Pandemia de coronavírus
Tribuna
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Estratégia de vacinação atual não se adequa ao contexto da Amazônia profunda

Não é possível uma equipe de saúde vacinar uma faixa etária de uma comunidade e retornar no dia ou na semana seguinte para vacinar uma outra faixa etária e repetir isso diversas vezes até concluir a vacinação. O custo é proibitivo e isso tem dificultado o avanço da vacinação nessas áreas.

Maria Castro de Lima, 72, recebe uma dose da vacina contra a covid-19 em sua casa no município de Labrea, no interior do Amazonas.
Maria Castro de Lima, 72, recebe uma dose da vacina contra a covid-19 em sua casa no município de Labrea, no interior do Amazonas.Edmar Barros (AP)
Virgilio Viana

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A vacinação representa a principal esperança para o enfrentamento da pandemia da covid-19 em todo o mundo. Para o contexto da Amazônia profunda, é necessário que seja feito um aprimoramento urgente da atual estratégia de vacinação das populações tradicionais e povos indígenas.

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A região Norte do Brasil tem tido as maiores taxas de mortalidade do país: dos cinco estados com as taxas mais elevadas, quatro estão na região norte. Enquanto a taxa de óbitos no mundo é de cerca de 36 pessoas por cada 100 mil habitantes e o Brasil teve uma a média brasileira é de 158, o Amazonas registrou 291 óbitos por 100 mil até o início de abril. Essa triste realidade fez com que lamentavelmente o Amazonas tenha se tornado objeto de destaque nacional e internacional. Se, por um lado, a situação de Manaus ficou muito visível pela cobertura da imprensa, ainda permanece muito pouco conhecida a realidade do interior da região, especialmente a Amazônia profunda. É essa realidade que merece especial atenção nesse momento em que damos os primeiros passos na campanha de vacinação.

A situação da Amazônia profunda é particularmente crítica. Uma das principais características dessas áreas é a grande distância em relação às sedes municipais. Isso cria um desafio de logística e um custo adicional para o SUS, especialmente para as secretarias municipais de saúde. Diante disso, a estratégia de vacinação que está sendo usada nas áreas urbanas não se adequa ao contexto da Amazônia profunda. Não é possível uma equipe de saúde vacinar uma faixa etária de uma comunidade e retornar no dia ou na semana seguinte para vacinar uma outra faixa etária e repetir isso diversas vezes até concluir a vacinação. O custo é proibitivo e isso tem dificultado o avanço da vacinação nessas áreas.

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A busca de soluções para esse desafio tem sido objeto da Aliança Covid Amazônia, que reúne 122 instituições de diferentes segmentos: organizações da sociedade civil, instituições de pesquisa e ensino, prefeituras municipais, órgãos dos governos estadual e federal, instituições internacionais e empresas privada, além de mais de 400 doadores individuais. O Programa SUS na Floresta, que é parte do trabalho da Aliança, tem o objetivo de contribuir para o aprimoramento de políticas públicas na área de saúde na Amazônia profunda. Esse Programa conta com um Comitê Orientador, composto por profissionais de saúde e pesquisadores, com a função de oferecer as bases técnicas e científicas para o seu desenvolvimento. O Comitê Orientador formulou uma série de recomendações ao Programa Nacional de Imunização, listadas a seguir:

1. Priorizar a imunização de populações por território e não por faixa etária ―vacinando 100% pessoas das comunidades ribeirinhas, assim como vem sendo feito com as aldeias indígenas.

2.   Incluir o atendimento de outras necessidades de imunização nessas localidades, como: sarampo, febre amarela e demais; e aproveitar a logística da vacinação contra a covid-19 para outras ações de saúde, contribuindo para o aumento da eficiência e eficácia do SUS;

3.  Fazer um esforço urgente em busca de aquisição e/ou doação de vacinas de dose única: isso aumentaria a eficiência da vacinação;

4.   Priorizar a vacinação de indígenas não aldeados nas áreas urbanas como parte dos grupos prioritários, uma vez que esses recepcionam seus parentes quando em visitas às áreas urbanas e atualmente não atendidos pela Secretaria Especial de Saúde Indígena (SESAI);

5.    Iniciar a vacinação pelas comunidades e aldeias mais distantes, como forma de recompensar as injustiças históricas que sofrem essas populações.

Essas recomendações foram encaminhadas ao ministro da Saúde, Marcelo Queiroga; ao Presidente do Consórcio dos Governadores da Amazônia, Governador Flavio Dino; e ao Governador do Amazonas, Wilson Lima; além de outras autoridades governamentais. A Aliança Covid Amazônia está também fazendo uma mobilização junto aos doadores nacionais e internacionais com o objetivo de obter doações de vacinas e apoio logístico para a vacinação na Amazônia profunda.

Temos uma oportunidade de resgatar uma dívida histórica com os guardiões da floresta. São os povos indígenas e as populações tradicionais da Amazônia profunda os principais responsáveis pela defesa da floresta. Os movimentos sociais, encabeçados por líderes como Chico Mendes, tiveram um papel essencial para conter o avanço do desmatamento. Entretanto, historicamente, essas populações foram relegadas sempre ao último plano pelas políticas públicas. Agora é o momento de compensar parte dessa dívida por meio de uma ação humanitária.

Considerando os fatores de logística, vulnerabilidade e histórico de injustiças com relação aos povos indígenas e comunidades ribeirinhas da Amazônia profunda, é essencial e urgente aprimorar o Programa Nacional de Imunização. Esperamos que estas recomendações sirvam para aumentar a velocidade, eficiência e eficácia da vacinação nesses territórios e, com isso, atenuar os impactos da pandemia sobre a saúde dos guardiões da floresta.

Virgilio Viana é superintendente da Fundação Amazônia Sustentável

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