconciliação.

Por sua parte, o candidato da Aliança Verde, Enrique Peñalosa, outro que cresceu nas pesquisas de intenção de voto, é conservador em suas críticas. Sua posição tem sido de centro. O ex-prefeito de Remará disse que continuaria com o processo de paz e até ratificaria a equipe negociadora que o governo mantém atualmente em Havana. “Não vamos dar nenhuma desculpa às Farc para que retardem a assinatura da paz”, disse ele ao El PAÍS. Peñalosa assegurou que essa posição não significa nenhuma simpatia com relação às Farc “nem tampouco uma debilitação da força pública colombiana, a qual seguiria fazendo operações como se não se estivesse negociando em Havana”.

O que sim questionou Peñalosa é que Santos esteja usando eleitoralmente o processo de paz. “Os diálogos de paz são uma política de Estado, portanto não se deve fazer política eleitoral com eles. Lamento que o presidente-candidato esteja fazendo isso. A paz, assim como as relações internacionais, é uma política de Estado”, insistiu.

As outras duas candidatas, a conservadora Marta Lucía Ramírez e a líder do partido de esquerda Pólo Democrático, Clara López, também imporiam condições às Farc. Ramírez, que foi ministra de Defesa do governo de Álvaro Uribe, daria ao grupo guerrilheiro quatro meses para depor as armas, suspender o recrutamento de menores e abandonar o narcotráfico e toda ação terrorista. Ramírez disse nos debates eleitorais que terminar o conflito armado é um “imperativo moral”, mas sem que o custo da paz seja “fazer o Estado e a sociedade colombiana cederem na exigência do cumprimento da lei”.

López exigiria um “cessar-fogo unilateral” por parte das Farc e definiria um cronograma para terminar o quanto antes com o conflito. A candidata esquerdista também falou em fechar acordos humanitários como o fim do recrutamento de meninos e o início da desminagem.

Frente a essas posições dos candidatos presidenciais, as Farc, por meio de Andrés Paris, um de seus porta-vozes em Havana, afirmaram que “todos sacrificam a generosidade que é preciso ter” com o processo de paz – que, paradoxalmente, continua sendo um tema que não seduz totalmente os colombianos. Nas últimas pesquisas, o pessimismo quanto ao êxito das negociações alcançou 63%. O fim do conflito armado também não é visto como uma grande prioridade, já que aparece na sexta posição, depois do emprego, segurança, saúde, redução da pobreza e melhoria da educação.

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