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Thiago Peixoto, as batalhas por trás do homem do apito

O árbitro que cometeu um erro estrondoso no Dérbi da última quarta coleciona altos e baixos dentro e fora do campo

Thiago e a esposa Gabriela, que faleceu no ano passado.
Thiago e a esposa Gabriela, que faleceu no ano passado.

Thiago Duarte Peixoto ficou com seu nome marcado após o clássico entre Corinthians e Palmeiras, disputado na última quarta-feira, em Itaquera, e vencido pelo time alvinegro por 1 a 0. O árbitro de 37 anos cometeu um erro marcante no confronto, fato que resultou em uma enxurrada de críticas ao seu trabalho, além do seu afastamento temporário das partidas. O juiz confundiu o autor de uma falta e expulsou o jogador Gabriel que sequer participava do lance. A confusão deixou o time da casa com um a menos, o que causou muita irritação entre os corintianos e a torcida. Um episódio a mais numa carreira marcada por outra polêmica e por dramas familiares. Em um período de cinco anos, Thiago perdeu a mãe para o câncer, e a esposa, que acabara de dar a luz ao filho Gael num parto prematuro.

“Sei da qualidade dele, e nós aceitamos as críticas construtivas. Mas o que entristece é quando duvidam da idoneidade do meu filho”, afirma Onilson Carlos Duarte Peixoto, pai de Thiago, ao EL PAÍS Brasil. Dois anos atrás Onilson viu o filho conviver com a primeira controvérsia de sua carreira, também num jogo entre Corinthians e Palmeiras. Em abril de 2015, uma foto de Thiago com a camisa do Timão doada à Santa Casa de Barretos foi divulgada nas redes sociais, e assim se espalharam os boatos de que seria um corintiano a apitar o clássico. “Foi aí que vimos a maldade do ser humano. A foto tinha sido tirada quatro anos antes, e era por uma boa causa. Não nos arrependemos, mas agora evitamos esse tipo de exposição”, diz o pai. Um mês depois, ele viria a ser promovido à categoria de Aspirante FIFA, abaixo apenas dos juízes da federação internacional, o patamar mais alto a ser alcançado na profissão.

Natural de Barretos, interior paulista, e árbitro formado desde 2003, Thiago vive há anos na cidade de São Paulo, onde também exerce a função de personal trainer – ter dois empregos é comum entre os juízes brasileiros de futebol, uma vez que o trabalho não é profissionalizado no país. Foi a capital o lar dele e de Gabriela Maia, sua esposa, e lá moraram por dois anos até que o imponderável atravessou seu destino. Em março de 2016, com seis meses de gestação, Gabriela contraiu o vírus H1N1, não reagiu bem aos medicamentos e, para segurança do filho, os médicos decidiram, já no sétimo mês, antecipar o parto. Dois dias depois, a mãe sucumbiu ao vírus e não resistiu.

A perda da família fez com que Onilson mudasse sua rotina. “Enquanto eles moravam na capital, eu ficava quase um mês por aqui [Barretos] e só uns quatro ou cinco dias por lá. Depois do que aconteceu, é o contrário. Fico muito mais lá do que aqui. A gente se uniu muito”, contou o pai de Thiago.

Onilson, Ivo Duarte (captador de recursos) e Thiago, na entrega da camisa à Santa Casa de Barretos.
Onilson, Ivo Duarte (captador de recursos) e Thiago, na entrega da camisa à Santa Casa de Barretos.

Ele foi e continua sendo uma presença essencial para a recuperação do árbitro. Além de ser pai, ele entende a dor da viuvez, pois a viveu cinco anos antes. Em fevereiro de 2011, vítima de câncer, Neide Maria, mãe de Thiago e esposa de Onilson, não resistiu à doença e faleceu. O pai conta que Neide esteve hospitalizada na Santa Casa de Barretos. A instituição vive de doações. Thiago conseguiu, com a ajuda de um amigo, uma camisa do Corinthians com autógrafos dos jogadores e, em forma de gratidão ao hospital pelos cuidados com a mãe, a doou para que fosse leiloada e ajudasse a arrecadar dinheiro. A foto do árbitro com essa camiseta foi resgatada nas redes sociais quatro anos depois, alvo da primeira polêmica.

O fatídico erro

Após o jogo, Thiago enfrentou vários jornalistas e, num ato incomum, se pronunciou e admitiu seu erro, além de dizer que nada poderia justificar a falha. “Espero que minha carreira continue”, declarou, com a voz embargada, pouco antes de pedir espaço para deixar a improvisada entrevista. Onilson não se omite das críticas. “Ele errou, e todas as críticas são bem-vindas. Não é porque é meu filho, mas ele é bem preparado e está buscando seus objetivos. A vida segue”, disse.

No dia seguinte ao jogo, a Federação Paulista de Futebol (FPF) anunciou o afastamento temporário de Thiago, que agora passará por avaliações psicológicas, físicas e técnicas, feitas pela entidade. “Se acabarem com a carreira dele, ele vai ficar frustrado, assim como eu. Mas não por muito tempo. Depois de tudo que passou, ele é capaz de superar isso também”, garantiu o confiante Onilson.

"A culpa não é só dele. É um problema estrutural", afirma Simon

Guilherme Padin

Carlos Eugênio Simon, ex-árbitro com presença em três Copas do Mundo e comentarista de arbitragem no canal FOX Sports, afirma que não adianta direcionar a responsabilidade só em uma pessoa. "Se tirarem o Thiago, não vai mudar. Em pouco tempo o Pedrinho ou o Joãozinho vão passar pela mesma situação. A culpa foi de todos: os assistentes e o quarto árbitro poderiam ter entrado no gramado para alertá-lo sobre o erro. Falar só pelo fone poderia resultar numa interpretação errada. Além disso, a comissão também falhou ao mandá-lo falar em público após o jogo, não poderiam deixá-lo exposto como fizeram. Há muitos erros para crucificar apenas um", diz ele.
"Eu defendo a profissionalização. Não apenas pelo salário fixo (árbitros recebem por partida no Brasil), mas também, por exemplo, por todo o cuidado psicológico, médico e físico que os jogadores recebem e os juízes não. Se ele já vive nessa pressão, a possibilidade de errar é maior. Mas, se for profissionalizado, ele se sentirá mais valorizado e seguro. O problema está na raiz, na estrutura", encerrou.

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