A rotina dos incidentes isolados de racismo

A indiferença marca a luta contra a xenofobia no esporte na Espanha Outros países como os Estados Unidos optam por aplicar punições exemplares

Fotos de protesto pelo ato de racismo contra Daniel Alves.
Fotos de protesto pelo ato de racismo contra Daniel Alves.

Talvez o problema do racismo no esporte se explique por si só e por isso a explicação esteja realmente no problema: frustração, marginalidade, o refúgio seguro das massas, o esgotamento, o império do subconsciente... Inevitavelmente, nesses traços psicológicos e sociais os comportamentos racistas dos torcedores do esporte são dimensionados, mais acentuados nos esportes de massa de cada país, mas nem um pouco estranhos aos esportes de menor porte. Estabelecida a explicação, a governança do esporte sente-se mais tranquila, já aliviada, e as medidas são relaxadas porque no final das contas o futebol, por exemplo, é um esporte das massas e todos sabemos como se comportam as massas enfurecidas ou eufóricas. Nesse catálogo de explicações, o argumento de que o futebol não é senão a manifestação diária dos problemas da sociedade é um escudo capaz de resistir aos embates de qualquer excalibur que ataque o que tem sido chamado de paixão, tantas vezes transformada em loucura.

A banana atirada contra o jogador do Barça Dani Alves domingo passado, no El Madrigal (Vila-real), acabou por ser a fruta madura caída por seu próprio peso da árvore da ignorância e da exaltação. Um incidente isolado, observação que funciona como um bálsamo relaxante frente à soberba do espetáculo. O problema é que a história está cheia de incidentes isolados. Basta clicar em qualquer servidor de notícias na Internet para comprovar a rotina dos incidentes isolados. E aí só aparecem os comentados ou publicados, seja pela gravidade do caso, seja pela transcendência do personagem, do país ou do esporte no qual ocorrem. Ainda assim, trata-se de uma rotina enciclopédica.

Ibarra: “A atitude da Comissão Antiviolência é indolente”

Nela competem o anônimo atirador de bananas (sempre é melhor a honrosa fruta do que a faca afiada) com um magnata de prestígio norte-americano, Donald Sterling, proprietário da franquia do Los Angeles Clippers na NBA, que agride a raça negra nos comentários à sua namorada, em um esporte no qual os negros dominam historicamente a disputa e sustentam o poderio do espetáculo. Na segunda-feira, mostraram a Sterling a porta da saída, sinal do tratamento diferente que a luta contra o racismo recebe em uma cultura e na outra.

“A atitude da Comissão Estatal Contra a Violência e o Racismo é indolente e deixa a desejar”, disse Esteban Ibarra, membro do Observatório contra o Racismo e do Movimento contra a Intolerância, referindo-se ao caso espanhol. Sua afirmação é demolidora: “Trata-se de esconder tudo o que se pode”, algo que no subconsciente coletivo espanhol lembra as decisões na luta contra o doping.

A FIFA, a organização máxima do futebol mundial, foi ainda mais longe. O jogador do Milan, Kevin Constant, francês de origem guineana, se cansou de receber insultos racistas na partida de um amistoso contra o Sassuolo recentemente e decidiu abandonar o campo. A FIFA o repreendeu porque “isso não é uma solução de longo prazo”, e o mesmo foi dito pelo diretor do Milan, Adriano Galliani: “Tudo é muito lamentável, mas não se pode abandonar o campo”. Ou seja, Constant agiu mal por querer abandonar o circo romano cercado por leões do racismo. Seu treinador interveio e ele foi substituído.

Não foi o único. Na Espanha, Eto’o, quando jogava no Barcelona, deixou o estádio La Romareda, depois de não aguentar mais que lhe chamassem de macaco e imitassem sons de símios. Ronaldinho o acompanhou, mas ao final o árbitro e o treinador, Frank Rijkaard, também negro, lhes convenceram para que voltassem ao estádio e a partida foi finalizada. Ninguém, no entanto, retirou os racistas da arquibancada. E, assim, a rotina dos incidentes isolados vai escrevendo linhas e mais linhas na história universal da infâmia.

Samuel Eto'ou ameaça com marchar-se de La Romareda

A única notícia que existe da Comissão Antiviolência (assim chamada para economizar palavras) é a que se produz diante de cada evento esportivo declarando uma ou duas partidas de “alto risco”. O que acontece depois é de jurisdição do árbitro, dos agentes de segurança ou das forças de ordem pública. Quando Eto’o numa segunda ocasião chutou a bola em direção à arquibancada, cansado de novos insultos racistas, foi punido em 6.000 euros (cerca de 18.500 reais). Não consta que o coro racista tenha sofrido alguma punição. Nyom, do Granada, foi punido com cartão amarelo quando fez o mesmo, “por desconsideração ao público”.

As torcidas organizadas violentas, os ultras, encontram no futebol o que mais procuram: uma massa como proteção, uma repercussão social monumental, um deserto para que o subconsciente possa expandir-se e uma impunidade geralmente presente ou com penas tão leves que, em vez de intimidar, incentivam. Além disso, no campo os times identificam-se como inimigos e, portanto, o vandalismo adquire o valor de defesa contra o estranho. Os ultras definem-se principalmente por três hobbies: a violência, o racismo, e a homofobia. O futebol é um recipiente adequado para guardar a pólvora. Nos campos predomina uma linguagem intransigente que fala do futebol viril, onde o jogador sutil que joga como uma senhorita é taxado ou define o futebol feminino como algo que não é nem futebol, nem feminino. Racismo, violência e homofobia tiveram lugar na vida curta do inglês de origem nigeriana Justin Fashanu, primeiro jogador de futebol negro cujo passe somou 1 milhão de libras (3,8 milhões de reais). Depois de um tempo, Fashanu reconheceu sua homossexualidade e foi acusado nos EUA por um jovem que alegou ter sido molestado. Suicidou-se pouco depois de ser absolvido ao considerar “que já havia sido acusado e julgado”.

A FIFA repreendeu um jogador que deixou o campo devido a insultos

As normas antirracistas são aparentemente duras, mas os julgamentos são escassos. Algumas vezes, a massa protege o agressor, outras vezes a massa é incontrolável. O futebol se santifica com ações rápidas como a do Villarreal, identificando e punindo o atirador de bananas, mas o que acontece quando o delinquente é um grupo que não lança bananas, mas insultos? A conivência de muitos dirigentes com os grupos ultras, entendidos como supporters quando em muitos casos se tratam de hooligans, está na base do conflito. Uma vez mais, o futebol acolhe a política de incidentes isolados.

Constant, do Milan, abandona o terreno de jogo em um amistoso

E o que acontece quando o homem de bem chama de “negro de merda” ao jogador que acaba de marcar um gol contra sua equipe e depois culpa seu esgotamento pela perda de consciência...? O negro de merda, como Luis Aragonés referiu-se ao francês Thierry Henry, com a intenção de motivar Antonio Reyes antes de uma partida, “é uma maneira de falar”, outro recurso recorrente para explicar o impossível. Mas a linguagem quase nunca é inocente.

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As campanhas publicitárias continuam. A UEFA e a FIFA, os dois organismos desportivos mais importantes, não se cansam de recorrer à luta contra o racismo. Na segunda-feira, a presidenta Dilma Rousseff, que organizará o próximo Mundial de futebol no Brasil, destacou que o papa Francisco enviará uma mensagem contra o racismo que será lida por um jogador brasileiro antes da partida de abertura. “A partir de agora somos todos macacos”, disse Rousseff emprestando a mensagem da campanha lançada nas redes sociais pelo jogador Neymar, companheiro de Alves no Barcelona.

Mas entre as palavras e as ações há uma grande distância. As normas são frouxas e a atitude dos responsáveis do esporte se move entre a procrastinação e o temor de uma explosão do futebol e outros esportes de peso. A paralisia por análise é evidente. O esporte não tem sabido enfrentar nem o racismo evidente nem o racismo latente. Nem Hitler, nem Roosevelt estenderam a mão a Jesse Owens, depois dos Jogos Olímpicos de Berlim em 1936, em ambos os casos pela mesma razão: era negro.

Graus de intolerância

Luis Gómez

Quando Donald Sterling, o proprietário da equipe Los Angeles Clippers, da NBA, recriminou sua namorada por fazer publicidade de suas relações com negros e por levá-los aos jogos, sabia o que estava dizendo, embora não imaginasse que suas palavras estivessem sendo gravadas e fossem recriminadas pelo próprio presidente Obama. Quando um torcedor jogou uma banana contra Alves durante a partida de futebol Villarreal-Barcelona, também sabia o que estava fazendo, mas não pensava que o jogador do Barça fosse pegar a banana e dar uma mordida, oferecendo uma imagem que foi divulgada pelos cinco continentes. São dois casos de racismo que coincidiram no tempo, mas as comparações acabam por aí.

Sterling foi duramente punido pela NBA e recriminado pelos próprios jogadores. A reação ao incidente do Villarreal não foi igualmente contundente, ainda que o torcedor tenha sido expulso como sócio do clube. A intolerância frente ao racismo avançou de um lado do Atlântico e nem tanto na Velha Europa. E isso apesar de os clubes europeus contratarem jogadores negros desde o início dos tempos, enquanto que na NBA a participação deles só foi permitida depois de 1955. A NBA fez sua travessia do deserto, desde as Ligas exclusivas de jogadores negros, que dormiam e comiam nos ônibus porque não eram admitidos em restaurantes e hotéis, até a realidade atual: em 2011 havia 338 jogadores negros para 54 brancos norte-americanos e outros 52 brancos estrangeiros, além de 9 técnicos negros para 21 brancos. Os Globetrotters que viajaram pelo mundo ganhando dos brancos com malabarismo e senso de humor foram exemplo de uma forma de resposta civil.

No futebol europeu não houve ligas para negros, nem um passado de discriminação dentro das equipes, nem diferença salariais escandalosas na elite. De fato, o primeiro grande ídolo mundial foi Pelé, o Pérola Negra. No entanto, na civilizada Europa o problema é mais profundo, está mais escondido e não está resolvido: está na arquibancada, nos milhares de torcedores que se escondem por trás de frases racistas, símbolo do passado e atitudes hostis frente a tudo aquilo que não é branco ou é estrangeiro, sobretudo nos países do Leste. E se aninha nos clubes que viajam para a África para importar talentos negros e explorá-los sem proteção. E se há um país que não tem percepção do problema (como é demonstrado pelas pesquisas) e, portanto, não apenas para a prática da tolerância zero, é a Espanha. Alves e outros jogadores negros sofrem partida após partida, mas a primeira punição exemplar ainda está por vir.