Médico canadense inseminou uma centena de mulheres com esperma não selecionado pelos pais

Norman Barwin, especialista em fertilidade, foi condenado por usar o próprio sêmen em pelo menos 17 casos. A Justiça do Canadá exige 10 milhões de dólares em indenizações aos afetados

O médico canadense Norman Barwin, em imagem de arquivo.
O médico canadense Norman Barwin, em imagem de arquivo.CBC

O médico Norman Barwin fez fama durante décadas por seu trabalho na clínica de fertilidade que possuía em Ottawa. Em 1997, recebeu a Ordem do Canadá, mais alto reconhecimento civil no país. Nesta segunda-feira, um tribunal da província de Ontário pôs ponto final a um assunto protagonizado por Barwin, mas resultado da pior ética imaginável. O juiz Calum MacLeod autorizou um acordo de reparação de 13,3 milhões de dólares canadenses (60,8 milhões de reais) para as vítimas do médico. Baldwin inseminou com sucesso uma centena de mulheres com esperma não selecionado pelos pais. Em pelo menos 17 casos, recorreu ao seu próprio.

O caso lembra o do médico brasileiro Roger Abdelmassih, especialista em reprodução humana e um dos pioneiros da fertilização em laboratório no país. Em 2010, ele foi condenado à prisão por abusar sexualmente de suas pacientes enquanto elas estavam sob efeito de sedativos. Em 2014, outra condenação impôs pagamento de multa por uso de sêmen de desconhecidos em um tratamento de fertilização. Abdelmassih negou a acusação. Atualmente, está no presídio de Tremembé, em São Paulo. O caso virou tema de livro e de série.

No Canadá, Rebecca Dixon e seus pais foram os primeiros a moverem a ação. O casal marcou consulta com o Norman Barwin em 1989 porque tinha problemas para conceber. Em 2016, ficaram sabendo por um exame de DNA que o médico era o pai biológico de Rebecca, por isso decidiram bater às portas da Justiça. Em julho passado, os advogados das vítimas e de Barwin chegaram a um acordo, mas o documento ainda precisava do aval do tribunal de Ontário.

Em sua decisão, o juiz MacLeod afirmou que o acordo “é o melhor para todos”. Entretanto, salientou a dor das famílias “que suportaram o impacto, o trauma e a sensação de traição ao descobrirem que sua herança genética ou a de seus filhos foi tergiversada e alterada”. Até o momento, 244 nomes aparecem na lista de pessoas a serem indenizadas. Mas o número ainda pode crescer, porque o juiz concedeu um prazo adicional de 120 dias para que outros indivíduos demonstrem que foram vítimas de Barwin.

Além dos filhos e pais de família, o acordo inclui alguns homens que armazenaram esperma na clínica de Barwin e que não sabem se o médico o usou para inseminações sem autorização. Uma parte do acordo contempla a criação de um banco de DNA. O escritório de advocacia Nelligan Law, representante das vítimas, informou em nota que graças a este banco “os antigos pacientes do Norman Barwin, que lhe tinham confiado seu esperma, e as crianças que desconhecem a identidade de seu pai biológico poderão determinar se há coincidências genéticas”.

Norman Barwin tem atualmente 82 anos de idade. O conselho provincial de medicina cassou sua licença profissional em 2019, numa decisão que foi criticada por ser tardia demais. Barwin renunciou à Ordem do Canadá em 2013, pois já naquela época pairavam suspeitas sobre práticas indevidas em sua clínica. Apesar de ele ter assinado o acordo de reparação, jamais aceitou sua responsabilidade. O dinheiro para as vítimas não sairá do bolso dele, e sim da Associação canadense de proteção médica.

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