Onda de pânico nas praias do Rio

O aumento de arrastões nas areias é a nova preocupação do governo do Rio, que vai instalar delegacias móveis nos calçadões

O episódio é antigo, embora não acontecesse há anos nas praias do Rio de Janeiro. Milhares de pessoas se apertam na areia enquanto desfrutam de um sol arrasador que anuncia a chegada do verão. As pessoas bebem cerveja, conversam, riem, e os meninos jogam tranquilamente na orla. De repente, um grupo de meninos surge de surpresa entre os banhistas, roubando todo tipo de pertences e gerando uma situação de caos que acaba em uma maré humana que corre apavorada, entre gritos e rostos assustados. Muitos banhistas não sabem exatamente o que acontece, mas abandonam tudo e correm diante do medo de serem agredidos. É o que historicamente se conhece no Rio de Janeiro como arrastão, isto é, uma corrente humana que peneira uma área roubando e semeando o pânico em seu caminho.

Os vídeos difundidos nos últimos dias confirmam que as praias dos ricos bairros de Ipanema e Leblon se converteram em pontos nevrálgicos desta prática. Ninguém sabe ao certo de onde provêm os menores e jovens que protagonizam estes roubos em série, embora alguns especialistas em segurança pública alertem que a expulsão do narcotráfico armado das favelas ao redor a estas praias -as de Vidigal, Rocinha, Cantagalo ou Pavão-Pavãozinho- poderia estar relacionado com o fenômeno. O final do narcotráfico como poder hegemônico das favelas e como meio de subsistência de milhares de jovens poderia gerar em algum momento uma alta da insegurança e dos roubos em outras áreas da cidade, advertem.

O sociólogo Ignácio Cano opina que “o arrastão não é uma alternativa criminosa permanente. É algo conjuntural, que não tem muita explicação. A cada domingo produzem-se muitos roubos isolados nas praias do Rio e eles nunca são vistos com tanta relevância. A diferença é que, no caso do arrastão, o pânico que se vive no momento permanece na memória coletiva”. Segundo o especialista em violência, o verdadeiramente preocupante é que o exitoso modelo de segurança lançado em 2008 já começou a dar sinais de esgotamento.

O último relatório do Instituto de Segurança Pública do Rio de Janeiro reforça a tese. Segundo as cifras publicadas, o acumulado de roubos e furtos a transeuntes na zona sul do Rio de Janeiro (onde estão os bairros de maior poder aquisitivo) durante os primeiros oito meses do ano aumentou 13% em relação ao mesmo período do ano passado. As denúncias também passaram de 30.700 a 33.800. A imprensa local destaca há meses o aumento da sensação de insegurança entre os moradores destes bairros. Essa sensação agora se agrava pela nova onda de roubos em série nas areias cariocas.

As imagens registradas nos últimos dias por cinegrafistas amadores são verdadeiramente impactantes. Em plena praia abarrotada verifica-se como grupos de meninos abordam turistas estrangeiros, agredindo-os e retirando seus objetos pessoais. Centenas de pessoas correm em todas as direções enquanto policias civis e militares intervêm no meio da multidão. Em alguns casos, os responsáveis são detidos. Mas em outros não fica rastro dos criminosos. Às vezes as vítimas decidem não apresentar denúncias por temor de uma represália.

O aumento dos roubos nas praias converteu-se na nova preocupação do Governo do Estado do Rio, que já tomou a decisão de instalar delegacias móveis nos calçadões. A secretaria de Segurança do Rio chegou ao extremo de anunciar o envio da polícia de operações especiais da Polícia Civil às praias atingidas pela onda criminosa. Este conjunto de ações ressuscitou na sociedade carioca o velho fantasma de que a praia também é área de alto risco. Marilia Martins, assídua das areias do Leblon, assegura: “A partir de agora evito levar o celular e outros objetos pessoais. Só o dinheiro exato para pagar algumas bebidas”.

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