A Ucrânia põe em xeque a aposta de Obama na diplomacia

A crise na Crimea confronta o modelo da política do século XXI que promovem os EUA e o mais beligerante de Vladimir Putin O Pentágono anuncia um reforço nas missões de vigilância aérea da OTAN na Polônia e nos países Bálticos

John Kerry e Serguéi Lavrov, em París.
John Kerry e Serguéi Lavrov, em París.KEVIN LAMARQUE (REUTERS)

Enquanto continua desenhando o próximo pacote norte-americano de sanções políticas e econômicas para isolar a Rússia em represália pela invasão da Crimeia, a Casa Branca tampouco descuida do outro eixo da sua estratégia, que consiste em reafirmar seu apoio à soberania e a integridade territorial da Ucrânia. Nesta quarta-feira, o secretário de Defesa dos EUA, Chuck Hagel, anunciou um reforço na participação norte-americana em missões de vigilância aérea da OTAN na Polônia e nos países Bálticos. O chefe do Pentágono, entretanto, insistiu em defender a via diplomática, que é a aposta do presidente Barack Obama para resolver esta nova crise internacional que tornou a colocar em xeque a eficácia da política de não beligerância que o mandatário abraçou ao assumir a presidência, contrapondo-se ao modelo marcadamente hostil de seu homólogo russo, Vladimir Putin.

A decisão de intensificar o apoio aéreo na Polônia e no Báltico surge dois dias depois de o Pentágono anunciar a suspensão das operações militares conjuntas com a Rússia, uma medida que se soma à estratégia de isolar Moscou política e militarmente, conforme Obama ameaçou fazer durante conversa telefônica com Putin no sábado passado. A Casa Branca está concluindo a imposição de sanções a altos funcionários do Governo e da estrutura militar da Rússia, como forma de intensificar a pressão diplomática sobre o Kremlin. O Congresso também deve aprovar ainda nesta semana novas sanções a Moscou.

Embora a cotação do rublo tenha se ressentido nas últimas horas, nem as ameaças nem as medidas concretas já adotadas pelos EUA e a União Europeia levaram Putin a rever sua atitude, pondo em dúvida se a diplomacia será a melhor estratégia frente a um político habituado à Guerra Fria e a um país que não cedeu a uma pressão internacional semelhante durante o conflito da Geórgia, em 2008. “Na ocasião, foram feitas ameaças de sanções, mas elas não foram aplicadas, como acontece agora, o que demonstra que os EUA estão sendo muito mais sérios”, afirma ao EL PAÍS Cory Welt, diretor do Instituto de Estudos Europeus, Russos e Euroasiáticos da Universidade George Washington.

As decisões adotadas pela Casa Branca, por si só, pouco podem afetar a tomada de decisões no Kremlin – o intercâmbio comercial entre os dois países representa apenas 1% do total de importações e exportações dos EUA –, mas Washington confia em que terá a adesão da UE com medidas menos brandas que as executadas até agora. “A Europa depende do gás [russo], mas a Rússia precisa pôr esse gás no mercado, essa é uma via de mão dupla que Bruxelas deveria explorar. Acredito que a visão alemã, segundo a qual a relação com Moscou é essencial para garantir a segurança na Europa, está começando a mudar”, argumenta Matt Rojansky, diretor do Instituto Kenan, do Woodrow Wilson Center, e especialista na relação entre EUA e Rússia.

As sanções econômicas a Moscou também poderiam passar fatura às companhias norte-americanas com presença nesse país. A Rússia é o segundo principal mercado da Pepsi, ao passo que a Exxon, a companhia de petróleo mais importante dos EUA, tem um acordo com a estatal petroleira Rosnef. “A Rússia já congelou os ativos de entidades norte-americanas antes, mas, em questões de segurança, comerciais e econômicas, precisamos estar preparados para pagar o preço por denunciar o que o Governo russo está fazendo na Ucrânia”, adverte Rojansky.

A Ucrânia se tornou a última prova de fogo para a viabilidade do caminho diplomático em que Obama aposta desde que chegou à Casa Branca. A inconsistência do presidente norte-americano a respeito da Síria, sua nula influência para mediar a crise no Egito depois da derrubada de Mohamed Morsi e a rapidez com que o próprio Putin reagiu ao ultimato sobre a intervenção na Ucrânia, ocorrida na sexta-feira passada, põem em dúvida a eficácia da estratégia do mandatário frente à do russo, empenhado em recuperar o peso internacional pelo caminho da musculatura militar.

“Obama pode ter perdido parte de sua credibilidade internacional frente a um político realista como Putin. Provavelmente, este não teria forçado tanto os limites se tivesse pela frente um presidente dos EUA mais beligerante”, admite Welt. Entretanto, ninguém, nem os falcões republicanos, propõem uma intervenção militar. “Não vamos acrescentar mais pólvora ao paiol enviando tropas norte-americanas à região, seria um grande erro. Este não é o século XIX, não estamos na Guerra Fria, estamos em um mundo global, e Putin vai perder todas as suas chances nesta crise se ficar isolado do sistema, isso é certeza”, sustenta Rojansky.