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PT enfrenta crise dos 40 anos resistente a mudanças

Inabilitado para ser candidato, Lula dirige com Pepe Mujica o aniversário do partido fundado em 1980 que governou o Brasil durante 13 anos de olho nas eleições municipais em outubro

É difícil encontrar nessa imensa fábrica do século XIX reconvertida em centro cultural alguém que não mostre com orgulho o vermelho que a extrema direita que governa o Brasil tanto detesta: camiseta, gorro, sacola de pano... O Partido dos Trabalhadores comemorou seus 40 anos no sábado com uma grande festa em um Rio de Janeiro imerso nos preparativos do Carnaval. As estrelas de um elenco que mistura música e discursos políticos são dois dos líderes mais carismáticos da esquerda latino-americana, Lula e Pepe Mujica, que somam uma longa experiência de vida, de Governo, na oposição e na prisão (contra a ditadura e, no caso do líder brasileiro, também por corrupção). “Jovens, entrem na política! Se vocês estão desanimados, têm muito a fazer. De entrada, podem começar por não propagar nenhuma das mentiras que contam”, proclama Lula diante de cerca de 10.000 pessoas na Fundição Progresso.

Tanto ele quanto o ex-presidente do Uruguai apelam em seus discursos à juventude, embora a maioria do público seja de meia-idade, como Suely Lisboa, professora desempregada de 54 anos que veio com outros militantes. Quando Lula foi preso, o grupo criou um bloco de Carnaval chamado Ai, Que Saudade do Meu Ex. Quando todos os partidos brasileiros estão com os olhos postos nas eleições municipais de outubro, a dupla de homens brancos que soma 158 anos é reflexo da resistência do PT em enfrentar sua renovação.

Aclamado repetidamente como “presidente, presidente”, se alguém tem presente neste festival de sábado de verão que duas condenações impedem Lula de ser candidato a qualquer cargo público, não o verbaliza. O único operário que governou o Brasil ainda é a melhor propaganda eleitoral do PT. O único que sabe falar com seus compatriotas em uma linguagem popular sem que soe impostado.

O PT foi fundado por Lula, junto com outros sindicalistas, intelectuais, católicos progressistas e guerrilheiros no Colégio Sion, em 10 de fevereiro de 1980. Ainda restavam cinco anos de ditadura. A destituição de Dilma Rousseff, que não participou da festa de aniversário, depois de quatro mandatos petistas foi o pior momento de um partido que governou durante 13 anos este país tão desigual, classista e racista, com a inclusão social como prioridade absoluta. Essas políticas geraram mudanças evidentes para os mais desfavorecidos.

O historiador Lincoln Secco, autor de História do PT, afirma que “é difícil separar essa crise conjuntural da resistência natural do partido à renovação de líderes. "Vejo que o PT tem muitos novos líderes, mulheres, jovens, negros, mas ao mesmo tempo os velhos dirigentes resistem a eles”.

A moderadora da conversa entre os ex-presidentes é a chefa do PT no Rio, a deputada negra Benedita da Silva, que acrescenta diversidade aos oradores. E anos. Concretamente, 77 anos. Secco, professor de história contemporânea da Universidade de São Paulo (USP), dá um exemplo do calibre da resistência à mudança. “Salvador é a capital negra do Brasil e é provável que o PT apresente mais uma vez às eleições um homem branco de classe média”.

A classe operária industrial em que o PT germinou com o apoio das classes médias já não existe porque o Brasil, como o restante do mundo, sofreu profundas transformações sociais que as forças mais conservadoras leram melhor do que a esquerda. “O Brasil é hoje um país desindustrializado com uma classe média que se inclinou à direita e em que os trabalhadores das grandes cidades estão se tornando evangélicos”.

São muitos os que veem o diagnóstico com clareza, a concordância é menor em relação aos possíveis remédios. O antigo ministro Tarso Genro deu sua receita em um artigo chamado O PT ficou obsoleto, no qual anunciou que não iria à festa do partido em que ainda milita. Após afirmar que “o partido tem um discurso ancorado no momento em que foi fundado” chama a atenção sobre “a nova organização do trabalho e a tensão social frutos das questões de gênero, cultura, preconceitos raciais e condição sexual. Precisamos absorver suas demandas e dar à população respostas concretas”. Secco, o historiador, sugere a necessidade de uma frente ampla à uruguaia.

Lula e Mujica, no palco, se referem aos riscos trazidos por esse novo mundo. Os dois de jeans. O uruguaio com sua clássica guayabera; o brasileiro, que várias vezes se agacha no palco para cumprimentar seus fiéis como uma estrela do rock, com uma camisa polo vermelho escuro. Lula reivindica os direitos trabalhistas e outras conquistas sociais.

“O ser humano está sendo tratado da pior maneira possível em nome da flexibilização e do empreendedorismo. Foram transformados em microempreendedores”, alerta para acrescentar que “esse nome tão sofisticado” esconde a precarização que no Brasil também simbolizam os entregadores de comida de bicicleta que circulam o tempo todo por ruas lamentavelmente asfaltadas faça sol ou faça chuva. “Vamos continuar insultando Bolsonaro ou vamos às ruas definitivamente?”, pergunta à entusiasmada multidão com suas palavras e seu vigor. “Não temos muita alternativa porque tudo o que conquistamos está sendo destruído”. Insiste que “fora da política não existe saída”.

Mujica, sempre tão austero como venerado nos últimos anos entre a juventude, alertou contra a escravidão do consumismo e proclamou: “Os povos são capazes de compreender os erros, mas não que sejam pisados, que chupem seu sangue”.

Quando Lula acaba a multidão sai. A economista Sandy Lima, de 36 anos, e o bibliotecário Wilson Tebaldi, de 29, estão entusiasmados com um discurso que chamam de “muito motivador”. Ela afirma que Lula é incrível, mas a estratégia atual não a convence, não é a melhor para derrotar a extrema-direita. Pedem a unidade da esquerda. Ele se sente próximo ao PSOL (Partido Socialismo e Liberdade), que considera uma “extensão melhorada do PT, é como um PT jovem”. Dominante na esquerda do Rio de Janeiro, a vereadora assassinada Marielle Franco era uma de seus representantes. Vereadora negra, de favela, mãe e bissexual.