A polícia dispersa uma concentração de apoio à María Corina Machado

A líder opositora queria ir até a Assembleia para recuperar seu posto, mas as forças de segurança impediram

María Corina Machado abandona a concentração.
María Corina Machado abandona a concentração.JORGE SILVA (REUTERS)

Uma concentração muito menos numerosa que, por exemplo, a congregada nesse mesmo local quando Leopoldo López se entregou às autoridades policiais há seis semanas, se celebrou na praça Brión de Chacaíto em Caracas nesta terça-feira em sinal de apoio à María Corina Machado, a dirigente opositora venezuelana da qual o chavismo tenta se livrar e a quem destituiu de seu posto de deputada. A convocação desta terça-feira não revestia o dramatismo daquela na que o líder do quase prescrito partido Vontade Popular ia ser entregue às mãos de suas perseguidores.

Ainda assim, Machado, a deputada mais votada da Assembleia Nacional –com o aval de quase 250.000 eleitores– soube imprimir intensidade ao ato. “Venho a falar como venezuelana, como mãe, e como deputada que sou”, disse, arrancando gritos de apoio entre as milhares de pessoas presentes.

Machado chamou seus seguidores a reunir-se com ela nesse ponto neurálgico de Caracas desde o dia anterior. Anunciava que, depois de falar com seus eleitores, cidadãos do Estado de Miranda, partiria rumo à sede da Assembleia Nacional para tentar recuperar sua cadeira de maneira simbólica.

No entanto, desde cedo, o Governo dispôs de tudo para que isso não ocorresse. Nas redondezas do Palácio Legislativo, no centro histórico de Caracas, centenas de agentes faziam parte de uma operação de segurança organizada pela Guarda Nacional e a Polícia Bolivariana em cordões consecutivos. Na zona chegaram a se juntar 30 tanques anti-motins. E na última linha defensiva centenas de manifestantes pró-chavismo, convocados pelo Governo para “denunciar a María Machado”, que se agruparam ao redor do edifício.

Em Chacaíto, desde onde Machado pensava partir para a Assembleia, também se tomaram precauções. Pelo menos duas frentes de policiais anti-motins, que terminariam jogando bombas lacrimogêneas sem critério e obrigariam a líder opositora a sair escoltada pelos seus seguidores, tinham se preparado para impedir que os manifestantes cruzassem a fronteira do Município Libertador (centro de Caracas), o muro invisível que o Governo de Nicolás Maduro instaurou como limite para os protestos opositores.

Sob a vigilância das autoridades, o ato incluiu intervenções de dirigentes juvenis e de alguns dos deputados, como Andrés Velásquez e Richard Blanco. O prefeito metropolitano de Caracas, Antonio Ledezma, em sua intervenção, anunciou que recebeu uma comunicação do Tribunal Supremo de Justiça na qual lhe notificam sobre a abertura de um julgamento por desacato, o expediente que o chavismo já utilizou para destituir outros prefeitos de oposição nas últimas semanas. 

Em seu breve discurso, María Corina Machado disse ser consciente de que as decisões que tomava durante este dia marcariam “o resto de sua vida” e denunciou o conluio de três poderes venezuelanos, o Executivo, o Legislativo e o Judiciário, mais que para a prejudicar a ela, “para obedecer as ordens de uma potência estrangeira, Cuba”.

Sobre isso, a líder opositora –a quem o governo responsabiliza diretamente, junto a Leopoldo López, como supostos cabeças da onda de protestos e desordens que estremeceu a Venezuela durante seis semanas– subiu o preço de sua aprovação a um acômodo institucional que busque apaziguar a revolta das ruas: “Nem quotas nem remendos”, impôs suas condições, “exigimos a renovação completa dos poderes públicos”. Pediu a renúncia da Promotora e da Defensora do Povo –ambas seguidoras do chavismo– e a substituição de todos os reitores do organismo eleitoral e não somente daqueles três que terminaram seu período.

Ao concluir sua intervenção, Machado subiu em uma moto que a levou à Assembleia Nacional, edifício ao qual tentou entrar, sem sucesso. Mas ela ainda não havia deixado a concentração quando os agentes anti-motins começaram a lançar bombas lacrimogêneas para dispersar. A parlamentar destituída –também ex-pré-candidata presidencial– sentiu os efeitos dos gases. A repressão foi o ponto de partida de distúrbios e combates com as forças de segurança, que ainda na hora de fechar este texto (anoitecia em Caracas) continuavam nas zonas contíguas de El Rosal, Las Mercedes e Chacao. Embora as autoridades não deram ainda um relatório, versões extra-oficiais nas redes sociais falam de feridos e detentos.

Neste mesmo momento, as forças militares e policiais continuavam em torno da sede legislativa. Em seu interior se celebra uma sessão ordinária da Assembleia Nacional na qual o presidente do parlamento, o ex-tenente do exército Diosdado Cabello, apressava com fórceps a designação de duas comissões de deputados para a eleger os postulados do Tribunal Supremo de Justiça e do Conselho Nacional Eleitoral. Um deputado de oposição, Julio Borges, dirigente do partido Primeiro Justiça (PJ), conseguiu o direito de palavra para pedir a restituição de Machado, bem como de Richard Mardo e María Aranguren –outros dois deputados de oposição destituídos. Protestou pelo fato de que servidores públicos militares controlassem o caminho de deputados opositores até a câmara.

Enquanto isso, a cadeira de María Corina Machado, sem nome, continua desocupada.

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