O último dia de Paco de Lucía

A família se recolhe no refúgio do artista, de frente para o mar do Caribe, à espera da repatriação do corpo

Paco de Lucía e Juan Anyélica, em um barco nos mares do Caribe mexicano.

Nesta quarta-feira 26, para a praia de Paco de Lucía só faltava Paco de Lucía. Cerca de 20 turistas, em sua maior parte norte-americanos, tomavam sol nas cadeiras de praia. Os vizinhos do artista, também estrangeiros, se banhavam em uma piscina privada sobre a areia. Eles Não sabiam ainda de sua morte e receberam a notícia com cara de estranheza, como se nunca soubessem que viviam ao lado de um mito. Em Xpu-há, um local do Caribe mexicano no meio o caminho entre Playa del Carmen e Tulum, ninguém mudou os cartazes de “não passar, propriedade privada” que protegem a casa dele, assim como também não veem Marta Poot, uma amiga da família, sentada sobre a areia branca chorando. “Não voltará a nascer outro Paco de Lucía”, diz.

O artista chegou ao México no domingo. Vinha de Cuba. Nos últimos anos, gostava de passar temporadas na ilha. Dizia que ali seus filhos, de 13 e oito anos, podiam jogar na rua como faziam as crianças de antigamente na Espanha. Os que o viram disseram que ele estava mais magro e que se notava uma certa ansiedade. Fazia duas semanas que deixara de fumar. México foi, e era até o último dia, seu retiro. Em uma praia de águas azuis, ele construiu um paraíso para onde escapava de vez em quando para se esconder dos focos. No meio de uma espessa vegetação e com uma saída direta para o mar, o gênio de Algeciras mal saía de casa.

Na terça-feira pela tarde, Paco encontrou seu amigo Juan de Anyélica, de 46 anos e estabelecido no México, mas nascido em Madri e criado em Sevilla. Também músico. Juan o chamou para uma pescaria. No caminho, fizeram uma parada e o artista lhe pediu que comprasse um peixe para o jantar. Pensavam em passar juntos outra de muitas noites de trabalho no estúdio. O artista tinha algo novo na cabeça.

Em Xpu-há o sol começa a cair pouco antes das seis. Na terça-feira por volta desse horário, Paco ainda brincava com seu filho Diego na areia quando começou a se sentir mal. Foi com sua esposa Gabriela ao hospital de Playa del Carmen. Ali, Juan já os esperava com os peixes frescos no carro. Paco se apoiou nele para entrar e mal podia falar. Juan disse que ainda teve forças para chamar um médico aos gritos. Depois, desmaiou. As tentativas de reanimação duraram quase uma hora, mas o músico já tinha partido. Tinha 66 anos.

O músico se refugiava na Riviera Maya, fugindo das massas, para se desligar de seu outro mundo

A família do artista despediu-se dele no hospital e desde então se recolheram em sua casa. Só os mais íntimos. Juan e sua mulher Marta Poot, que aproveitam o entardecer para sair em silêncio para ver o mar, Gabriela, a mãe dela e as duas crianças. O corpo do guitarrista está em uma funerária de Cancun, aguardando para ser repatriado à Espanha, que já prepara as homenagens ao último de seus gênios mortos.

Na Riviera Maya não são muitos os que conheciam a fundo o flamenco, que, desde o final dos anos 80 visitava o local mas sempre fugindo das massas e atrás desse afã que ele tinha de encontrar ali a desconexão de seu outro mundo. Sua primeira casa era em Playacar, uma zona exclusiva colada a Playa del Carmen. Iván Ebergelyi, então gerente da zona residencial, o ajudou a encontrá-la. “Ele usou muito essa casa, desfrutava saindo para pescar e depois cozinhava o peixe com arroz”, conta.

Nos quase 20 anos que passou os verões na casa, os turistas e os hotéis se multiplicaram em um ritmo que fez com que suas visitas ao México fossem cada vez mais numerosas. Decididos a conservar sua privacidade, Paco e Gabriela compraram um terreno mais afastado. A casa foi construída por um amigo espanhol em 2002 e o artista plantou, ele mesmo, toda a vegetação da propriedade rural, que agora só é possível ver a cobertura de palha típica da casa. Até horas antes de morrer, o artista trabalhava no jardim.

Longe do silêncio da casa, onde nenhum curioso se aproxima, os trâmites para repatriar o corpo estão nas mãos cônsul da Espanha em Cancún, Javier Marañón desde a madrugada de sua morte. Marañón está sem dormir desde então. O único voo direto para Madri sai na sexta-feira e a opção de uma escala é complicada. Diz Marañón que a melhor possibilidade é um avião privado que custa, segundo seus cálculos, cerca de 90.000 dólares. O flamenco tinha um seguro com a Sociedade Geral de Autores e Editores (SGAE), que se encarregará do translado.

Quando o corpo e a família chegarem na Espanha, o que é silêncio no México se converterá em zumbido, tal qual foi em sua vida. “Parece tão surreal que acho que, a qualquer momento, ele vai aparecer”, diz seu amigo Juan na porta de sua casa.

Em Xpu-há anoitece pela primeira vez sem o guitarrista.

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