Especial Sertão

Aparar toda a água da chuva e tirar o sustento dessa terra seca

É nos primeiros meses do ano que o sertão espera a chuva para atravessar a seca. O pequeno agricultor agora tem a cisterna como um patrimônio que exige cuidado constante e reinventa formas de sobreviver. A mobilização social ali dissemina conhecimento

A agricultora Antônia Márcia da Silva Lopes.
A agricultora Antônia Márcia da Silva Lopes.Fernanda Siebra

Do alpendre da casa que divide com o marido na zona rural do sertão cearense, Antônia Márcia da Silva Lopes observa, atônita, a chuva que cai sobre o telhado. Nos últimos seis anos, o que choveu no inverno —no Nordeste, o inverno é quando cai a chuva, na primeira metade do ano—, deu pra encher a cisterna, mas não repôs as águas dos açudes. É março de 2019, e ela sabe que a cisterna menor vai encher e que a família dela vai ter água para beber no verão, mas o pensamento está focado no que escorre pela terra vermelha do seu terreno.

— Meu Deus, tanta água estragando! — comenta com o marido José Carlos.

— Mulher, e tu quer aparar toda a água da chuva? Deixa de ser esfomeada por água — ele diz, rindo.

— Não, Dedé. É porque a gente sabe a precisão que passa todo verão. E quando vê essa água toda indo embora assim, dá vontade de sair pra abraçar e juntar tudo. Já pensou se a gente tivesse água de cisterna que desse também pra lavar a roupa e tomar banho?

Antônia Márcia é conhecida como Marcinha na comunidade do Bom Jardim, zona rural do município de Quixadá. Tem duas cisternas, uma pra beber e outra pra produzir, mas a água de uso geral ainda vem do açude. Ela cresceu naquela região, uma das mais áridas do Ceará, bebendo água de poço ou dos carros pipa do Governo, quando ano a ano o inverno parecia fracassar ainda mais. “Eu fui criada bebendo água de qualquer buraco. Dava a primeira chuva, e a gente bebia aquela água do riachinho que se formava e parecia suco de folha. Hoje você vê água do açude e não tem coragem de beber porque é poluída. Eu aprendi a dar valor à água pelo sofrimento”, ela diz, enquanto ajeita o vestido, sentada em uma cadeira na mesma varanda onde, mais de um ano atrás, queria aparar toda a água da chuva. Depois de ter sentido o gosto da água de qualidade ao ganhar uma cisterna em 2013, se recusa a preencher o reservatório com outra água que não seja a da chuva. “Na minha cisterna não entra água salgada de caminhão pipa, não. O que é meu tá aqui pra eu cuidar. Eu fui pra guerra pra ganhar essa cisterna”, diz.

Marcinha caminhava seis quilômetros todos os dias para participar dos cursos de uma ONG responsável pela execução do programa do Governo Federal, uma exigência para ser contemplada com a tecnologia social. O marido, que até então fazia serviços gerais quando a roça não segurava, abraçou uma nova profissão que surgiu no semiárido: a de cisterneiro. Foi por meio da mobilização social que ronda o programa que eles aprenderam que não basta ter o reservatório em casa, é preciso cuidar dele ano a ano, com limpezas e reformas, para manter o que dá a segurança de que vai ter o que beber no verão. E que cisterna é algo que não se pode secar totalmente nunca, pra não correr o risco dela rachar. “Eu sempre deixo meio metro de água lá, mesmo na seca”, diz. A cisterna voltou a encher completamente nas chuvas abundantes que deram neste ano de 2020. Se na região, inverno é quando cai a chuva, para Marcinha, é época de correr contra o tempo para plantar o que conseguir nos terrenos dos vizinhos, com quem divide o trabalho e a colheita de milho e fava.

Eu fui criada bebendo água de qualquer buraco. Hoje você vê água do açude e não tem coragem de beber porque é poluída. Eu aprendi a dar valor à água pelo sofrimento.

É assim desde a infância, quando os pais plantavam legumes próximo aos açudes que secavam no verão. O que mudou foi o destino do que sobrava do consumo familiar. Se antes o alimento estragava ou ia para o lixo, agora ele é vendido em feiras agroecológicas. “A gente vende o que sobra e já é uma renda extra”, diz Marcinha, que fala como se o mundo de sua infância, quando roupa nova só existia pra ela no máximo uma vez por ano e se houvesse safra de algodão, agora fosse distante. “A gente andava com chinelo de uma cor e outro de outra, os cabresto tudo quebrado e amarrado de arame. Você não vê mais isso aqui, não. Hoje em dia, se você tem uma galinha, o ovo que sobra da sua alimentação você vende. Eu hoje tenho uma renda pouca, mas que é minha”, conta. Com a pandemia do coronavírus, as feiras agroecológicas foram paralisadas, mas os agricultores têm tentado vender pelo menos parte da produção em feiras online.

A crise econômica gerada pela pandemia também chega pra eles, mas os quintais produtivos que têm graças ao programa da cisterna dão alguma segurança que alguma comida vai ter à mesa. E os aprendizados trazidos pelo programa os fizeram reinventar a forma de conviver com a seca e melhor aproveitar os recursos que têm, com a criação de animais mais adequados ao clima e armazenamento de grãos. “O povo fica impressionado como eu tiro meu sustento daqui dessa terra seca, porque você olha e não vê nada. Mas eu tenho acelga, berinjela, tomate, pimentão. Aí vou na feira da vila e vendo tudinho. Isso já me dá o dinheiro pra uma mistura, pra uma prestação. E assim eu vou levando a minha vida”, conta Marcinha.

Marcinha não come de carne de bode nem comemora aniversário porque são duas coisas que transportam a sua memória ao dia em que fez cinco anos. O pai, que havia matado um bode para oferecer aos padrinhos dela, disse que a partir daquele momento ela moraria com eles porque já não tinha mais condições de criá-la, junto com outros quatro irmãos, da agricultura diante de tantos verões secos. Marcinha foi embora chorando e, por mais que pedisse para ir à escola, mal pôde estudar porque precisava ajudar a mãe adotiva com trabalhos de crochê que vendia. “Minha madrinha dizia que, pra eu aprender a assinar o nome, não precisava sair de casa. Eu também não podia brincar, então fui trabalhar”, conta. Só lhe era permitido brincar com uma boneca aos domingos e se ela houvesse cumprido o que a madrinha esperava que produzisse durante a semana.

Marcinha casou aos 16 anos. Mal havia concluído o segundo ano do ensino fundamental, quando engravidou do primeiro filho, no ano seguinte. Pariu no meio de uma grande seca, que castigou o sertão durante quatro anos. O filho nunca tomou uma mamadeira grande porque a família não tinha condições, e ela trabalhava lavando roupa e fazendo faxina para completar a renda de casa. “Mas eu sempre pensava que, no dia que tivesse chance, ia estudar”, lembra. Concluiu os estudos muitos anos depois, graças às aulas do Telecurso 2000, um programa de TV que ensinava disciplinas do ensino fundamental e médio. Mas conhecimento mesmo Marcinha diz que só conquistou depois que ganhou a primeira cisterna. “Eu passei a dar valor ao que eu produzia e aprendi que, dessa terra onde tantas vezes me perguntei se ia ser capaz de sobreviver, a gente pode aproveitar tudo. Vi que tinha uma riqueza que não sabia usar”, diz.

Aprendi que, dessa terra onde tantas vezes me perguntei se ia ser capaz de sobreviver, a gente pode aproveitar tudo
Antônia Márcia

Marcinha vive hoje implantando o que aprendeu nas inúmeras reuniões e cursos que participou com agricultores da região e entidades da sociedade civil responsáveis por executar o programa do Governo Federal. “Essa cisterna pra mim é uma riqueza, é mesmo que você ganhar na loteria”, ela diz. E não fala só por ter dois reservatórios pra aparar água da chuva, mas porque foi a partir do programa que passou a conhecer melhor o seu lugar e a reinventar formas de conviver com o semiárido.

Hoje eu sou formada, e não troco o meu diploma pelo de médico nenhum. Eu entendo o lugar onde eu vivo.

A experiência ali a levou para muitas outras cidades brasileiras e também para outros países do chamado corredor seco da América Latina, onde ela participa de eventos para compartilhar sua experiência. Ali, explica as técnicas de gotejamento que desenvolveu para aguar as plantações economizando água, e conta como aprendeu a reutilizar a água do banho e da roupa para aguar as fruteiras. Fala também do minhocário que mantém para fazer a compostagem utilizada na produção de seus orgânicos, mas que também é vendido e lhe dá uma nova renda. “Hoje eu sou formada, e não troco o meu diploma pelo de médico nenhum. Tá pensando que meu conhecimento não é tão rico como o teu? Eu entendo o lugar onde eu vivo. Isso é o maior privilégio que eu poderia ter”, diz.

Essa reportagem é parte da série de publicações produzidas como resultado da Bolsa de Jornalismo de Soluções, da Fundação Gabo e Solutions Journalism Network graças ao apoio da Tinker Foundation, instituições que promovem este jornalismo na América Latina.

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