Tribuna
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O cavaleiro do apocalipse

Extraordinárias descobertas resultaram daquelas pestes e pandemias nos diversos campos do conhecimento, sobretudo na medicina e nos sistemas de saúde pública

FERNANDO VICENTE

Durante pouco mais de um ano de confinamento, tenho lido muitos textos sobre o coronavírus, claro, mas nenhum como o de Carmen Iglesias, intitulado Historia de las Pandemias (História das Pandemias, sem tradução). São cerca de 20 páginas sem uma única linha que possa ter sido desperdiçada e que, além de traçar uma síntese muito precisa da maneira como as pestes e as epidemias coletivas acompanham a história da Europa, conseguem tirar conclusões otimistas e civilizadoras sobre esta praga e suas variantes —a britânica, a australiana, a brasileira, a indiana— que, temos a impressão, estão devastando a Europa (e o resto do mundo também).

Iglesias nos lembra de que o poema fundador de Homero, Ilíada, descreve a mortandade que cai como um castigo divino sobre os aqueus e como vingança de Apolo pelo sequestro da filha de um dos sacerdotes. Desde então, a literatura dará testemunho daquelas incompreensíveis devastações que semeavam o horror por todos os cantos do planeta, e que as pessoas, que não entendiam nada do que acontecia ao seu redor, salvo que morriam como moscas, atribuíam aquilo a um castigo dos deuses pelos pecados dos seres humanos. Procuravam-se bodes expiatórios, e certamente entre eles os judeus, as bruxas, os magos, todos os que eram diferentes e constituíam alguma forma de marginalidade. Quantas fogueiras e vítimas a ignorância causou!

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Tucídides é o primeiro historiador a descrever, em sua História da Guerra do Peloponeso, com rigor e sem atribuir responsabilidade alguma aos deuses, a peste que destruiu Atenas no ano 430 antes da era cristã. Desde então, há documentos históricos registrando esses periódicos cataclismos humanos que vão devastando todas as civilizações conhecidas, das mais estáveis e firmes, como o Império Romano em tempos de Marco Aurélio (uma das vítimas da calamidade) e o Império Bizantino, do imperador Constantino, destruído pela peste bubônica, até uma Idade Média arrasada pelo cólera, o tifo, a disenteria, a febre amarela e outros males. E, poderíamos acrescentar, após longos anos, pelos cavaleiros mongóis, que invadem a Europa não apenas com facas em busca de gargantas, mas que carregam em seus alforjes todas as doenças e pandemias asiáticas que semeiam por toda parte as famosas “pestilências” da quais nos falam os romances de cavalaria.

No centro da Europa chega-se a inventar, naqueles anos terríveis, “o cavaleiro apocalíptico” que vai de cidade em cidade, de vilarejo em vilarejo, espalhando as doenças que acabam com as pessoas e mandam suas almas se queimarem no inferno. A geografia das cidades se transforma em função das pandemias, pois os sobreviventes de cada surto se adaptam a essas mudanças e fundam novos vilarejos e cidades, fugindo dos desconhecidos e invisíveis agentes do diabo que, como é o caso da lepra, destroem pouco a pouco o organismo das pessoas infectadas antes de matá-las. A passagem do tempo não admite sossego para os habitantes da Europa; com as pestes, explodem “superstições e disparates”. Mas também aumenta o espírito religioso, e muitas das longas procissões que ainda percorrem as ruas europeias nasceram para combater, com as orações dos fiéis, sacerdotes e pastores, os “castigos do céu” que chegavam à Terra em forma de doenças coletivas.

A mudança de clima às vezes provoca transtornos espetaculares na vida das cidades. Foi o que aconteceu durante os cinco séculos conhecidos como “a pequena Era do Gelo”, tempos em que se chegou a dizer que era impossível compreender as variações entre as altas temperaturas e as geadas vividas pela Europa, e com a fome que estas provocavam, como ocorreu entre 1315 e 1316, quando os países europeus foram literalmente dizimados pelos súbitos transtornos da atmosfera. Morreram tantas famílias quanto nas piores pandemias de que se tem notícia.

E, no entanto, apesar dessa tradição destrutiva, é possível dizer que a humanidade foi aprendendo. E que extraordinárias descobertas resultaram daquelas atrocidades nos diversos campos do conhecimento, sobretudo na medicina e nos sistemas de saúde pública. E que não houve nada como as pandemias periódicas às quais o mundo esteve acostumado (e talvez sempre estará), para criar os modernos hospitais e enfermarias, e fazer avançar as descobertas da ciência. A covid-19 teria produzido provavelmente cem vezes mais vítimas em todo o planeta se tivesse ocorrido antes ou ao mesmo tempo que a arbitrariamente chamada “gripe espanhola”, considerada responsável por matar mais gente que em toda a Primeira Guerra Mundial. A medicina progrediu de forma prodigiosa graças à peste, o que não impede que esta continue desafiando o saber científico, como se revelou na última pandemia. Quando acreditávamos que aquilo seria impossível nestes tempos, em que nós viajamos à Lua e vários países invadem as estrelas com suas naves espaciais, porque a natureza já não parecia ter segredos para nossos pesquisadores. Tivemos então a surpresa maiúscula, por causa, aparentemente, de um homem que numa cidade chinesa comeu ou fornicou com um morcego, criando um vírus que deixou dezenas de milhares de mortos espalhados pelo mundo inteiro.

Uma das partes mais interessantes do trabalho de Carmen Iglesias se refere à peste como incitadora dos prazeres, que ela chama o Carpe diem (Aproveite o dia). A proximidade da morte e a atração do perigo despertam apetites sexuais em certos seres humanos, uma excitação dos sentidos e uma busca irracional do prazer que transforma os palácios e castelos em bordéis de luxo, onde praticam-se todos os vícios e se morre do excesso antes que da doença. Tucídides já considerava esse fenômeno durante a epidemia que devastou Atenas no quarto século da era passada. A literatura tem sido especialmente rica ao apresentar esse aspecto mortuário e cerimonial dos prazeres em tempos descentrados pela revolução e pelas pragas, como ocorre na narrativa chamada “gótica” e nos pesadelos novelescos do Marquês de Sade.

Em seu ensaio, Carmen Iglesias cita com elogios o livro ¡Aplaca, Señor, tu ira! Lo maravilloso y lo imaginario en Lima colonial (Acalma, Senhor, sua ira! O maravilhoso e o imaginário na Lima colonial, sem tradução), do historiador peruano Fernando Iwasaki, no que diz respeito à chamada Morte Negra, o inapelável fim do mundo, que era considerado iminente e espalhava o terror e a loucura em amplos territórios, como nas distantes colônias espanholas da América. O misterioso desaparecimento de culturas e civilizações, como a dos maias na América Central e a dos mochicas no Peru, sem dúvida tem relação com esse fenômeno.

Embora relativamente pequeno, o trabalho deve ter tomado um bom tempo de Carmen Iglesias, com a revisão de velhos livros e inúmeros documentos. Ela é uma trabalhadora discreta e pertinaz que costuma produzir esplêndidos ensaios. Lendo-a, aprendi muito sobre a Espanha. Iglesias dirige a Real Academia de História e integra Real Academia Espanha. E muitos nos perguntamos como consegue ter tempo para fazer tudo o que se lhe impõe. Ela foi também professora de temas de história do atual rei da Espanha, Felipe VI. E não há dúvida, ouvindo seus discursos, de que ele aproveitou muito bem seus ensinamentos.

Madri, abril de 2021

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