Crise na Ucrânia

Dispara a violência na manifestação dos opositores pró-europeus em Kiev

Um grupo de radicais encapuzados ocupa a Prefeitura enquanto ocorre uma batalha campal entre forças da ordem e manifestantes em frente à sede da Presidência

Um protesto em Kiev.
Um protesto em Kiev. SERGEI SUPINSKY (AFP)

Uma verdadeira maré humana formada por centenas de milhares de pessoas saiu às ruas neste domingo em Kiev para pedir a renúncia do presidente Victor Yanukovich e do primeiro-ministro Mykola Azarov, tarefa que ficou em primeiro lugar na lista de prioridades da multidão que pressiona em favor da integração europeia da Ucrânia na praça da Independência da capital, um local simbólico que foi em 2004 o palco pacífico da chamada Revolução Laranja.

Nem as autoridades ou os líderes da oposição garantem a ordem na cidade, algo que depende do sentido comum e da racionalidade tanto dos manifestantes como da polícia. No momento em que essa reportagem era escrita, ante a sede da presidência ocorria uma verdadeira batalha campal entre as forças da ordem e os manifestantes.

A prefeitura de Kiev proibia a concentração na praça da Independência e a organização de manifestações no centro, mas essa proibição não serviu para nada ante a maré humana na qual os moradores da capital se misturavam com os inúmeros cidadãos vindos de outras províncias do país. Os manifestantes acabaram ocupando a gigantesca árvore de Natal que foi colocada no local após a repressão policial na madrugada deste sábado.

O grupo de encapuzados que atacou a Prefeitura, infiltrado na passeata.
O grupo de encapuzados que atacou a Prefeitura, infiltrado na passeata.P. B.

Na multidão eram vistas as bandeiras dos partidos de oposição “Pátria”, da ex-primeira-ministra presa Yulia Timoshenko, UDAR, de Vitali Klichko, e Svoboda, a legenda nacionalista originária das regiões do oeste e que está ganhando força em Kiev.

Esta correspondente testemunhou como um grupo de manifestantes invadia a prefeitura de Kiev e quebrava os cristais da fachada principal do edifício com golpes de barras metálicas. Os autores da ação marchavam na manifestação durante centenas de metros sem que os cidadãos que marchavam junto com eles os percebessem como uma fonte de perigo.

Eram três colunas de jovens com capacetes, mascarados, e portando todos eles barras metálicas e pedaços de madeira reforçados com metal. Os jovens, em três fileiras de cerca de 20 pessoas, marchavam como se fizessem parte de um pequeno exército. Quando chegaram à prefeitura pegaram suas ferramentas, começaram a correr e passaram a golpear a porta central de madeira e as janelas.

Outros manifestantes tentaram frear o ato de vandalismo quando seus autores já haviam concluído o estrago. Os atacantes deixaram sobre a calçada alguns capacetes e alguns pedaços de pau (não todos) embebidos em gasolina, embora não tenham conseguido atear fogo neles. Quando tudo acabou, alguns manifestantes começaram a gritar que se tratava de uma “provocação” e outros tentavam justificar a ação. “Já não temos paciência”, afirmava uma senhora elegantemente vestida que de repente começou a gritar: “Isso é a revolução, a revolução, entende?”.

Os mascarados que invadiram a prefeitura marchavam pelo boulevard Shevchenko, passando junto ao monumento de Lenin, que, ao contrário da prefeitura, foi protegido por várias fileiras de policiais. "Usaremos tudo o que tivermos ao alcance”, disse a esta correspondente um dos jovens, que se identificou como um executivo de uma cidade no oeste do país.

O jovem, que disse ter 24 anos, explicou que era membro do “setor de direita”, que, segundo disse, seria a união de autodefesa formada pelas organizações nacionalistas de direita para se opor aos mercenários do governo e aos Berkut (forças de intervenção especial). Meu interlocutor acrescentou que ele era membro da organização “Tridente de Stepan Bandeira”. O tridente é o símbolo da Ucrânia e Stepan Bandeira é um famoso nacionalista ucraniano. Pouco depois, meu interlocutor e seus colegas se puseram a correr em direção à prefeitura.

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