O Exército colombiano nega ter realizado escutas ilegais

Seis militares que trabalharam na unidade de inteligência, centro da polêmica do escândalo de espionagem, serão substituídos

Doze dias depois da descoberta do escândalo das supostas escuta ilegais aos negociadores de paz com as FARC por parte de membros do Exército, um relatório apresentado na noite da sexta-feira ao presidente Juan Manuel Santos pelo general Ernesto Maldonado, Inspetor do Exército, assegura que a criação das unidades de fachada da inteligência militar de onde supostamente se espiaram os negociadores foi legal. Segundo Maldonado, seu funcionamento estava “apoiado” em ordens de operações emitidas por um comandante do batalhão da inteligência, bem como por parâmetros autorizados pela lei.

O general Maldonado leu um comunicado no qual sustentou que na unidade, chamada Andrómeda, de onde, além de tudo teriam sido espiadas comunicações de integrantes da equipe das FARC em Havana com jornalistas colombianos, de agências internacionais e de outros veículos da Europa, não foram feitas interceptações de comunicações nem realizadas atividades ilícitas.

O oficial não esclareceu se os hackers contratados pelo pessoal de inteligência interceptaram mensagens da equipe de negociadores de paz, mas assegurou que estas investigações serão feitas pela Promotoria e pela Justiça Penal Militar, que determinarão se elas foram ilegais ou não. De modo que, para o Exército, só quando a Promotoria terminar de revisar e analisar a informação contida nos computadores que foram apreendidos no local que era a fachada da operação, se saberá se foram utilizados para chuzar, como são conhecidas na Colômbia as escuta ilegais.

Segundo Maldonado, as investigações realizadas verificaram as ações feitas pela tal fachada da inteligência durante 2012, 2013 e o que vai de 2014, bem como a execução orçamentária para as despesas de manutenção e funcionamento do local de um restaurante no ocidente de Bogotá, além de dez entrevistas e 22 provas de um detector de mentiras.

O militar concordou que houve erros de procedimento na manipulação da Andrómeda, “para proteger o segredo da operação” –já que foi descoberta. Por isso, recomendou a saída dos cargos a seis servidores públicos, dos quais não deu os nomes, que estiveram envolvidos diretamente no trabalho feito na fachada da inteligência, enquanto as investigações são feitas. O mesmo já tinha sido feito, mal estourou o escândalo, com os generais Mauricio Zúñiga e Jorge Zuluaga, cabeças da inteligência militar da Colômbia.

Com isto –sem maiores surpresas– as respostas que os colombianos esperavam escutar para esclarecer as possíveis escutas ilegais denunciadas pela revista Semana, terão que esperar, já que o anunciado pelo Exército vai na mesma linha do que já dizia o presidente Santos sobre a legalidade de Andrómeda, apesar de, em um primeiro momento, as escuta ilegais terem sido atribuídas à “forças escuras” que espreitavam os diálogos de paz com as FARC.

Mas, apesar do relatório do Exército, nesta sexta-feira, horas antes de que se pronunciasse o general Rodríguez, o parlamentar Simón Gaviria, diretor do partido Liberal, afirmou que sabia da existência de “400 mensagens de whatsapp e 500 de Blackberry interceptadas e dezenas de e-mails” de jornalistas, políticos e empresários. Segundo Gaviria, entre os espiados também estavam membros de seu partido e do Pólo Democrático, da oposição. Na Colômbia, estas interceptações só podem ser feitas com autorização judicial.

Na quarta-feira, em uma sessão reservada da comissão de inteligência do Congresso, onde se citou a cúpula militar e o ministro de Defesa, Juan Carlos Pinzón, para conhecer a fundo o que vinha ocorrendo em Andrómeda, não houve maiores avanços e as explicações não convenceram os congressistas. Como aconteceu desde que estourou o escândalo, Pinzón voltou a defender os trabalhos de inteligência lícita feitos ali e esclareceu que a questionada fachada da inteligência militar só podia monitorar o espectro electromagnético, algo que, embora polêmico, está autorizado pela lei colombiana.

O dirigente colombiano pediu também à Procuradoria Geral que se coloque à frente da investigação disciplinar e reiterou que, se forem descobertos abusos da inteligência militar, “se atuará com toda a contundência na aplicação de penalidades”.

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