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Partido de Macron lidera eleição legislativa e deve garantir reformas

República em Marcha obteve 32,25% dos votos, seguido pelos Republicanos (21,56%), França Insubmissa (10,96%) e Partido Socialista (9,47%). Abstenção recorde tira impacto do resultado

O presidente Macron e sua esposa, Brigitte, votam em Touquet.
O presidente Macron e sua esposa, Brigitte, votam em Touquet. AP

O desmonte do velho sistema partidário avança na França. O presidente Emmanuel Macron deu no domingo um passo decisivo para obter maioria absoluta na Assembleia Nacional, já que os candidatos do seu partido, chamado A República em Marcha (LRM), foram os mais votados no primeiro turno das eleições legislativas. A vitória, ofuscada por um nível recorde de abstenção – um em cada dois franceses com direito a voto preferiu ficar em casa – deixa os correligionários do presidente centrista em ótimas condições de vencerem o segundo turno, no domingo que vem, e relegarem as formações tradicionais a uma posição minoritária. Macron, eleito presidente em maio, precisa da maioria para impor seu programa de reformas econômicas.

Macron executa seu plano passo a passo. Ele consistia, primeiro, em conquistar a presidência e, em seguida, obter uma maioria parlamentar suficiente para governar sem amarras. Os resultados do primeiro turno legislativo ratificam essa estratégia e aceleram a recomposição do cenário político, que era dominado até recentemente pelo eixo esquerda/direita e pode agora acabar se estruturando num grande espaço de centro – o do macronismo – e uma oposição esquartejada.

“Apesar da abstenção, a mensagem é clara: milhões de vocês confirmaram seu apego ao projeto do presidente”, disse o primeiro-ministro Édouard Philippe.

Com 96% de votos apurados, o LRM, um movimento com pouco mais de um ano de vida, e seus aliados do Movimento Democrático (MoDem) obtiveram 32,25% das preferências neste primeiro turno. O movimento de Macron consegue assim oito pontos percentuais a mais do que o próprio Macron obteve no primeiro turno da eleição presidencial, em abril.

Maior abstenção desde 1958

A apatia nos colégios eleitorais da França ao longo de todo o dia se confirmou com os números finais de participação no primeiro turno das eleições legislativas. Nem um em cada dois franceses com direito a voto depositou no domingo sua cédula nas urnas. Com mais de 51%, é o índice de abstenção mais alto desde a fundação da V República em 1958 e confirma o interesse cada vez menor nas eleições legislativas cuja participação não para de cair há 20 anos. Em 1997, a participação era de 67,92%, em 2012 já tinha caído para 57%. A abstenção pode ter um impacto no segundo turno: eleva a porcentagem de votos necessários para que se qualifiquem os candidatos finalistas. E também o financiamento dos partidos: esta depende do número de votos percebido pelos partidos.

Os Republicanos (LR), o partido da direita tradicional, ficou em segundo lugar, com 21,56%, em aliança com a centro-direitista UDI. Assim, provavelmente se manterá como o principal partido da oposição. A Frente Nacional (FN), de Marine Le Pen, que chegou ao segundo turno da eleição presidencial, em 7 de maio, fica como terceira força neste primeiro turno legislativo, com 13,44%, mas dificilmente conseguirá eleger os 15 deputados necessários para formar um grupo parlamentar próprio. A FN atribuiu o mau resultado à alta abstenção e à desmobilização do seu eleitorado.

O partido França Insubmissa, do esquerdista Jean-Luc Mélenchon, ficou com 10,96%, superando – como já ocorrera no pleito presidencial – o tradicional Partido Socialista (PS), que tem a maior bancada no atual Parlamento, mas obteve apenas 9,47% dos votos neste domingo.

As projeções indicam que o LRM e o modesto MoDem obterão a maioria absoluta na Assembleia Nacional no domingo que vem, um cenário que até algumas semanas atrás parecia improvável. Algumas projeções chegam a indicar mais de 400 deputados para essa formação, num total de 577. A se confirmarem essas previsões, o presidente ficaria com uma maioria muito cômoda para implementar as reformas econômicas liberalizantes com as quais deseja tirar a França de vários anos de estagnação. O perigo é um parlamento dócil demais, que não atue como contrapeso diante de um Executivo reforçado, e a possibilidade de que a oposição acabe se expressando nas ruas.

A abstenção, por outro lado, é um aviso para o presidente. Apesar da esmagadora vitória dele nas urnas, a adesão à sua figura não é unânime na França, confundindo-se com o desinteresse e a fadiga eleitoral.

Seja qual for o resultado no próximo domingo, a nova Assembleia Nacional será mais jovem e menos experiente

As eleições legislativas na França compõem-se de 577 disputas individuais nos distritos, com possibilidade de segundo turno. Classificam-se automaticamente os dois candidatos mais votados, e também aqueles que tiverem superado 12,5% do total de eleitores aptos a votar. Até agora, nada está decidido. Depois de uma campanha discreta, começa outra: uma operação de sedução, de união entre votantes de sensibilidades diferentes. A vantagem dos candidatos da LRM no segundo turno é que, a partir da sua posição ideologicamente central, podem herdar votos tanto da esquerda como da direita. Se o rival num determinado distrito for direitista, podem aspirar a cooptar o eleitorado da esquerda, e vice-versa.

Desde 2002, quando o mandato presidencial foi reduzido de sete para cinco anos, a França elege os ocupantes do Executivo e do Legislativo no mesmo ano, com poucas semanas de intervalo. Um padrão sempre se repete nesses casos: o vencedor do pleito presidencial acaba ratificando seu mandato ao formar uma maioria legislativa expressiva. Tudo indica que isso voltará a acontecer com Macron e seu partido.

O resultado do primeiro turno da votação legislativa se explica pelo efeito presidencial e pela desmobilização dos adversários. No caso de Macron, o apoio acabou sendo amplificado por algumas decisões bastante pensadas. No exterior, o novo chefe de Estado se apresentou como uma alternativa racional e europeia ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e como alguém capaz de falar de igual para igual com o presidente russo, Vladimir Putin. Sob Macron a França reocupou, ainda que por algumas semanas, seu lugar central no tabuleiro geopolítico. Internamente, Macron incorporou figuras da direita ao seu Governo e realçou o perfil institucional da presidência, com gestos solenes e uma distância calculada para que pudesse assumir uma aura monárquica, ou “gaulle-mitterandiana”, como diz ele, numa alusão aos presidentes mais monárquicos que a França conheceu, Charles De Gaulle e François Mitterrand.

Há poucos precedentes de um partido novo – o LRM foi fundado como um movimento em abril de 2016 – que tenha saído de zero deputado e conseguido chegar ao controle da Assembleia Nacional. Seria necessário remontar, para se ter uma situação comparável, à vitória da maioria presidencial do general De Gaulle nas primeiras eleições legislativas da V República, em 1958. Ou à Câmara Azul-Acinzentada, de 1919, logo após a Primeira Guerra Mundial, quando 369 deputados novos entraram, a maioria do Bloco Nacional. Chamava-se assim devido à cor do uniforme dos ex-combatentes franceses que ocupavam as fileiras desse grupo.

A inexperiência dos novos deputados marcará a legislatura. Um terço dos deputados que sai não volta. A metade dos candidatos do LRM não tinha ocupado cargos eletivos até hoje. Seja qual for o resultado do próximo domingo, a nova Assembleia Nacional será mais jovem, menos experiente, também mais próxima da sociedade civil, e sem ligações com as forças políticas que estruturaram a França nas últimas décadas. Sua única conexão é com o LRM, partido criado sob medida para um homem, o presidente Macron.

Macron se beneficia de uma tendência da sociedade francesa que ninguém melhor do que ele soube detectar e usar. Os franceses queriam uma mudança na classe política, mas não uma mudança radical de políticas. O novo presidente, ex-executivo bancário e ex-ministro de 39 anos, venceu posicionando-se no centro, fora da esquerda e da direita, com uma mensagem europeísta e sotaque liberal. Intuiu que o PS e o LR eram fachadas imponentes, mas ruinosas por dentro. A primeira etapa para desmontá-los era a vitória nas eleições presidenciais. A segunda, sem a qual a primeira perderia o significado, exigia dinamitar a dicotomia esquerda/direita que articula a vida parlamentar desde a Revolução Francesa. Hoje ele está um passo mais perto do seu objetivo.

O PS agrava sua crise com o pior resultado de sua história

A queda do Partido socialista francês — o partido dos presidentes François Mitterrand e François Hollande — parece não ter fundo. Depois do fracasso nas eleições presidenciais de abril, o resultado no primeiro turno das eleições legislativas de ontem o deixa na quinta posição, com cerca de 10% de votos e a possibilidade de acabar sendo uma força marginal na Assembleia Nacional. É o pior resultado desde a fundação do PS, em 1969. Figuras como o primeiro-secretário Jean-Christophe Cambadélis, e o candidato das últimas eleições presidenciais, Benoît Hamon, foram eliminados no primeiro turno. As projeções para o segundo turno lhe garantem entre 20 e 35 deputados. Agora o grupo do PS tem 284. O precedente mais próximo de queda são as eleições legislativas de 1993. Na época obteve-se 57 deputados. Quatro anos depois, venceu a maioria, elegendo o primeiro-ministro Lionel Jospin.

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