Meios de comunicação

Austrália abre primeira grande batalha entre a mídia e as empresas de tecnologia

Facebook suspende a difusão de notícias da grande imprensa para milhões de usuários, em resposta ao projeto de lei que o obrigaria a pagar aos veículos

O Facebook não mostra mais notícias no ‘feed’ dos usuários australianos.
O Facebook não mostra mais notícias no ‘feed’ dos usuários australianos.Carlos Jasso / Reuters

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Os australianos que acessaram seus perfis do Facebook nesta quinta-feira ficaram informativamente às escuras, depois que a companhia cumpriu sua ameaça de bloquear o conteúdo dos veículos de comunicação locais e internacionais a seus milhões de usuários no país. O apagão noticioso também afetou quem consulta a rede social de fora da Austrália, pois esses usuários não veem mais os links para veículos do país oceânico, conforme comprovou a agência AFP.

A decisão representa um salto qualitativo no duelo que contrapõe há uma década as empresas de mídia e as grandes companhias tecnológicas, o qual, até agora, era travado mais no terreno das ameaças que dos fatos. Os veículos consideram que Google e o Facebook se aproveitam do trabalho dos geradores de conteúdo sem remunerá-los de forma alguma, ao mesmo tempo em que lhes tiram a maior parte do bolo publicitário. O Google e o Facebook alegam que, graças a eles, o número de leitores se multiplicou.

A manobra da companhia é uma reação a um projeto de lei introduzido pelo Governo de Scott Morrison, que está tramitando no Senado e busca que Facebook e Alphabet —matriz do Google— paguem aos editores para usar os links de suas notícias e reportagens nessas plataformas. Algumas páginas vinculadas ao Departamento de Saúde e outras de Emergências, assim como algumas entidades beneficentes, também foram bloqueadas, embora o Facebook tenha recuado mais tarde, quando voltou a deixa-las operacionais.

A resposta do Facebook contrasta com a do Google, que horas antes tinha anunciado que pagará durante os próximos três anos à News Corp., o império midiático de Rupert Murdoch, pelo material distribuído por muitos títulos desse conglomerado —que inclui The Wall Street Journal, Barron’s, MarketWatch e The New York Post nos Estados Unidos; The Times, The Sunday Times e The Sun no Reino Unido; e outras publicações na Austrália, como The Australian, Sky News e news.com.au. O acordo poderia significar uma nova aproximação entre Canberra e a companhia de Mountain View, e chega depois que o gigante das buscas aceitou desembolsar o equivalente a 415 milhões de reais a 121 editores de imprensa na França, segundo a Reuters.

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Resposta “arrogante”

Em uma reflexão publicada exatamente no Facebook, o primeiro-ministro australiano catalogava o bloqueio como “arrogante”, observando ao mesmo tempo que essa atitude caracteriza algumas das grandes empresas tecnológicas. “Estas ações confirmam as preocupações que um elevado número de países estão expressando em referência ao comportamento das big tech, que acreditam ser mais importantes que os governantes e consideram que as leis não foram feitas para que elas as cumpram. Pode ser que o mundo esteja mudando, mas isso não lhes dá o direito a dirigi-lo”, escreveu Morrison. “Não permitiremos que nos intimidem nem que pressionem o nosso Parlamento, agora que se vota o projeto sobre o relativo ao pagamento de luvas pelas notícias em formato digital, da mesma forma que não cedemos quando a Amazon ameaçou abandonar o país”, acrescentou o chefe de Governo.

“As companhias que operam na Austrália têm o dever de cumprir as leis aprovadas pelo Parlamento”, afirmou Paul Fletcher, ministro das Comunicações. Seu homólogo de Finanças, Josh Frydenberg, definiu a estratégia do Facebook como “inútil e autoritária”, além de nociva à sua imagem.

O projeto de lei vem sendo debatido há quase um ano. Impulsionado pela Comissão Australiana de Concorrência e Consumidores (ACCC, na sigla em inglês), pretende obrigar as duas grandes plataformas a negociarem com os editores um preço por seus conteúdos. Segundo o texto, o valor a pagar não dependeria só da capacidade de negociação de cada meio com o Google ou Facebook, e sim de arbitragem externa, caso não houvesse acordo.

O Facebook, por sua vez, afirma que o novo projeto de lei parte de uma base errônea, porque são os próprios meios de comunicação os primeiros interessados a projetar seu conteúdo ali, dado que graças ao seu poder de difusão podem alcançar mais pessoas. “Ao contrário do que alguns sugeriram, o Facebook não rouba conteúdo noticioso. Os meios de comunicação escolhem publicar suas notícias no Facebook porque encontram novos leitores, conseguem assinantes e melhoram seu faturamento. As organizações noticiosas não usariam o Facebook se ele não contribuísse para a sua rentabilidade”, disse em nota na quarta-feira passada William Easton, gerente do Facebook na Austrália e Nova Zelândia. Segundo o Facebook, os editores australianos a conseguiram faturar o equivalente a 1,72 bilhão de reais a partir das menções na plataforma de Mark Zuckerberg.

O apagão informativo do Facebook na Austrália tem um precedente remoto na Espanha. Em 2014, o Google expulsou a mídia espanhola da sua plataforma Google News em resposta à lei de propriedade intelectual que obrigava os agregadores a pagarem pelas informações indexadas. Em médio prazo, a medida não afetou o tráfego dos jornais, que continuaram no Google, mas fora da ferramenta citada.

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