A ONU retira seu convite ao Irã para a cúpula de paz da Síria

Teerã havia exigido que não houvesse pré-condições O avanço do jihadismo torna impossível a definição de um plano de transição claro para Síria

O assento da oposição síria para a conferência de Genebra II.
O assento da oposição síria para a conferência de Genebra II.PHILIPPE DESMAZES (AFP)

O frustrado convite das Nações Unidas ao Irã para participar da cúpula de paz sobre Síria, conhecida como Genebra II, que começa na quarta-feira, abriu novas divisões entre os participantes de uma conferência cuja finalidade é obter um consenso acerca do futuro do país. A pressão dos Estados Unidos e a negativa do Irã em aceitar uma transição política na Síria conforme os termos da primeira conferência de paz, a Genebra I, celebrada em 2012, levaram o secretário-geral da ONU a retirar seu convite na noite de segunda-feira, menos de 24 horas depois de tê-lo feito. Essa confusão diplomática deixa em evidência com o será complexa uma transição política na Síria, sobretudo diante do avanço recente do jihadismo entre as fileiras da oposição a Bashar al Assad.

O Irã aceitou inicialmente participar da cúpula, mas, segundo uma porta-voz do seu Ministério de Assuntos Exteriores, “sem pré-condições”, inclusive as de Genebra I, o que levou os Estados Unidos a pressionarem o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, para que cancelasse o convite, algo que ele acabou fazendo. Seu porta-voz, Martin Nesirky, disse que a retirada refletia a “decepção” de Ban com o Irã “por declarações que contradizem afirmações prévias sobre seu apoio ao comunicado de Genebra I”.

O chefe da diplomacia norte-americana, John Kerry, chegou a telefonar para Ban a fim de lhe dizer que o Irã “fica aquém” no cumprimento dos critérios para a cúpula, segundo o Departamento de Estado norte-americano. Seu homólogo russo, Serguei Lavrov, havia dito que uma conferência de paz sobre a Síria sem o Irã “será um engano imperdoável”.

Não há um modelo claro de transição síria, cujo regime continua contando com o robusto apoio de duas potências como a Rússia e Irã, frente a uma oposição cada vez mais débil.

Antes de desconvidar o Irã, Ban nem sequer considerou oportuno consultar a oposicionista Coalizão Nacional Síria, a qual os Estados Unidos, a Liga Árabe e seus aliados consideram como a representante legítima da cidadania síria.

Até sábado, esse grupo político opositor não havia votado a favor de ir à cúpula de Genebra II, que começará na localidade suíça de Montreux. Nesta segunda-feira, tornaram a ameaçar não comparecer, diante da possibilidade de ter pela frente não só os emissários de Assad como também os do Irã, que enviou membros da sua Guarda Revolucionário para apoiar militarmente o regime. “O Irã primeiro deve retirar todas suas tropas e tropas da Síria”, disse a Coalizão em um comunicado.

O problema é que a Coalizão e seu braço armado, o Exército Sírio Livre, representam cada vez mais apenas a si mesmos perante o avanço de grupos jihadistas como o Estado Islâmico do Iraque e do Levante. Este controla a capital provincial da Raqa, ao norte.

No domingo, o grupo emitiu novas diretrizes de comportamento público nessa localidade, em conformidade com sua interpretação fundamentalista da sharia (lei islâmica). As mulheres devem vestir um véu que deixe apenas os olhos descobertos, e foram proibidos a música e os anúncios com fotos de pessoas em público. É uma prova clara de sua intenção de criar um Estado islâmico nas áreas da Síria sob seu controle, muito longe do compromisso com os valores democráticos da Coalizão.

Para o regime sírio não poderia haver melhor panorama. No conflito morreram 130.000 pessoas e 9 milhões abandonaram suas casas. Do lado do Exército sírio combatem forças iranianas e libanesas.

A Casa Branca e seus aliados deram Assad por acabado em numerosas ocasiões. E contra seus prognósticos, ele envia agora emissários à Suíça para dialogar com eles, com a ONU e a Liga Árabe. Como se as divisões provocadas pelo fracassado convite ao Irã não fossem com ele, o presidente sírio pediu nesta segunda-feira a seus negociadores que “defendam a soberania do país” e “se oponham a qualquer ingerência estrangeira”, segundo a agência oficial de notícias Sana.

O regime mantém sua linha de sempre, a de exigir que o conflito sírio seja deixado nas mãos dos sírios, apesar do apoio que recebe do Irã –– na forma de milicianos –– e da Rússia –– na forma de armas.

Apesar da urgência com que evitou a participação do Irã na conferência de paz, os Estados Unidos resistiram a apoiar o Exército Livre Sírio, por medo que acabasse sob controle de grupos jihadistas.

Mas isso fez a Arábia Saudita, principal aliada da oposição síria no Oriente Médio, que participará de Genebra II e expressou sua indignação pelo convite feito ao Irã. Seu Governo disse em um comunicado que o Irã não poderia tomar parte de um processo de diálogo por “ter forças militares lutando com o regime de Assad”.