Pandemia de coronavírus
Coluna
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A dança macabra de Bolsonaro, ‘me vacino, não me vacino’, ofende a memória dos mortos

A este ponto o falso herói que desafia a morte na pandemia e continua a brincar sobre imunizar-se ou não, como se não estivéssemos lutando contra a morte, é uma responsabilidade das instituições e do Exército que continuam tolerando seus delírios violentos

Presidente Jair Bolsonaro retira a máscara em pronunciamento no Palácio do Planalto no última dia 31.
Presidente Jair Bolsonaro retira a máscara em pronunciamento no Palácio do Planalto no última dia 31.UESLEI MARCELINO (Reuters)

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A atitude negacionista de Bolsonaro sobre a pandemia e a vacina é mais do que conhecida. E agora se tornou mais aguda com seu comportamento burlesco sobre se vai ou não tomar a vacina. Se não fosse dramático, poderia ser uma ópera-bufa.

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Depois de zombar da vacina, dizendo que os homens se transformariam em jacarés e nas mulheres cresceriam barbas, ele afirmou enfaticamente: “Eu não vou tomar vacina e ponto final, problema meu”. Agora, não se sabe se por medo ou pressão de seus assessores correu a notícia de que o presidente enfim decidiu tomar a vacina.

O acontecimento deveria ter sido no último sábado da Paixão. De repente, o ministro da Saúde desmentiu a notícia e o presidente não se vacinou. Os fotógrafos ficaram sem a foto histórica.

Bolsonaro, com seu costume de mentir e desmentir-se, afirmou que se lhe disserem que tem que se vacinar, então, o fará quando toda a população já tiver feito isso, e se sobrar uma dose.

É uma piada, pois todos os chefes de Estado do mundo, de direita ou de esquerda, foram os primeiros a ser vacinados e em público.

Todas as atitudes de Bolsonaro sobre se deve ou não ser vacinado refletem sua idiossincrasia como político em quem é impossível confiar porque, além de mentir descaradamente, gosta de confundir a sociedade. Que confiança proporciona o presidente à nação no trágico momento que está passando, com a maior crise de saúde de sua história e quase sem mais lugar físico para enterrar os mortos?

Essa diversão de ser vacinado ou não se repete em suas ameaças de dar um golpe militar ou não. Os acontecimentos dos últimos dias em seu confronto com as forças do Exército, que deixaram o país em suspense, são mais um claro sinal de seus transtornos psíquicos e de seu gosto por ameaçar com uma guerra civil.

Ao que parece, o presidente, para desmentir que seja um militar frustrado que pretende se ressarcir da humilhação de ter sido expulso do Exército quando jovem, hoje infantilmente finge considerar as Forças Armadas como “meu Exército”.

É uma chacota que as Forças Armadas não deveriam permitir, nem que seja para não decepcionar a sociedade que desde a redemocratização tem considerado as forças militares sérias e confiáveis na defesa da democracia e das instituições do Estado.

Se a princípio os militares confiaram no capitão aposentado para lutar contra o perigo imaginário de um comunismo que não existe no Brasil, hoje esse cenário não existe e o perigo real contra a democracia é justamente o capitão complexado e complacente com a morte da qual chega a zombar.

Assim como Bolsonaro primeiro zombou da pandemia e, agora, da vacina, ele tenta hoje impor um estado de exceção para fugir de suas responsabilidades e alimentar suas hostes golpistas que diminuem a cada dia.

A este ponto o falso herói que desafia a morte na pandemia e continua a brincar sobre vacinar-se ou não, como se não estivéssemos lutando contra a morte, é uma responsabilidade das instituições e do Exército que continuam tolerando seus delírios violentos.

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Amanhã a sociedade poderá se revoltar contra essas instituições que consentiram impunemente que o país continuasse nas mãos de quem zomba da dor alheia e sente repulsa pelos valores da liberdade, enquanto continua a cultivar seus sonhos de arrastar o país para aventuras autoritárias, repetindo como um mantra ‘quem manda sou eu’.

Não é verdade. Ele manda em conjunto com as demais instituições responsáveis por defender a Constituição e garantir a ordem e a prosperidade no país.

O teste importante será a reeleição de 2022, isso se antes não forem capazes de destituir o presidente por seus crimes e suas contínuas ameaças à ordem estabelecida.

Os militares vão continuar no Governo até as eleições, depois de terem constatado os delírios do capitão que se sente dono e senhor das forças da ordem, chegando mesmo a humilhá-las?

Essas forças armadas vão voltar a apoiá-lo nas próximas eleições ou vão optar por uma solução realmente democrática? Ou será que os militares não conseguem entender o que representaria para a sociedade e para eles próprios um segundo mandato desse que já deu sinais inequívocos de que despreza as instituições e pode conduzir o país a um caos sem volta?

Se as instituições do Estado e as próprias Forças Armadas continuarem pensando apenas em seus privilégios pessoais e em suas vantagens corporativas enquanto a pobreza, a fome e o desemprego aumentam, o Brasil corre o risco de se tornar parte dos países párias do mundo, quando já foi considerado um exemplo de potência mundial e de desenvolvimento econômico e social.

Há erros históricos que não têm volta. O Brasil ainda está a tempo de embarcar em um novo período de desenvolvimento e prosperidade, mas com a condição de que o capitão saia do poder quanto antes e deixe de se considerar o dono absoluto do país, como os antigos imperadores.

Tudo ainda pode mudar quando quem guia a nação deixa de desprezar os valores civilizadores capazes de criar uma sociedade unida em uma nova esperança, sem guerras fratricidas e sem pisotear os valores em que se fundamenta a verdadeira convivência mundial.

O Brasil ainda tem tempo de voltar do inferno em que o mergulhou um presidente insignificante que só sonha com armas e confrontos políticos e sociais.

Esperança não é um verbo conjugável. É um substantivo que pode ressuscitar a qualquer momento, como o sol no meio de uma tempestade.

Juan Arias é jornalista e escritor, com obras traduzidas em mais de 15 idiomas. É autor de livros como Madalena, Jesus esse Grande Desconhecido, José Saramago: o Amor Possível, entre muitos outros. Trabalha no EL PAÍS desde 1976. Foi correspondente deste jornal no Vaticano e na Itália por quase duas décadas e, desde 1999, vive e escreve no Brasil. É colunista do EL PAÍS no Brasil desde 2013, quando a edição brasileira foi lançada, onde escreve semanalmente.

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