Dallas lava suas feridas e relembra Kennedy 50 anos após o assassinato

Centenas de pessoas relembram Kennedy no mesmo local onde ele foi baleado

O prefeito de Dallas, Mike Rawlings em homenagem a JFK.
O prefeito de Dallas, Mike Rawlings em homenagem a JFK.LARRY W. SMITH (EFE)

Um momento de silêncio e os sinos dobrando sobre a cidade de Dallas marcaram nesta sexta-feira o quinquagésimo aniversário da morte de John F. Kennedy, o presidente cuja vida foi interrompida tragicamente aos 46 anos por uma bala às 12h30 da tarde do dia 22 de novembro de 1963. Em frente ao mesmo sol que de abriu há meio século sobre os agentes do FBI quando, frenéticos, buscavam um culpado nas janelas do depósito de livros de onde partiram as balas que tinham escrito o nome do mandatário, nesta sexta-feira, em um dia frio, úmido e triste, como o ânimo que ficou depois do assassinato político.

Meia hora depois que Lee Harvey Oswald disparava um rifle de fabricação italiana de 12 dólares com uma telescópica do sexto andar do armazém de livros onde trabalhava – segundo a versão oficial oferecida pela Comissão Warren -, os médicos do hospital Parkland, em Dallas, certificavam a morte do presidente que levou a juventude à Casa Branca e falou de uma nova fronteira para os Estados Unidos. Um presidente que as câmeras capturavam só a frescura e a vontade de viver, mas que deixavam  de fora a dor e sua necessidade de andar com muletas. Ao longo de sua vida, Kennedy recebeu por três vezes a extrema-unção devido às suas doenças e às sequelas deixadas nas costas por um incidente sofrido no Pacífico durante a II Guerra Mundial, onde serviu às Forças Armadas.

Mas por algumas horas, os Estados Unidos e o mundo – com centenas de jornalistas internacionais credenciados para cobrir o aniversário - recordaram o legado e a figura do presidente só com as luzes, sem sombras, sem muletas. Muitos eram os que, nesta sexta-feira na fria Dalas, relembravam talvez a que seja a frase mais célebre do primeiro presidente católico da nação, aquela que recomendava se perguntar o que uma pessoa pode fazer por seu país e não o contrário.

Cidadãos de Dalas que ainda não haviam nascido quando Kennedy morreu, como Tawnell Randall, mostravam sua admiração e lhe certificavam como o homem que deu o primeiro passo para que outros como ele – de raça negra -, tivessem então igualdade de direitos. “Nada voltou a ser igual depois daquele dia”, assegura Randall, não porque o vivesse, mas pelo que a memória de sua mãe recordou.

Só os inconfundíveis sons dos profundos bipes do comboio que margeava a Praça Dealey rasgavam a transcendência do momento, em um dia pelo que Dalas esperou por 50 anos até por fim poder proclamar o final do estigma que lhe fazia responsável pelo assassinato do político mais importante do século XX nos EUA. “Nesse dia que se completam 50 anos, todos nos tornamos mais adultos”, declarou o prefeito democrata da cidade, Mike Rawlings. A cidade paralisou, ficou comovida, “as bandeiras foram hastearam a meio mastro de Texas até Berlim”, disse o prefeito. Como nesta sexta-feira, bandeiras a meio haste movidas às vezes por um forte vento que abria as janelas da cidade a uma nova era, aquela na qual o remorso pelo passado já se expirou.

Sobre o grande palco do crime que até os dias de hoje segue sendo a Praça Dealey, com a sequência que Abraham Zapruder filmou ao vivo o magnicídio; sobre o berço de conspirações que é a ladeira Grassy Knoll; desde as vias do comboio; com a imensa presença do depósito de livros hoje convertido em museu, vários milhares de pessoas suportaram estóicas a água e o frio para virar a página.

A tragédia marcou Dalas para sempre e hoje seus habitantes (75% dos quais não haviam nascido ou não viviam na metrópole quando Kennedy foi assassinado) proclamam acabado o meio século de vergonha do que foram escravos. Não querem apagar a história, mas simplesmente  "abraçar sem que seja uma ferida que se reabra permanentemente sem nos deixar avançar”, explica o jornalista do diário The Dallas Morning News, Steve Blow.

E de repente, pareceu como se se rompesse o céu. Pareceu como se a chuva torrencial tivesse estado esperando a desaguar até que os convidados abandonaram – rapidamente - seus lugares. A água respingava forte sobre o asfalto, corria estrada abaixo lavando as feridas do passado, como fugiu do tiroteio a limusine presidencial transportando o moribundo presidente há 50 anos, no dia mais escuro da história de Dalas.

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