ADEUS AO EX-LÍDER ESPANHOL

Um homem de Estado diante das baionetas

A contribuição de Adolfo Suárez à instauração da democracia na Espanha foi monumental Teve um auge épico quando permaneceu impassível diante dos rifles dos golpistas

Adolfo Suárez, durante uma entrevista em 1988.
Adolfo Suárez, durante uma entrevista em 1988.Marisa Flórez

A decisão do rei, no início de julho de 1976, de entregar a Adolfo Suárez a chefia do Governo causou uma surpresa maiúscula dentro e fora da Espanha. Ninguém esperava que o eleito para a tarefa de construir a democracia fosse um falangista relacionado com a Opus Dei e antigo favorito do almirante Carrero Blanco, o delfim de Franco assassinado pelo ETA. Sua designação irritou a direita espanhola: franquistas tradicionais, os monárquicos de sempre, democratas-cristãos e liberais fizeram o que puderam para que ele fracassasse desde o primeiro momento. Só os adeptos do Movimento, herdeiros do antigo partido fascista espanhol, pareciam minimamente confortados. A oposição de esquerda, por sua vez, recebeu com amarga decepção a nomeação. Era impensável que uma figura como aquela pudesse encabeçar a transformação democrática do país.

Nesse ambiente, as dificuldades para Suárez começaram de imediato, quando se deu conta dos sérios problemas que tinha para formar o Governo. Durante 48 horas essa pareceu uma missão impossível, e provavelmente assim teria sido se os democratas-cristãos, com Marcelino Oreja, Alfonso Osorio e Landelino Lavilla à frente, não tivessem finalmente cedido às pressões e aos pedidos do próprio rei para se incorporar ao gabinete. A aprovação, semanas mais tarde, de uma anistia limitada, mas que colocou na rua várias centenas de presos políticos, foi o primeiro sinal de que as coisas podiam estar começando a mudar em nosso país. A ponto de Santiago Carrillo, secretário-geral do Partido Comunista e exilado em Paris, ter declarado que constituía “...um passo em direção à reconciliação de todos os espanhóis”.

Essa era na verdade uma questão fundamental: colocar fim à Guerra Civil que havia dessangrado a Espanha 40 anos antes, e cuja memória o ditador havia se encarregado de manter viva e atuante. Durante quase dois séculos os espanhóis haviam suportado a existência de um país partido em dois, dividido até a exasperação entre bons e maus, governado pelo ódio, submetido ao integrismo religioso e sob os olhos vigilantes das milícias. Começando pelo rei, aqueles que tinham de liderar a transição política espanhola, da ditadura à democracia, tinham pela frente uma tarefa árdua e nada simples. A eleição de Suárez para encabeçar o processo deixou muita gente igualmente perplexa. Seu pragmatismo, sua lealdade a quem o nomeou, sua fé de convertido à democracia e sua inegável dedicação à tarefa acima de qualquer outra consideração conseguiram vencer todas essas desconfianças e inaugurar um período brilhante e promissor na história do nosso país.

Durante sua etapa como presidente me relacionei com frequência, da mesma forma que tantos outros jornalistas, com Adolfo Suárez. Mantive com ele uma relação pessoal cordial, embora não a ponto de que ele decidisse interromper a frequente atividade do procurador geral do Estado contra a minha pessoa e contra o EL PAÍS. Como fruto de tal atividade, fui processado cinco vezes e condenado a um ano de prisão pelas opiniões editoriais do jornal, sem que o seu Governo se decidisse a me indultar, diante da oposição notória do Tribunal Supremo daquela época. Mas também fui testemunha privilegiada de muitas das suas dúvidas das numerosas intrigas que seus próprios companheiros de partido teceram contra ele e da batalha, nada subterrânea, que ele travou durante anos contra a pressão dos militares golpistas que o acusaram de traidor e acabaram por provocar a sua demissão. A partir da divergência política pudemos tecer uma relação de amizade crescente e de confiança mútua. Foi frutífera para ambos e, como é lógico, se tornou mais estreita e distendida uma vez que ele foi apeado do poder.

Relatarei três casos que reservava para as minhas memórias, mas que a ocasião merece que sejam postas agora em destaque. A primeira se refere à primeira entrevista que fiz com ele quando, já era presidente do Governo. De acordo com o manual de estilo e normas internas do jornal, entreguei-lhe suas declarações para que ele as corrigisse, caso eu tivesse tergiversado ou recolhido sem rigor suas palavras. A norma, que ainda impera, estabelecia que as perguntas eram nossas, e as respostas, do interpelado. Ele me convidou para almoçar no La Moncloa a fim de dar uma boa olhada na reportagem e, já na sobremesa, me fez, com toda prudência, um pedido: que eu eliminasse a minha última pergunta sobre se estava disposto ou não a elaborar e aprovar uma lei do divórcio. “Sim, eu vou fazer a lei”, me disse, “mas não posso anunciá-lo em público, porque o pessoal da Opus está o dia todo em cima de mim. Se eu responder afirmativamente, será quase impossível que haja divórcio na Espanha em curto prazo. E, é claro, não quero dizer que não haverá, ou seja, eu lhe peço que elimine a pergunta”. Depois de muitas dúvidas e de consultar meus colaboradores, concordei com o pedido.

Mas não era só a Opus Dei que o preocupava. Desde que legalizara o Partido Comunista, condição indispensável para realizar as eleições democráticas de 1977, a cúpula militar não parou de acusá-lo de mentiroso e traidor e de conspirar contra ele. Na madrugada do sábado, 17 de novembro de 1978, eu me encontrava lendo e ouvindo música na minha casa, depois de ter fechado a edição do EL PAÍS, quando tocou o telefone. Era o presidente em pessoa, sem mediação de secretárias ou de nenhum gabinete. Eram duas da manhã, e eu lhe perguntei como é que estava acordado a uma hora daquelas. “Como é que você está acordado?”, perguntou de volta. “Acabo de chegar do jornal, é a minha jornada habitual”, respondi. “Pois eu ando como você: trabalhando.” Em seguida, começou a me contar que havia descoberto uma conspiração militar encabeçada por um chefe do Exército, o coronel Sáenz de Ynestrillas. Estavam preparando um golpe de Estado para aquele mesmo final de semana. Foi prolixo nos detalhes e nomes, e eu anotei o que pude. “Eu lhe digo tudo isso para que você veja como está a situação e como estou preocupado”, destacou. “Bem, agora você já sabe”, terminou por dizer. “Boa noite.” E desligou.

Na manhã seguinte, reuni minha equipe e contei o que havia acontecido. Fizemos todas as checagens possíveis dos dados que tínhamos e, de qualquer forma, decidimos acreditar numa fonte tão privilegiada como aquela. No domingo, dia 18, publicamos com exclusividade e na primeira página as notícias sobre a Operação Galáxia, a tentativa de golpe que foi a antessala do 23-F [a tentativa de golpe de Estado de 23 de fevereiro de 1981].

Um ano depois daquilo, por ocasião do sequestro de Javier Rupérez pelo ETA, recebi através do nosso correspondente em Bilbao, Javier Angulo, a oferta dos terroristas bascos de fazer uma entrevista por carta com Javier durante seu sequestro, em troca de lhes entregar três milhões de pesetas. Aquele era um dos primeiros contatos que obtidos com os sequestradores, e pensei que aceitar a sugestão seria, antes de mais nada, uma boa maneira de comprovar que Javier continuava vivo. Pedi a opinião, como sempre fazia nas ocasiões importantes, de meu executivo-chefe, Jesús Polanco, entre outras coisas porque ele tinha que me fornecer o dinheiro que me pediam. Diante da preocupação de que fosse utilizado para comprar armas e sustentar o bando, decidimos seguir adiante com o projeto, mas informando o próprio presidente. Telefonei a Suárez depois das dez da noite para lhe dizer em breves palavras do que se tratava, e nos recebeu de imediato, a Jesús e a mim, em seu escritório. Ele nos fez entrar pela porta traseira do La Moncloa e garantiu que não haveria registro algum da visita. Dedicamos um tempo a analisar a questão da entrevista e as provas que deveríamos exigir de que Javier continuava vivo. Resolvido o plano de atuação, passamos a outros temas, até que, a propósito de uma discussão que empreendemos sobre a política exterior espanhola, ele me disse abertamente que as pessoas desconfiavam de mim. “Que pessoas?”, lhe perguntei. “O Governo”, me respondeu prontamente, “a polícia, os militares...”. “E a que se deve isso?” E, meio balbuciante, confessou: “Pensam que você é da KGB”.

Diante da minha surpresa, não demasiado grande pois já antes, também durante o seu Governo, aplicou-se a mim a lei antiterrorista sob suspeita de que eu estivesse em conivência com os sequestradores de Antonio María de Oriol, Adolfo Suárez abriu a gaveta da sua mesa e tirou uma pasta cheia de documentos. Dentro havia milionários cheques da Aeroflot, a companhia aérea soviética, em meu nome; cartas com a minha assinatura falsificada onde eram dadas várias ordens a bancos no estrangeiro (o banco Leumi de Tel Aviv e o da União de Trabalhadores em Luxemburgo), onde supostamente eu tinha contas nas quais a inteligência moscovita me pagava pelos serviços prestados; fotos, relatórios sobre a minha vida privada e amorosa, que demonstrariam minhas relações com a espionagem soviética, e coisa assim. Diante de semelhante fraude, só me ocorreu lhe perguntar se ele acreditava naquilo. “Eu não”, respondeu categórico, “estou convencido de que é uma montagem.” “E quem fez isso?”, perguntei-lhe. “Os militares”, respondeu sem pestanejar. Não me deixou cópia de nenhum daqueles papéis, e levei meses, quase um ano, para demonstrar a minha inocência e a falsidade daquelas provas que nunca me foram entregues. Não me estranharia que qualquer dia um desses caluniadores profissionais que circulam pela internet as exibisse de novo contra mim.

Histórias como essas põem em relevo algumas das dificuldades maiores que tivemos que encarar durante a Transição, e até que ponto jornalistas e políticos trabalhamos muitas vezes de comum acordo, partindo de sensibilidades e obrigações diferentes, na construção de uma democracia então ameaçada, sobretudo, pelo intervencionismo militar. Os exegetas e comentaristas das gerações que não viveram aquilo tendem a esquecer com demasiada facilidade o poder quase onímodo que o Exército tinha sobre a vida espanhola e a profundidade e o peso das forças reacionárias alimentadas por organizações religiosas e integristas de todo tipo. Embora tivesse gostado de fazê-lo, Suárez não foi capaz de desmontar o império das baionetas, que se manifestou com toda a sua audácia na noite do 23-F de 1981, e pelo mesmo motivo foi vítima delas.

A Transição, aliás, nunca teve plano de voo nem um programa definido. Todo mundo conhecia o ponto de partida e qual deveria ser a meta, mas os caminhos para chegar a ela estavam cheios de ameaças. Ela foi possível graças à determinação do rei, ao pragmatismo de Adolfo Suárez e à liderança dos dois máximos representantes dos partidos de esquerda: Felipe González, que encarnava a esperança das novas gerações, a modernidade da mudança e o apoio da social-democracia internacional, e Santiago Carrillo, protagonista do espírito de reconciliação, quebrado mais tarde pela irrupção virulenta de José María Aznar na política espanhola.

A contribuição e Suárez à instauração da democracia foi monumental e teve seu desfecho épico quando permaneceu impassível diante dos rifles dos golpistas que apontavam para ele na sede do Parlamento, no dia que, em princípio, deveria ser o último do seu mandato presidencial. Ele levou a cabo, com instinto e audácia consideráveis, a política do possível, a base de avanços e renúncias intermitentes. A divisão traiçoeira de seu partido, que o sacrificou no altar das ambições de poder de uns quantos, ameaçou sepultar a sua gestão no esquecimento. Muitos dos que hoje o pranteiam contribuíram para sua imerecida e brutal defenestração. Na hora da despedida, quando tantos lhe rendem agora a homenagem que lhe negaram em vida, a mim me apraz lembrar sua imagem um pouco metida e irreverente, a de um espanhol médio sempre sonhando com a revolução pendente, que acabou se tornando um estadista de estatura e uma figura extraordinária da nossa democracia.

Juan Luis Cebrián é presidente do EL PAÍS e membro da Real Academia Espanhola.