Real Madrid

Cristiano Ronaldo: “Na minha cabeça, eu sou o melhor”

Astro do Real Madrid revê sua vida e sua carreira numa entrevista de divulgação do documentário que ele protagoniza

Imagem do documentário 'Ronaldo'.
Imagem do documentário 'Ronaldo'.Ariel Grandoli (efe)

Cristiano Ronaldo por pouco não nasceu. Após parir três filhos, Dolores Aveiro voltou a engravidar. Entretanto, decidiu que um quarto herdeiro era demais. “Foi um filho não desejado, mas me deu tantas alegrias, e tudo o que eu tenho eu devo a ele. Queria abortar; Deus não quis que acontecesse”, recorda Aveiro diante da câmera, sem especificar qual foi exatamente o papel do Criador. Em todo caso, milhões de torcedores do Real Madrid e admiradores do bom futebol lhe agradecem por não ter levado seus planos adiante.

Porque, 30 anos depois, o seu quarto rebento é um dos melhores jogadores da história, e também, talvez, o mais luminoso astro midiático do futebol. Cada uma de suas ações, dentro e fora do campo, é estudada nos mínimos detalhes. E isso certamente se aplicará também ao documentário Ronaldo, que estreia mundialmente nos cinemas em 9 de novembro, para depois ser distribuído em DVD e streaming. Os fãs do português de Funchal (ilha da Madeira) descobrirão seu lado mais privado e terão novo material para adular. E quem o odeia com idêntica paixão encontrará razões perfeitas para atacá-lo.

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“Quando me propuseram [fazer um documentário] achei que seria fantástico. Estava feliz de poder mostrar para mim, para a minha família e os meus fãs como é a minha existência. Não esperava que abrisse minha vida dessa maneira, mas foi natural. É tudo real, não é falso, sou eu”, garantiu Ronaldo em agosto, numa conversa com oito jornalistas de vários países preparada pela Universal para divulgar o filme, dirigido por Anthony Wonke. O documentário, gravado ao longo de um ano, mistura futebol e intimidade, da final da Champions League contra o Atlético em 2014 – quando o mundo descobriu que o filme estava sendo produzido, ao ver a eufórica comemoração dele nos 4 x 1 – até o seu aniversário de 30 anos.

A primeira frase do filme já é reveladora: “O mais importante para mim é ganhar. Simples assim”. Puro Ronaldo. Tanto que seu calcanhar de Aquiles é não saber aceitar as derrotas: “Fico zangado quando perco. Às vezes me arrependo do que faço, grito, falo de tudo. Meu temperamento me leva a exagerar. Mas é parte de mim, e quem trabalha comigo sabe”.

A resposta do português a uma pergunta sobre os triunfos de Lionel Messi é outra boa chave para entender sua maneira de pensar. “Não me incomoda. Se você olhar meus últimos oito anos, sempre estive no auge. E é difícil. Cite outro que tenha conseguido. Depois, que você seja o número um ou o dois é questão de detalhes, como ganhar troféus ou não. Talvez para você o melhor seja Messi; na minha cabeça, sou eu. E todos deveríamos pensar isso de nós mesmos. Por isso consegui tanto na minha carreira”, defende. O argentino, aliás, aparece no documentário, na entrega da última Bola de Ouro, que Cristiano ganhou com direito ao célebre “¡sííí!”. Antes da cerimônia, Messi se aproxima para cumprimentar o português e seu filho, que se esconde emocionado entre as pernas do pai, incapaz de proferir uma só palavra ao craque do Barça. No filme, Ronaldo também oferece outra nuance: “Foi complicado ver Messi ganhar várias Bolas de Ouro. Eu pensava: ‘Para que vou à cerimônia?”.

Deixando de lado o debate sobre quem é o melhor – até no cinema eles competem –, o perfeccionismo de Ronaldo ajuda a explicar por que marcou 326 gols em 312 jogos pelo Real Madrid, uma marca histórica, acima inclusive do mítico Raúl. Ou por que já ganhou três Bolas de Ouro. Para escalar cada dia mais o Olimpo, ele se dedica desde jovem a treinar até o limite do cérebro e do corpo.

Aos 11 anos, deixou a Madeira e foi sozinho para Lisboa jogar pelo Sporting. “Minha família foi a base da minha existência. Deixá-la tão jovem foi o pior momento da minha vida. Depois disso, já estava mentalmente forte para enfrentar tudo”, relata. E isso que os primeiros anos do jogador não devem ter sido fáceis. De origem humilde, criado na periferia – “Se não se dedicasse ao futebol, provavelmente teria ido para a droga”, declarou sua mãe –, Ronaldo lutou com um pai alcoólatra. “Estava bêbado quase todos os dias, nunca o conheci bem. Gostaria que tivesse sido mais presente”, afirma o jogador no filme. E sua mãe acrescenta: “Apesar de nunca ter maltratado seus filhos, eu me transformei em sua vítima”. Dinis Aveiro morreu em 2005, aos 51 anos.

Após deixar o ninho familiar, Ronaldo abandonou também o seu país. Em 2003, foi contratado pelo Manchester United por 12,2 milhões de libras (73 milhões de reais, pelo câmbio atual), quando mal tinha completado a maioridade e já era disputado pelos melhores times do planeta. Depois de assombrar o mundo na corte de sir Alex Ferguson, Cristiano chegou em 2009 ao Real pela cifra recorde de quase 100 milhões de euros (cerca de 424 milhões de reais, em cifras atualizadas). Sua apresentação, diante de 90.000 torcedores, foi digna de um astro de Hollywood.

Rumo ao mito

Desde então, Ronaldo se tornou uma lenda viva do Real Madrid, alvo de idolatria dos torcedores. Ele costuma se mostrar disponível para os fãs, embora admita que nem sempre é fácil. “Há alguns anos fui a um hospital em Lisboa. Quando um menino me viu, seu eletrocardiograma disparou. Corri para abraçá-lo, dizendo: ‘Uuuuui! Não se preocupe!’”, ri o português, num dos poucos momentos descontraídos da conversa.

No resto do tempo, a entrevista ocorre num clima que pouco faz lembrar a sua conversa anterior com este jornal. Na época, acabava de chegar a Madri com a ambição de deixar sua marca no Real. Hoje ocupa o trono do futebol, com tudo que isso acarreta. Assim, os jornalistas são convocados para 12h, mas o jogador só aparece uma hora e meia depois. Entra na sala, com uma camisa que mal consegue conter seus músculos, se senta, há uma rápida apresentação e começa o bate-papo. Dali a 20 minutos cravados – os combinados – ele se levanta, responde rapidamente a uma última pergunta fora do tempo e adeus. Tudo sob o olhar da equipe da Universal.

Por isso o encontro fica parecendo um compromisso obrigatório. De vez em quando se vislumbra um rapaz espontâneo de 30 anos, divertido, mais ou menos normal – se é que um astro do futebol tem como sê-lo –, ao passo que em outras se reflete o Ronaldo que certa vez declarou: “Sou bonito e rico, e eles têm inveja de mim”. Posteriormente, o jogador qualificou de “equivocadas” essas afirmações. Mas a ladainha de assobios prossegue em cada estádio da Espanha, possivelmente da Europa. E, por milhares de fãs que tenha, há outros tantos que o veem de outra forma: arrogante, ególatra, mais preocupado consigo do que com o time, e vários et cetera. Acha que seu comportamento contribuiu para criar tanta hostilidade? “De jeito nenhum. Faz parte. Não preciso de gente que me odeie, mas preciso, de certo modo, de alguém contra mim. É necessário ver o lado bom de ser odiado. Gosto que gritem para mim quando toco na bola, me motiva.”

Cristiano celebra seu gol com o jogador Marcelo.
Cristiano celebra seu gol com o jogador Marcelo.Ballesteros (EFE)

Além de esculpir sua mente, centenas de horas de ginástica e atenção maníaca fizeram de Ronaldo uma máquina imparável também fisicamente: há anos joga mais de 4.000 minutos por temporada, sem se dar descansos. “O mais importante que tenho é o meu corpo, e devo cuidá-lo”, argumenta. Para isso, a experiência lhe sugeriu alguns truques: “Já não vou cometer mais alguns erros do passado. Depois de uma partida, com 22 anos saía para um jantar até as três da madrugada. Agora evito, volto para casa, me recupero e talvez vá no dia seguinte. Esses pequenos detalhes fazem uma diferença enorme ao final da temporada”. Além disso, Ronaldo salienta a importância de dormir bem, relaxar nadando e cuidar da alimentação.

Mesmo assim, o esforço a que submete seu físico lhe passou a fatura. No filme, admite que, se pudesse voltar atrás, não teria ido à Copa de 2014 nas condições precárias em que jogou, e revela que as lesões nunca o abandonam: “Talvez se não sentisse dor eu não seria tão bom”, diz. Ainda nota o sofrimento? “A cada dia. Mas outros jogadores dariam a mesma resposta. Alguns sabem enfrentar isso, outros não. Se você treina duro, joga a cada semana, inclusive duas vezes, vai sentir. Seu corpo não estava acostumado a isso.”

“Minha vida é o futebol. É a coisa que mais amo, me entrego 100%”, acrescenta Ronaldo. Mas ele tenta esquecer o futebol sempre que pode, para evitar uma overdose futebolística. Procura não ler os jornais esportivos nem ver televisão, muito menos outros jogos. “Posso me divertir com algum confronto importante, mas não sou um grande fã de ver futebol na televisão. Em casa quero fazer outras coisas.” Por exemplo, conviver com amigos e parentes, incluindo seu irmão Hugo e o seu inseparável agente, Jorge Mendes. No filme, o jogador conta que não tem muitas amizades com jogadores e que é uma pessoa isolada. No bate-papo, adiciona: “Não é que seja solitário, mas nasci assim. Meu pai também era. Sim, tenho amigos no futebol, e fora, mas os reais são poucos, quatro ou cinco pessoas”.

Além disso, o português dedica seu tempo livre ao filho, a quem adora acima de tudo. Cria-o sozinho, já que a identidade da mãe nunca foi revelada. Aliás, exceto por sua mãe, quase não há presenças femininas no documentário. “É assombroso em que Cristiano [seu filho] me transformou. Nunca pensei que me mudaria tanto. Sempre me apoia, me sorri”, conta. Cristiano Jr. só tem uma falha: quando crescer, diz no filme, quer ser goleiro. “Pode ser o que quiser. Mas, se quiser se dedicar ao futebol, eu preferiria que jogasse na frente e marcasse gols. Gostaria também que fosse como eu.” Os madridistas com certeza também.

Gols, amigos e Jorge Mendes

Ao longo do documentário, pode-se ver tanto o atleta que treina até a obsessão quanto o pai que brinca com seu filho. O filme mostra, além disso, o círculo de pessoas mais próximas do jogador, de seu irmão Hugo, que conta no longa-metragem como superou os sérios problemas de dependência que tinha, à sua mãe e amigos.

Um papel central no documentário é o do inseparável Jorge Mendes, seu segundo pai e “o Cristiano dos agentes”, nas palavras do jogador do Real Madrid. "Tudo que ele diz que acontece, acontece", acrescenta Cristiano. E Mendes também se desfaz em elogios a seu pupilo: "Eu o vejo como um filho. É um monstro, o melhor jogador do mundo".

Além disso, Ronaldo relembra também gols e triunfos do português, assim como a decepcionante participação de Portugal na Copa do Mundo do Brasil (2014). Talvez a obra não revele a fundo quem é o homem por trás do mito, mas mostra, às vezes, uma imagem mais real do campeão, apreciada ou não. Como quando se entrega completamente ao cantar a música Stay, de Rihanna, em um avião, ou quando desafia Cristiano Jr. a adivinhar qual de seus vários carros de luxo não está na garagem no momento.