40 ANOS DE DEMOCRACIA PORTUGUESA

“Rapaz, a Revolução dos Cravos é esta noite”

Um dos capitães daquele abril de 1974 lembra a Revolução dos Cravos, que nesta sexta-feira completa 40 anos

Carlos Beato mostra a sua foto de 25 de abril de 1974 junto ao capitão Maia (esquerda). / FRANCISCO SECO
Carlos Beato mostra a sua foto de 25 de abril de 1974 junto ao capitão Maia (esquerda). / FRANCISCO SECO

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Era 24 de abril de 1974 e Portugal definhava sob uma ditadura que durava mais de 50 anos. Naquela manhã, no quartel da Escola Prática de Cavalaria, em Santarém, 70 quilômetros ao norte de Lisboa, o capitão José Salgueiro Maia encontrou o tenente-substituto Carlos Beato (então com 27 anos) e disse a ele, em segredo:

— Rapaz Beato, é esta noite.

O que aconteceria naquela noite foi um levante organizado por um grupo de capitães e jovens oficiais portugueses com o objetivo de derrubar a ditadura de Marcelo Caetano, instaurar a democracia em Portugal e acabar com uma guerra colonial em Angola e Moçambique completamente impossível de vencer do ponto de vista militar.

“E eu, claro, quando ouvi o capitão Maia me dizendo que tudo ia acontecer e que seria naquele dia, senti um calafrio que me congelou. Você pode imaginar: uma coisa é conspirar e outra diferente é saber que tudo vai começar em horas”, diz Beato, de 67 anos.

Há uma foto famosa, reproduzida em inúmeros textos, brochuras e cartazes e que se tornou um ícone histórico, que mostra o capitão Salgueiro Maia, considerado o herói da Revolução dos Cravos, falecido em 1992, com o fuzil de assalto em suas costas, olhando para frente. Ao lado há um soldado com capacete e bigode, com a gola abotoada até em cima olhando para o seu mestre com uma aparência assustada.

“Claro que eu estava um pouco assustado. Foram os momentos decisivos: quando estávamos esperando que Marcelo Caetano se rendesse, por volta das quatro da tarde do dia 25 de abril. Um helicóptero de artilharia voava sobre nós e a qualquer momento podia disparar fogo e armá-la. O ditador estava trancado na sede do quartel general da polícia do Largo do Carmo, protegido por soldados leais, e, do lado de fora, o povo, junto com a gente, que queria entrar e fazer justiça com as próprias mãos”, acrescenta.

Beato, vestido de terno e gravata, afável, simpático, sorri hoje ao lembrar a quinta-feira nublada que parecia não acabar, mas que mudou a vida inteira de Portugal com uma revolução sem derramamento de sangue.

Tudo havia começado à meia-noite: no gabinete do quartel de Santarém de Maia, os oficiais envolvidos no golpe estavam esperando o sinal: naquela hora deveria tocar na Rádio Renascença a música Grândola, Vila Morena, de José Afonso. A transmissão, em uma época sem telefones celulares, significava que o plano prosseguiria em todos os quartéis do país. Não tocar a música significava que algo tinha dado errado. Beato, emocionado, nervoso, se levanta para continuar contando a história 40 anos depois: “E lá estávamos, esperando que a música tocasse, com os mapas de Lisboa na mesa do capitão. Chegou a meia-noite e nada. E a meia-noite e dez, e nada. Eu já estava enrolando os mapas, porque parecia que não tocaria quando, logo depois de meia-noite e quinze, começamos a ouvir a canção. E naquele momento pensei: não tem mais volta”.

Uma revolução em 24 horas

  • Em 24 de abril de 1974, um grupo de militares, o Movimento das Forças Armadas (MFA), liderado por Otelo Saraiva de Carvalho, instala em segredo um posto de comando no quartel da Pontinha, em Lisboa. Às 22h55 é transmitida a canção E depois do Adeus, de Paulo de Carvalho, na rádio Emissores Associados de Lisboa.
  • O segundo sinal combinado para começar a revolução, Grândola, Vila Morena, de José Afonso, uma canção proibida pelo regime, é transmitida pela Rádio Renascença à 0h25 do dia 25 de abril. A partir da uma hora da madrugada, os quartéis das principais cidades do país (Porto, Santarém, Braga, Faro) se juntam ao MFA, fecham o espaço aéreo e tomam portos e aeroportos. Ao amanhecer, o Governo perdeu o controle de quase todo o país.
  • O primeiro-ministro Marcelo Caetano se rende aos rebeldes às 17h45. Apesar disso, a polícia política PIDE mata a tiros quatro manifestantes civis às 20h00.
  • À 1h00 do dia 26 de abril, a televisão e rádio públicos apresentam as autoridades do MFA.

Poucos minutos depois, o capitão Salgueiro Maia reuniu todos os soldados do quartel, cerca de 700, e disse que queria apenas voluntários, depois de uma frase que entrou para a história: “Há, senhores, três tipos de Estados: o Estado social, o Estado corporativo e o Estado ao qual chegamos”. Todos deram um passo à frente.

A missão da Escola Prática de Cavalaria de Santarém era a mais perigosa e delicada de todas as ações daquele dia: devia ocupar a Baixa lisboeta e os ministérios que estavam localizados naquele bairro. “Chegamos muito cedo, às seis da manhã. E então as pessoas começaram a se aproximar, a nos perguntar. Todos estavam do nosso lado, e nos diziam: ‘Muito bem, vamos lá, viva a liberdade’”.

No entanto, houve um momento decisivo: quando quatro tanques leais ao Governo cercaram o batalhão de Maia nas margens do rio Tejo. “Mas o cabo que deveria obedecer a ordem do general de brigada para abrir fogo se negou a fazer isso e se trancou na cabine do tanque para que o outro não atirasse nele. Foi aí que ganhamos o 25 de abril do ponto de vista militar”, lembra Beato. “Se esse cabo tivesse disparado, teríamos todos morrido e a praça teria sido destruída”, diz.

O cabo em questão, José Alves Costa, que tinha 24 anos naquele dia, permaneceu até agora no anonimato, já que tentou, depois do episódio, passar despercebido. E ele conseguiu. Só em 2013, os jornalistas Alfredo Cunha e Adelino Gomes conseguiram encontrá-lo no vilarejo de Balazar, no norte de Portugal, onde mora.

Beato, que depois de deixar o Exército se formou em Relações Internacionais e, entre outras coisas, foi prefeito de Grândola (a cidade que inspirou, por coincidência, a canção-tema da Revolução dos Cravos), agora trabalha como administrador em um banco econômico com função social.

A sua agenda esteve cheia durante esta semana de comemorações, reuniões, telefonemas de repórteres e jantares de aniversário. Nesta sexta-feira, ele irá comemorar, solenemente, junto aos seus antigos colegas o 40º aniversário da Revolução dos Cravos em um ato paralelo à comemoração oficial no Parlamento, em sinal de protesto contra as políticas de ajustes e cortes do Governo conservador de Pedro Passos Coelho.

“As portas que abrimos naquele dia estão um pouco mais fechadas hoje”, explica Beato, olhando para baixo. Em seguida, sem perder o sorriso, ele acrescenta: “Mas apesar de ainda faltarem algumas coisas, valeu a pena arriscar a vida por um Portugal livre e democrático”.