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De milico para milico: a pororoca social é o grande alerta

Está punk e não é Natal para Charles Dickens, o negacionismo de Bolsonaro faz o pior fim de ano da história

Uma mulher sem máscara, no centro de São Paulo, tira uma selfie atrás de uma faixa que diz: "A Covid-19 mata. A Pandemia não acabou".
Uma mulher sem máscara, no centro de São Paulo, tira uma selfie atrás de uma faixa que diz: "A Covid-19 mata. A Pandemia não acabou".Sebastiao Moreira / EFE

Talvez falando em linguagem de milico, o capitão paraquedista entenda: o Brasil, com o final da ajuda financeira para os socialmente mais lascados, está à beira de uma “pororoca social”. A pororoca é aquela onda gigante e ingovernável na foz do rio Amazonas. Um estrondo. A profecia foi feita no finalzinho da ditadura militar, em 1985, por um general mais grosso que papel de embrulhar prego, sim, ele mesmo, o ex-presidente João Baptista Figueiredo, o delicado senhor que daria “um tiro no coco” se vivesse com o salário mínimo –palavras do próprio.

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Prefiro cheiro de cavalo ao cheiro do povo. Essa frase também é do mesmo João Baptista. O bicho que amava os equinos era mais bruto que coice de mula chucra. A matriz semântica bolsonarista vem muito daí, embora caiba uma rápida diferença: o derradeiro presidente-ditador era mais sensível à ciência e aos estudos, não galoparia no mangalarga do negacionismo até a beirada da terra plana.

Falo de chegada do estrondo. E na trilha sonora Nação Zumbi com o “Meu maracatu pesa uma tonelada”, o jazz das tripas que roncam no Terceiro Mundo ao qual fomos devolvidos. Subdesenvolvimento como trevas religiosas e milicianas.

Está punk e não é Natal para Charles Dickens, embora eu siga amando aquele conto clássico que ele escreveu às pressas (Christmas Carol) para descolar uma grana e pagar as dívidas na lascada Inglaterra de 1843. Bote punk nisso. A classe trabalhadora de Manchester e Liverpool, pra citar apenas cidades com a cara do futebol moderno de 2020, estavam chorando lágrimas de fuligem.

Uma passagem pelo centrão de São Paulo de hoje, com os velhos baianos e os novos paulistanos escondidos sob os cobertores cinzas do desespero, é de assombrar até os mais insensíveis tucanos que governam este Estado há quase 30 anos. A pororoca chegou à praça da República faz tempo, daí rumo à estação Marechal Deodoro, para citar dois pontos pesados da metrópole mais rica do país.

Está punk e a pandemia só encolheu o cobertor. Está punk e mr. Scrooge, avarento social tipo Paulo Guedes no conto de Dickens, infelizmente não receberá a visita dos fantasmas que poderiam mudar seu modo de vida. Tudo segue voltado aos tios Patinhas —inocente personagem inspirado em Scrooge—da Faria Lima e adjacências.

Reparo nos refugiados urbanos e lembro que, desculpa aí conservadores em geral, pelo menos defendi uma outra ideia de São Paulo, votei no Boulos e Erundina, seguramente mais preocupados com a desgraceira que ronda a cidade, noite e dia, dia e noite.  Perdão, conservadores, miséria não se conserva, sob pena de baterem na porta pra te aperrear, pra te aperrear, como na aldeia Aldeota do cantor e compositor cearense Ednardo.

A pororoca social já está aí, Bolsonaro, mordendo a tua canela como aquela ema do Alvorada. Talvez tu te lembres da fala do colega de farda e incontinência verbal permanente. Do general Figueiredo para o capitão da vez, não esqueças o telegrama espírita.

O economista Muhammad Yunus (Nobel da Paz, 2006), lá de  Bangladesh, e o médico e escritor pernambucano Josué de Castro, autor de “Geografia da Fome”, deixam um “sample”, salve, no final dessa crônica, os dois falaram quase a mesma frase, aqui resumida como se fosse uma filosofia de para-choque: metade da humanidade não come; e a outra metade não dorme com medo dos que têm fome.

Opa, para tudo, outro cidadão do mundo, chega mais camarada Amartya Sen (Nobel de Economia 1998), não poderia ser esquecido nesse mesmo eco, repeteco, que os barões da ganância tendem a não ouvir, mesmo que Eduardo Suplicy, vereador do PT na cidade de São Paulo, reverbere ideias semelhantes há pelos menos quatro décadas.

Sobe o som, Nação Zumbi: Agora biônico, e eletrosom-sônico/ Alterando as batidas/ No azougue pesado/ Em ritmo crônico/ Tropa de todos os baques existentes/ De longe tremendo e rachando os batentes/ Mutante até lá adiante/ Pois a zoada se escuta distante/ Levando o baque do trovãoSempre certo na contramão.”

Xico Sá, jornalista e escritor, comanda o podcast “No balcão” (plataforma Orelo), é autor de “Big Jato” (Companhia das Letras), entre outros livros.

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