A polícia portuguesa reconstitui o trote universitário que acabou em tragédia

As famílias das seis vítimas denunciam o único sobrevivente

Três pessoas observam uma onda na praia do Meco, onde ocorreu a tragédia.
Três pessoas observam uma onda na praia do Meco, onde ocorreu a tragédia.FRANCISCO LEONG (AFP)

Na última sexta-feira, uma equipe de doze policiais liderados por um promotor, inspecionou a praia do Meco, 40 quilômetros ao sul de Lisboa, a fim de reconstituir o que ocorreu em 15 de dezembro passado, entre meia-noite e duas da manhã, quando seis universitários morreram ao serem atingidos por uma onda de quase quatro metros em circunstâncias ainda muito obscuras. Os investigadores apoiaram-se, entre outras coisas, no depoimento do único sobrevivente do incidente, João Miguel Gouveia, de 23 anos, que segue mantendo o discurso, usado desde a noite da tragédia, de que tudo não passou de um acidente.

Mas há muitos que não acreditam em Gouveia. Entre eles estão os pais das vítimas, que na sexta-feira acusaram ele e a a Universidade Lusófona, centro de ensino ao qual pertenciam todos os estudantes. A imprensa portuguesa divulgou uma enxurrada de depoimentos e de provas que apontam para um cenário em que, naquela noite, o grupo de estudantes foi à praia participar de um trote ou uma série deles. E que o que comandava toda a cerimônia era Gouveia, que ostentava —e ostenta— o grau de Dux (Duque) em uma complicada hierarquia de títulos. Há mais de sete graus, que vão desde o novato (ou o bixo, no Brasil) recém ingressado na universidade, até o Honoris dux (duque honorário). As seis vítimas cursavam seu último ano e na escala situavam-se em um grau médio-alto.

Caso fique comprovado que tudo isso é verdade e que naquela noite ocorreu na praia do Meco algo parecido a um ritual, Gouveia, que agora responde na condição de testemunha, poderia passar à categoria perigosa de acusado a fim de esclarecer sua responsabilidade no incidente. A universidade também não ficaria isenta, já que os sete estudantes que foram à praia faziam parte da Comissão Oficial de Praxes Acadêmicas (a Comissão de Trotes), amparada ou ao menos tolerada pela Universidade Lusófona.

O universitário que ao que parece comandava o ritual é o único que se salvou

Os jovens alugaram uma casa a sete quilômetros da praia para passar o fim de semana. E na madrugada do dia 15, sob lua cheia, percorreram a pé todo esse trecho até chegarem ao mar vestidos com o traje típico dos universitários lusos, com capas pretas. Os pais também acusaram terceiras pessoas, já que há certos indícios que assinalam que havia mais de sete pessoas na casa alugada no fim de semana. A rede de televisão TVI revelou manuscritos nos quais se detalham as quantias a serem pagas por cada jovem e nos quais também se encontram mais nomes que os das seis vítimas e o do sobrevivente. Se isso for comprovado, haveria de se investigar se essas pessoas também assistiram à suposta cerimônia na praia que acabou em tragédia.

Até agora, a polícia já interrogou os vizinhos dessa casa. E, segundo apontava nesta semana o diário Correio da Manhã, alguns asseguram ter visto vários desses jovens se arrastando no quintal da casa com pedras amarradas aos pés, em uma espécie de teste prévio à prova maior, que seria realizada na praia. Isso viria a comprovar que todo o fim de semana foi concebido como uma sucessão de trotes ou desafios.

Há mais pontos obscuros: quando os pais das vítimas chegaram à casa pela manhã, após terem sido avisados da tragédia, encontraram tudo recolhido. Quem fez isso? A imprensa portuguesa faz outra pergunta: Quem levou pela noite a colher de madeira gigante que os vizinhos dizem ter visto nas mãos de Gouveia no quintal e que constitui um inequívoco símbolo de poder neste mundinho infantil dos trotes lusos?

Testemunhas viram

E mais: outra reportagem da TVI descobriu, graças a algumas anotações, que algumas das vítimas já haviam participado, um ano antes, de um fim de semana parecido, em outra localidade portuguesa próxima a Lisboa, onde tiveram, com provas a serem completadas e sob o efeito de álcool, que se arrastar pelo chão, caminhar por uma serra e por um cemitério próximo ou ingerir comida para gato.

A mesma universidade ordenou uma investigação na qual, por enquanto, as famílias ainda não foram chamadas a participar e que, em teoria, termina no final deste mês. Muitos temem que acabe sendo uma mera jogada para demonstrar interesse em apurar a ocorrência, embora na verdade a intenção não seja exatamente essa.

Por outro lado, enquanto a polícia investiga e reúne as provas pouco a pouco, o acalorado debate sobre esse tipo de trote, muito enraizado nas universidades portuguesas, vai perdendo força. Há duas semanas, tanto os políticos como a imprensa lusos martelavam sobre a conveniência ou não de se proibir essas práticas. Agora dá a impressão de que todo mundo assume que tudo vai continuar igual. De fato, no próximo dia 21 há uma manifestação em Lisboa de apoio a essas práticas, que muitos defendem por considerar que, organizadas de forma satisfatória, servem para a integração dos universitários. A iniciativa foi promovida pelo Movimento a Favor da Tradição Acadêmica. Asseguram, em um manifesto, que essas práticas “não podem ser alvo de perseguição por culpa de uma má conduta”. E acrescentam: “São um conjunto de hábitos e costumes universitários que merecem respeito”.