Economia governo Dilma

Especialistas já começam a calcular o tamanho do estouro da meta de inflação

Resultado do IPCA de março, divulgado nesta quarta-feira, faz consultorias reverem para cima as suas estimativas para 2014

Os alimentos estiveram entre os itens que mais subiram.
Os alimentos estiveram entre os itens que mais subiram.Marcello Casal / ABr

Foi dada a largada para a ‘bolsa de apostas’ entre as consultorias econômicas para saber em quanto a inflação vai estourar a meta neste ano. Trata-se de um tema deveras perigoso, principalmente em ano de Copa do Mundo, quando os preços dos serviços saem um pouco de controle. O resultado do Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de março, divulgado hoje – a inflação oficial calculada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE)-, que alcançou 0,92% no mês, e 6,15% no cálculo para 12 meses (de abril de 2013 a março de 2014), atiçou as projeções dos especialistas, que já preveem um índice vitaminado a partir de maio. O centro da meta inflacionária no Brasil é de 4,5%, e o teto é de 6,5%.

A consultoria GO Associados projeta que o IPCA deve fechar 2014 em 6,8%, e que a partir de maio o índice calculado em 12 meses (ou seja, 12 meses até maio, junho, e assim por diante) deve ultrapassar os 6,5%. A Gradual Investimentos também fez uma revisão de suas projeções iniciais. “Nossa projeção anterior apontava que o IPCA iria fechar 2014 em 6,16%, mas com os últimos dados revisamos para 6,54%”, escreveu em relatório o economista-chefe da Gradual, André Perfeito. “O IPCA estoura o teto da meta já em junho e não em julho e chega a 6,91% em setembro”, completa.

Mais preocupante do que as projeções dos especialistas financeiros é mesmo a percepção cada vez maior entre os leigos, ou seja, a população em geral, de que os preços vão subir. Uma pesquisa divulgada neste final de semana pelo instituto Datafolha revelou que 65% dos entrevistados acreditavam que a inflação continuaria subindo. Num levantamento semelhante feito em fevereiro, essa percepção era comum para 59% dos consultados.

Essa expectativa negativa é tudo que um processo inflacionário precisa para estabelecer o padrão da auto-profecia. Depois de tantas vezes repetindo que a inflação vai subir, ela de fato sobe. Com medo de que os preços subam, do dono da banca de jornal até o supermercadista aumentam inadvertidamente seus preços para se proteger de perdas.

Para Heron do Carmo, professor da Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo (USP), o país vive um situação paradoxal neste ano, porque a trajetória da inflação dependerá em grande parte dos resultados das eleições presidenciais de outubro. Segundo ele, se a presidenta Dilma Rousseff for reeleita, é muito mais provável que as recomposições dos preços administráveis, ou seja, aqueles nos quais o Governo tem poder de ‘interferir’ – caso da energia, dos combustíveis e de tarifas de transportes em grandes cidades governadas pelo bloco aliado ao governo federal - ocorram até dezembro. Em caso de vitória da oposição, esse ajuste de preços ficaria muito provavelmente para 2015.

"Daqui para frente é de que é pouco provável que o IPCA fique abaixo dos 6,5% neste ano, podendo ficar bem acima disso se a atual equipe econômica for reeleita. Caso a oposição vença, a inflação ficaria por volta dos 6,5%", avalia Carmo, que já alertava ao EL PAÍS em janeiro para os riscos de a inflação ultrapassar o teto da meta em 2014. "A possibilidade de estouro do teto da meta é muito grande nos próximos meses. A tendência é isso acontecer em maio ou junho", acrescenta, ressaltando ainda que é melhor antecipar as recomposições, porque a inflação também tem um efeito direto sobre a demanda.

A realização da Copa do Mundo no meio do ano no Brasil é outro fator sazonal que contribui para o aumento da inflação, sobretudo pela pressão em relação ao setor de serviços, com grande aquecimento da demanda, e por ser disputada em cidades em que o IBGE se baseia para fazer a coleta dos preços para o IPCA. "É uma demanda pontual em hotéis, táxis, mas que depois tende a voltar ao normal", relativiza o economista, para quem ainda a responsabilidade recente do combate à alta dos preços ficou muito concentrada sobre o Banco Central e sua política de juros, e não no controle dos gastos públicos.

O ministro da Fazenda, Guido Mantega, por sua vez, voltou a diminuir o efeito dos números divulgados nesta quarta-feira, atribuindo-os a uma situação passageira, relacionada à falta das chuvas no país, e não estrutural. Em Nova York, onde participa de reuniões do Fundo Monetário Internacional (FMI) e do Banco Mundial (BIRD). Mantega acrescentou que em breve terá início uma trajetória de queda desses preços. Os vilões da inflação em março foram os alimentos e o preço das viagens aéreas.

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