Polícia encontra corpo de criança de seis anos raptada pelo pai em caso que comove a Espanha

Guarda Civil segue em busca dos corpos da irmã mais nova, de um ano, e do pai. Caso exemplifica violência machista extrema. Desde 2013, 36 menores foram assassinados por pais biológicos no país

Anna, de um ano, e Olivia, de seis, as duas irmãs desaparecidas desde 27 de abril em Tenerife.
Anna, de um ano, e Olivia, de seis, as duas irmãs desaparecidas desde 27 de abril em Tenerife.SOS Desaparecidos

As equipes de busca encontraram nesta quinta-feira no mar o corpo de Olivia Gimeno Zimmermann, a menina de seis anos desaparecida em Tenerife no dia 27 de abril junto com sua irmã Anna, de um ano, conforme confirmado pelo Tribunal Superior de Justiça das Ilhas Canárias e pela Guarda Civil. O corpo foi encontrado no fundo do mar, dentro de uma sacola amarrada à âncora do barco do pai das menores, Tomás Gimeno, de 37 anos. O barco tinha sido encontrado à deriva, sem âncora, no dia seguinte ao desaparecimento. O fato já foi comunicado à mãe e à família das menores. O trabalho de rastreamento da Guarda Civil continua no local em busca dos corpos de Anna e Tomás Gimeno.

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A magistrada titular do Tribunal de Primeira Instância e Instrução número 3 de Güímar (Santa Cruz de Tenerife) informou que ordenou a perícia no local em que ocorreu a morte e o exame do cadáver da menina. O corpo, explicou o Tribunal Superior de Justiça das Canárias, foi encontrado pelo robô do barco de busca Ángeles Alvariño ao meio-dia desta quinta-feira a 1.000 metros de profundidade a cerca de três milhas da costa de Tenerife. Ao lado da sacola esportiva em que foi encontrado havia outra sacola vazia. O corpo foi levado à terra por volta das 18h e encaminhado para o Instituto de Medicina Legal e Ciências Forenses, em San Cristóbal de La Laguna. No dia do desaparecimento, Tomás Gimeno foi visto colocando seis sacolas na lancha com a qual partiu de Santa Cruz de Tenerife.

O navio do Instituto Espanhol de Oceanografía ‘Ángeles Alvariño’ durante os trabalhos de rastreamento.
O navio do Instituto Espanhol de Oceanografía ‘Ángeles Alvariño’ durante os trabalhos de rastreamento.Miguel Barreto (EFE)

O pai das meninas supostamente sequestrou suas duas filhas na noite de 27 de abril na ilha canária de Tenerife. De algumas semanas para cá, a busca no fundo do mar de Tenerife tornou-se a principal linha de investigação da Guarda Civil depois que as buscas em terra firme não permitiram encontrar seu paradeiro.

Por isso a área estava sendo investigada desde 30 de maio pelo barco Ángeles Alvariño, do Instituto Oceanográfico Espanhol. A embarcação está equipada com um sonar e um robô submarino, que trabalham ininterruptamente dia e noite numa área delimitada pela geolocalização do celular do pai das meninas na tarde e na noite de seu desaparecimento.

Anna e Olivia exemplificam uma forma de violência machista extrema que ainda é pouco conhecida socialmente, a violência vicária. Consiste em causar dano à mãe por meio dos filhos. Nesse caso, o agressor não busca matar a mulher, mas produzir-lhe o maior sofrimento possível. Desde que existem dados oficiais, em 2013, 39 menores foram assassinados, quatro deles nas Ilhas Canárias. Em todos os casos, exceto três, os assassinos foram os pais biológicos. Nestes outros assassinatos, os autores eram companheiros ou ex-companheiros das mães.

No dia 27 de abril, por volta das 17h, Tomás Gimeno buscou Anna na casa das mães das meninas, sua ex-companheira Beatriz Zimmermann, de 35 anos. Depois foi buscar Olivia em um acampamento para onde ia depois das aulas e, mais tarde, foi com elas para sua casa no município de Igueste de Candelaria. Por volta das 19h30 foi ao porto esportivo Marina Tenerife. Nem as câmeras de segurança nem o guarda de segurança detectaram a presença de Anna e Olivia no momento da entrada.

Gimeno embarcou sozinho. Antes disso, colocou no barco seis maletas e sacolas, para o qual fez três viagens desde seu Audi A3 branco. Naquele dia ele zarpou duas vezes. Ao retornar de sua primeira incursão ao mar, foi interceptado pela Guarda Civil e proposto para sanção por ter ignorado o toque de recolher. Depois da meia-noite, zarpou novamente e seu rastro se perdeu. No dia seguinte, a embarcação foi encontrada vazia, à deriva e sem âncora, em frente à localidade de Puertito de Güímar, na costa leste da ilha. Pouco depois, uma cadeira de carro para criança, usada por Anna, foi encontrada flutuando. Na segunda-feira passada o Ángeles Alvariño encontrou no mar um cilindro de oxigênio e uma capa de edredom, ambas de propriedade de Gimeno.

A mãe das meninas, Beatriz Zimmermann, publicou várias cartas no último mês. Em todas elas expressou a convicção de que as filhas estavam vivas. Nesta quarta-feira, ela afirmou acreditar que o cilindro de mergulho e a capa de edredon eram “um teatro” para mascarar uma fuga, que é o que estava convencida de que havia ocorrido. Com o passar dos dias, o tom das cartas publicadas por Zimmermann foi se impregnando de pessimismo.

O PRESIDENTE SÁNCHEZ LAMENTA A TRAGÉDIA

O presidente do Governo (primeiro-ministro), Pedro Sánchez, lamentou a tragédia na tarde desta quinta-feira através de uma postagem no Twitter: “Não posso imaginar a dor da mãe das pequenas Anna e Olivia, que desapareceram em Tenerife, diante da terrível notícia que acabamos de saber. Meu abraço, meu carinho, e o de toda a minha família, que hoje se solidariza com Beatriz e seus entes queridos”, escreveu.

 

O presidente das Canárias, Ángel Víctor Torres, também lamentou na mesma rede social. “Semanas desejando receber notícias encorajadoras e, no entanto, hoje nos chega a pior possível, aquela que nos gela a alma, sobre as meninas de Tenerife, Anna e Olivia. Todo o nosso pesar, ânimo e força à mãe delas, Beatriz, à sua família e amigos. Canárias destroçada”, expressou.

 

A ministra da Igualdade, Irene Montero, também condenou em seu perfil no Twitter que “esta violência que se exerce contra as mães para atingir onde mais dói é uma questão de Estado”. “Não há palavras para acompanhar Beatriz nestes momentos de terrível dor. Estamos aqui para o que for necessário. Chega de violência vicária.”

 

Na mesma linha se manifestou a ministra de Direitos Sociais e Agenda 2030, Ione Belarra, que destacou a necessidade de “acabar com a violência vicária que tanta dor está causando em nosso país”. “Vamos trabalhar nisso sem descanso”, afirmou, e aproveitou a mensagem para mandar “o mais forte abraço à mãe, Beatriz, e aos seus familiares”.

 

O titular da Justiça, Juan Carlos Campo, também se solidarizou com os familiares das menores na mesma rede social. “A consternação e a dor nos invadem neste momento com a notícia sobre as meninas Olivia e Anna”, lamentou Campo.

 

 


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