Ao menos cinco mortos nos protestos em frente ao Parlamento de Kiev

Centenas de opositores tentam invadir a Rada Suprema em Kiev e lançam pedras e paralelepípedos A Polícia responde com gases lacrimogêneos, balas de borracha e bombas de efeito moral Ao menos um manifestante acabou gravemente ferido, com uma hemorragia na cabeça

A violência ressurgiu em Kiev nesta terça-feira evidenciando assim a instabilidade do último período de calma que reinava na capital. Cinco pessoas morreram e todas as estações do metrô foram fechadas, segundo declararam dois porta-vozes do departamento de polícia de Kiev à France Presse, e dezenas de pessoas foram feridas em confrontos com a polícia e as forças de intervenção especial, as Berkut. Os confrontos começaram ao redor das dez da manhã (hora local) quando as forças da ordem fecharam a passagem para uma multidão que se dirigia ao Parlamento, a Rada Suprema, para pressionar os deputados reunidos em sessão plenária. Os manifestantes exigiam que os legisladores votassem e aprovassem a constituição de 2004, que limita os poderes do presidente. No entanto, a mencionada constituição não estava na ordem do dia, tal como desejavam os partidos da oposição. O Partido das Regiões (PR) é o maioritário na Rada e o governo está formado a partir dele. A atual constituição é de viés presidencialista, de 2010.

Mais de 150 manifestantes ficaram feridos nos confrontos desta terça-feira entre policias e opositores ao presidente da Ucrânia, Víctor Yanukóvich. Milhares de pessoas romperam um cordão policial nas imediações da sede da Rada Suprema (Parlamento ucraniano), em Kiev. Fontes da oposição informaram que três pessoas ficaram feridas com tiros.

A multidão cada vez mais exaltada invadiu e queimou os locais do PR, depois de espalhar pelo chão todos os documentos que encontraram nesses locais, situados no bairro do Governo. Entre 200 e 300 pessoas mascaradas, vestidos com capacetes e armados com paus de madeira, derrubaram a porta do escritório do Partido das Regiões, lançaram vários rojões e incendiaram um carro no pátio interior do edifício. No entanto, foram desalojados da sede por policiais anti-motim.

Os deputados do PR abandonaram o edifício da Rada. Os serviços de segurança e escolta do parlamento reforçaram as portas da Rada e se preparavam para uma invasão, informavam por televisão os jornalistas que continuavam trabalhando em seu interior. Entre os feridos há um fotógrafo da agência Reuters e vários jornalistas. A multidão tomou também o clube dos Oficiais, um edifício próximo do parlamento. Esses locais foram convertidos em um ponto de assistência médica onde se prestam os primeiros auxílios aos feridos.

Manifestantes assaltam a sede do oficialista Partido das Regiões.

Diversos colegas contatados por telefone afirmam que os acontecimentos estão em plena evolução e que não há indícios de que a violência diminua ou que a situação se pacifique. Também há numerosos feridos entre a polícia. As forças da ordem pública usaram mangueiras de água, gases lacrimogêneos.

Também houve confronto no cruzamento das ruas Institútskaya e Shelkovíchnaya, onde aproximadamente 2.000 manifestantes tentaram superar as barreiras policiais e lançaram paralelepípedos contra os agentes anti-motim que responderam com gases lacrimogêneos e bombas de efeito moral.

Na manifestação marcharam representantes das "autodefesas" criadas pelos opositores, que se manifestam de maneira ininterrupta há quase três meses no centro de Kiev e outras cidades ucranianas.

Os confrontos ocorrem após um período de tranquilidade no qual os manifestantes desalojaram os acessos ao bairro do Governo na rua Hrushevskogo e as autoridades anistiaram todos os que participaram de confrontos anteriores.

Os distúrbios desta segunda-feira são o último capítulo de uma série de protestos que começou em novembro passado, pelo presidente Víctor Yanukóvich ter se negado a assinar o acordo de Associação com a União Europeia. Esses protestos foram ampliando seus objetivos, sendo sua principal reivindicação agora a cassação do presidente Yanukóvich.

Para aliviar a tensão, Yanukóvich destituiu o primeiro ministro Mikola Azárov. Isto não foi suficiente e até agora Ucrânia carece de governo. Yanukóvich propôs aos líderes da oposição encabeçar um novo gabinete, mas estes exigem antes uma reforma do sistema político e a volta da constituição de 2004. Na Rada, Vitali Klichkó, o líder do partido “UDAR” pediu a Yanukóvich que aceitasse a constituição de 2004 e declarasse eleições antecipadas para a presidência e o parlamento. Os líderes da oposição parlamentar não controlam os manifestantes, que pertencem a diferentes grupos e tendências políticas e que, como demonstram os acontecimentos desta segunda-feira, se cansaram de esperar a que os políticos resolvam os problemas pela via parlamentar.

Novo sistema desde 2010

O sistema político ucraniano foi convertido em presidencialista mediante uma reforma constitucional aprovada em novembro de 2010, meses após que o atual presidente ucraniano, Víctor Yanukóvich, assumisse a chefia do Estado.

Além da reforma constitucional, que recortaria os poderes do chefe do Estado favorecendo o Legislativo, a oposição quer eleições presidenciais e parlamentares antecipadoas. Os protestos opositores estouraram em Kiev no final de novembro do ano passado, depois que Yanukóvich adiasse a assinatura do Acordo de Associação com a União Europeia.

Diante das crescentes manifestações pró-Europa no centro de Kiev, ocupado pela oposição, a maioria parlamentar do partido oficialista aprovou uma série de leis para restringir o direito de reunião e de outras liberdades civis, em 16 janeiro.

Três dias depois se registraram violentos choques entre manifestantes e policiais anti-motins que causaram seis mortos e centenas de feridos na capital ucraniana.

Para evitar um maior derramamento de sangue, as autoridades e a oposição iniciaram um processo de negociações, cujos resultados foram a demissão do Governo do primeiro-ministro Mikola Azárov e a entrega da Prefeitura de Kiev e outros edifícios públicos ocupados pelos manifestantes. Além disso, foi aprovada uma anistia para todos os manifestantes imputados por participar das desordens de rua.

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