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A desvalorização encoberta na Venezuela custa 5,74 bilhões de reais à Telefónica

A empresa sofre outra perda de patrimônio com o novo regime cambial de Maduro As depreciações do bolívar custam mais de 14,65 bilhões de reais ao grupo em quatro anos

A Venezuela se transformou num pesadelo para as finanças da Telefónica. Embora os negócios da empresa no país aparentemente estejam indo de vento em popa, a alta inflação e a constante perda de valor do bolívar venezuelano, além das barreiras à repatriação de dividendos, golpeiam vez ou outra as contas do grupo presidido por César Alierta. O último golpe ocorreu este ano mesmo e nem sequer está ainda contabilizado, mas está quantificado: 1,8 bilhão de euros em patrimônio (5,73 bilhões de reais), dos quais 1,2 bilhão (3,83 bilhões de reais) são diretamente uma redução de ativos financeiros. E a fatura continua crescendo.

Em 24 de janeiro deste ano entrou em vigor o Convênio Cambial nº 25, que regula as operações de venda de divisas na Venezuela para determinados setores e créditos. Essa nova norma do Governo de Nicolás Maduro não modifica em caráter geral a taxa de câmbio de 6,30 bolívares fortes por dólar dos Estados Unidos, mas na realidade o faz, entre outros, para “pagamentos correspondentes ao setor das telecomunicações” e para “investimentos internacionais, pagamentos de direitos, uso de patentes, marcas e licenças, assim como importação de tecnologia e assistência técnica”. As requisições de dólares para essas finalidades serão concluídas pela taxa de câmbio das dotações realizadas por meio do Sistema Complementar da Administração de Divisas (SICAD). A referência do leilão do SICAD realizado em 15 de janeiro de 2014 foi de 11,36 bolívares fortes por dólar estadunidense.

Segundo a Telefónica, o novo sistema terá efeito em suas contas consolidadas a partir de sua entrada em vigor, em 24 de janeiro de 2014, por isso não foi contabilizado em 2013. Mas a empresa já fez as contas do impacto para este ano. Usando como referência os 11,36 bolívares por dólar isso se traduzirá em uma “diminuição dos ativos líquidos do Grupo Telefónica na Venezuela, como consequência da conversão para euros pela nova taxa cambial com contrapartida no patrimônio do grupo, por um montante aproximado de 1,8 bilhão de euros (5,73 bilhões de reais)”, segundo diz a empresa em seus demonstrativos intermediários condensados consolidados, comunicados nesta quinta-feira à Comissão Nacional do Mercado de Valores (CNMV). O grosso, 1,2 bilhão de euros (3,83 bilhões de reais), corresponde a uma redução do valor equivalente em euros dos ativos financeiros líquidos denominados em bolívares fortes, isto é, uma perda direta de caixa.

Mas o pior é que, como admite a Telefónica, as regulamentações cambiais na Venezuela estão em constante mudança e já se anunciou um novo mercado alternativo de divisas com bandas cambiais. No mercado paralelo, o dólar já está cotado em 76 bolívares, o que implica um risco de desvalorização adicional de até 85%.

Não é a primeira vez que a desvalorização do bolívar golpeia as contas da Telefónica. No balanço de 2013, apresentado nesta quarta-feira, a desvalorização de 8 de fevereiro de 2013 teve um impacto de 1 bilhão de euros (3,18 bilhões de reais) sobre o patrimônio –873 milhões (2,8 bilhões de reais) em ativos financeiros. E a desvalorização de 50% aprovada pelo presidente anterior, Hugo Chávez, em 2010, teve um impacto de 1,8 bilhão. No total, portanto, o impacto é de 4,61 bilhões de euros (14,7 bilhões de reais), e subindo.

Além disso, a hiperinflação no país está fazendo com que a companhia tenha que ajustar também as suas contas operacionais. Nas receitas, esse impacto foi de 231 milhões de euros (735,8 milhões de reais) em 2012 e de 556 milhões (1,78 bilhão de reais) em 2013 e no resultado da operação, de 78 milhões (248 milhões de reais) e 206 milhões (656 milhões de reais), respectivamente. As dores de cabeça que as distorções na Venezuela dão às finanças do grupo levaram a empresa a excluir a filial do país na hora de estabelecer os objetivos para este ano, apesar de que, em termos de negócios, é a terceira filial da América Latina que mais gera receita para o grupo.

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