Entrevista | MARIO MOLINA, PRÊMIO NOBEL DE QUÍMICA

“A ideia de que a energia renovável é muito cara é falsa”

Para o Nobel mexicano, se a mudança das energias tradicionais não acontecer logo, sairá mais caro para o mundo, pelos danos provocados pela sociedade

Barack Obama coloca Medalha da Liberdade no mexicano Mario Molina.
Barack Obama coloca Medalha da Liberdade no mexicano Mario Molina.

“Graças ao trabalho do doutor Mario Molina o mundo decidiu se unir e trabalhar de maneira conjunta para enfrentar uma ameaça global e hoje, graças ao seu exemplo, estamos trabalhando para deixar um planeta mais seguro e mais limpo às futuras gerações”. O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, elogiou com essas palavras a trajetória profissional e o trabalho de conscientização do prêmio Nobel de Química mexicano, Mario Molina, no ato de entrega da Medalha da Liberdade, o mais importante prêmio civil norte-americano, na Casa Branca no dia 20 de novembro.

O doutor Molina, junto de seu colega F. Sherwood Rowland, foi o primeiro a advertir que a ação do homem era capaz de provocar alterações no meio ambiente. Suas pesquisas sobre a ameaça dos gases clorofluorcarbonos (CFCs) para a camada de ozônio foram reconhecidas com o Nobel em 1995. O trabalho de Molina não se limitou às paredes de um laboratório, convencido das consequências catastróficas que podiam haver para o planeta caso se continuasse utilizando esses compostos industriais.

Molina conseguiu vencer as suscetibilidades e o ceticismo dos Governos e da sociedade, e em 1987 as Nações Unidas aprovaram o Protocolo de Montreal, o primeiro tratado internacional que enfrentou com sucesso um problema ambiental de dimensões globais. Molina trabalha agora para inocular essa revolução ecológica à luta contra a mudança climática nos Estados Unidos, como parte do Conselho de Assessores de Ciência e Tecnologia de Obama, e no México, por meio de seu Centro Mario Molina.

O pesquisador mas, antes de tudo, político da ciência, conversou com o EL PAÍS em Washington sobre os desafios de sua cruzada para mitigar os efeitos do aquecimento global horas antes de tomar um avião para o México. Suas palavras são claras e simples, uma mostra da capacidade de convicção elogiada por Obama.

Pergunta. O que significa para o senhor, que recebeu os maiores prêmios e reconhecimentos científicos, ter sido condecorado com a Medalha da Liberdade?

Resposta. É algo muito emocionante. Considero uma honra muito grande principalmente porque não é só pelo meu trabalho científico, que já me rendeu outros prêmios, mas pelo impacto do meu trabalho por ajudar a sociedade a resolver os problemas do meio ambiente, algo que vai além da ciência.

P. Do ponto de vista de seu posto como assessor do presidente dos EUA, as medidas adotadas pela Administração Obama no meio ambiente na luta contra a mudança climática são suficientes?

R. Obama está fazendo tudo o que está em suas mãos para enfrentar esse problema e isso se refere a tudo o que não requer a participação do Congresso porque, como já sabemos, o Partido Republicano está na contramão. Apesar disso, o Governo dos EUA pode começar a fazer coisas. A Califórnia já começou a atuar muito ativamente e outros Estados estão seguindo seu exemplo. Além disso, temos a expectativa de que os republicanos vão ter que suavizar essa postura rígida e já estamos começando a vislumbrar isso na atitude de seus possíveis candidatos à próxima Presidência, muito menos conservadora.

P. Que diferenças vê na hora de assessorar a Casa Branca sobre mudança climática e fazer o mesmo com o Governo mexicano de Enrique Peña Nieto?

R. No México, por sorte, pudemos evitar que esse problema se politizasse e estamos trabalhando muito de perto com o Governo federal e com o presidente Peña Nieto, mas também com o Congresso, até o ponto de que o México já aprovou uma lei de mudança climática e temos um imposto para as emissões de carvão que, embora esteja muito limitado e seja um pouco nominal, demonstra que o México já tem começado a se comprometer.

P. Até que ponto a politização da mudança climática impediu que não possa ser adotada uma resolução sobre esse problema comparável à do Tratado de Montreal?

R. O Partido Republicano, o Tea Party, tomou, desde a Administração anterior, uma posição, para mim absurda, de negar a ciência da mudança climática e de considerá-la uma imposição do Governo, algo absurdo que os coloca, sob o ponto de vista da ciência, na era da astrologia. Aproveitando os problemas da economia mundial, as forças muito conservadoras, com muita efetividade, influenciaram os meios de comunicação, sobretudo nos EUA, para colocar tudo isso em dúvida. Foi uma campanha pública muito bem planejada pelos conservadores que a comunidade científica não teve a habilidade de contra-atacar. É agora que estamos nos pondo de acordo e trabalhando com especialistas em comunicação para que nos EUA a sociedade comece a tomar consciência do que diz a comunidade científica.

P. Você é otimista?

R. Sim, sou otimista mas reconheço que não é fácil e que temos que trabalhar. Não basta apenas que os países de maneira individual adotem medidas, é necessário que as grandes economias colaborem. Todos os países, exceto os republicanos nos EUA, estão de acordo de que, se todos ao mesmo tempo colocarmos um preço às emissões, todos ao mesmo tempo nos comprometermos a reduzir as emissões, o sacrifício é mínimo e a economia está em disposição de absorver muito bem. Disso estão convencidos os especialistas, os economistas que sabem disso e 97% dos cientistas. Isso é o que estamos tratando de comunicar com mais clareza à sociedade dos EUA e estamos trabalhando com o Congresso na medida do possível para romper este funil que impede que os EUA ratifiquem um tratado internacional e possam conseguir um acordo similar ao de Montreal.

P. As energias renováveis estão preparadas para substituir as tradicionais? Não seguem sendo muito caras como apontam as grandes petroleiras e muitos céticos sobre o aquecimento global?

R. A realidade é que já podem ser substituídas e houve avanços tecnológicos muito importantes para que isso pudesse ser feito de maneira eficaz. A conclusão é simples, os estudos dos economistas que analisaram o problema concluem que, com as tecnologias atuais, o custo já é muito moderado. Estamos falando de 1 ou 2% do PIB de todo o planeta, de modo que essa ideia de que sai muito caro é falsa. Ao contrário, se não começamos já com a mudança nos sairá claramente mais caro, além do sofrimento derivado das tragédias climáticas, algo que é muito difícil de calcular economicamente. Está muito claro que existe um risco inaceitável de danos para a sociedade que podemos evitar.

P. A América Latina está experimentando um crescimento econômico importante. O que deveriam fazer seus países para que esse desenvolvimento se reflita no âmbito científico?

R. O que está muito claro é que os países que investiram suficientemente em ciência e tecnologia são os que tiveram um desenvolvimento econômico vigoroso e esse é um dos problemas que tivemos no México onde só é destinado 0,5% do PIB à ciência e à pesquisa científica. Por sorte, o presidente Peña Nieto reconheceu essa situação e adotou a postura de tratar de duplicar essa percentagem. Mas não basta colocar mais recursos, é necessário fazê-lo bem e nos países da América Latina foi típico até agora que não se desse importância ao desenvolvimento da ciência nem sequer como parte da cultura. Mas trata-se de algo vital para o progresso econômico e a adaptação à globalização e à competitividade.

P. Você também desenvolveu estudos sobre a qualidade do ar nas grandes cidades e, nesse sentido, colaborou com a cidade de México para tratar de conter seus níveis de contaminação. Como está a situação?

R. O México era uma das cidades mais contaminadas do mundo, mas faz uns 10 ou 15 anos, quando comecei a colaborar com o DF (Distrito Federal), que começaram a adotar medidas e essa condição deixou de ser ocupada, apesar da enorme desvantagem de se ter 20 milhões de habitantes em um vale onde as emissões se acumulam. Mas colocando restrições sobretudo ao setor de transportes conseguiu-se reduzir enormemente a contaminação. Mas há que se promover mais esforços para assegurar que não vá piorar a qualidade do ar e fazer inclusive que melhore.

P. Você se define um político da ciência. Deveria existir mais gente como você para que se conseguissem resultados visíveis na conservação do Meio Ambiente?

R. Essa é uma das falhas que temos no mundo científico. Normalmente, muitos queremos nos concentrar em nossas pesquisas mas é importante que alguns de nós usemos os conhecimentos científicos e os acoplemos a outros áreas, como a economia ou a política, e que possamos nos comunicar com os tomadores de decisões para que as mudanças sejam implementadas.

P. Você está satisfeito com tudo o que conseguiu, no controle à degradação da camada de ozônio, ou ainda pretende poder reverter o problema do aquecimento global?

R. Estou muito satisfeito porque pude ajudar a conquistar o respeito sobre o buraco da camada de ozônio, que já está praticamente resolvido. É um problema global e é importante ter o precedente de que o planeta sim pode resolvê-lo. Mas por outro lado não estou satisfeito com o problema da mudança climática embora seja otimista porque estou vendo que estamos progredindo claramente na parte política e na científica. Os conhecimentos científicos já nos proporcionam informação suficiente para atuar e é a parte política na que temos de seguir trabalhando e é nisso que vou dedicar meus esforços, para ver se posso contribuir com a solução do problema mais sério da humanidade.