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CONVERSAS DE PAZ

O presidente Mujica se reuniu com representantes das FARC em Cuba

Hoje começa em Havana uma nova rodada de diálogo entre o Governo da Colômbia e as FARC

O presidente do Uruguai, José Mujica (de branco), durante a cúpula em Cuba.
O presidente do Uruguai, José Mujica (de branco), durante a cúpula em Cuba. EFE

O presidente do Uruguai, José Mujica, manteve contatos com os negociadores das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC) em Cuba, para onde viajou na semana passada para participar da cúpula de mandatários da Comunidade dos Estados Latino-Americanos e Caribenhos (CELAC), e embora não tenha se reunido oficialmente com seu colega colombiano, Juan Manuel Santos, deixou Havana convencido do firme compromisso com o processo de paz na Colômbia.

À margem da agenda oficial, Mujica “manteve alguns contatos com as pessoas que estão negociando pelas FARC”, indicaram a este jornal fontes da presidência, que constataram que não houve uma reunião formal com o presidente colombiano, embora tenham trocado algumas palavras nas oportunidades em que coincidiram na cúpula e nas quais “provavelmente o tema veio à tona”.

“O que eu queria de Santos é escutá-lo, para saber claramente sua posição, e ele fez uma exposição muito clara na cúpula, onde deixou muito firme seu compromisso com o processo de negociação e de paz”. Algo que para Mujica foi suficiente para assegurar que o processo seguirá seu caminho.

Quanto ao encontro com as FARC não precisou quando, com quem, nem sua extensão. Mujica se moveu na lógica do “não vou fazer nada que não me peçam”. O mandatário uruguaio reiterou que é um processo dos colombianos e são eles os que têm de marcar os tempos, decidir as condições e de que tipo de ajuda precisam, se assim a requerem, com a convicção de que é um processo essencial para a Colômbia e para a América Latina.

Enquanto Mujica não tem participação formal em nenhum diálogo, ele soube nadar entre duas correntes e ao mesmo tempo em que forjou uma boa relação de Estado com o presidente Santos, pode ser uma figura que, por sua história pessoal e sua trajetória política, conte com a confiança das FARC.

O porta-voz da guerrilha "Pablo Catatumbo", apelido de Jorge Torres Victoria, confirmou que "houve uma reunião da delegação de paz das FARC em Havana com o presidente Mujica", sem especificar detalhes de quando ocorreu a reunião ou mesmo de quais temas teriam sido abordados. Nesta segunda-feira, o governo colombiano e membros das FARC retomaram as negociações que mantêm desde novembro de 2012 na capital cubana para chegar a um acordo que permita pôr fim a mais de cinquenta anos do conflito, que já tem deixou dezenas de milhares de mortos.

Neste caminho o presidente Mujica expressou em reiteradas ocasiões seu desejo de contribuir para o processo de paz que considerou “o mais importante na América Latina”. Antes de partir rumo à CELAC, que foi realizada em 28 e 29 de janeiro, antecipou ao diário uruguaio Búsqueda que ficaria “alguns dias após a cúpula” para falar com ambas as partes. "Quero seguir ajudando novamente e concretamente para que se acelere o processo de negociação e sintam o incentivo moral de que a causa em que estão envolvidos merece sem dúvida alguma todo o respaldo", disse Mujica.

Esta nova rodada de negociações dá continuidade ao debate sobre o problema das drogas e do narcotráfico, um dos temas mais espinhosos do conflito. As FARC propuseram a regularização de algumas drogas, algo ao qual Bogotá se opõe. Por enquanto, dos seis pontos que compõem a agenda sobre a mesa já conseguiram entrar em acordo no tema agrário e sobre a participação política dos desmobilizados. Mujica já tinha se reunido anteriormente em separado com Santos e com representantes das FARC e pediu um esforço à América Latina para que o processo de paz seguisse adiante.

O atual presidente do Uruguai é um dos fundadores da guerrilha uruguaia Movimento de Libertação Nacional-Tupamaros, conhecida como tupamaros, que cometeram assaltos e atentados durante os anos 60 e 70, motivos pelos quais esteve preso durante 14 anos durante a ditadura (1973-1985). Com a volta da ordem democrática e depois de uma anistia aos presos políticos incorporou-se à vida política em 1985 e criou junto com setores de esquerda e independentes o Movimento de Participação Popular (MPP), que agora faz parte da coalizão de partidos de esquerda Frente Ampla, que governa.

Em seu viagem a Havana para participar da CELAC, Mujica se reuniu com sua colega argentina, Cristina Fernández de Kirchner, cujas relações não passam por seu melhor momento; com o presidente mexicano, Enrique Peña Nieto, quem condecorou o mandatário uruguaio com a Ordem da Águia Asteca, e também viu em privado Fidel Castro, de quem disse que está “idoso” e “fisicamente desgastado”, embora com a “mente fresca”.