Estados Unidos
Opinião
Texto em que o autor defende ideias e chega a conclusões basadas na sua interpretação dos fatos e dados ao seu dispor

A mentira racista tem consequências

Como a história do fascismo demonstra, questionar as mentiras racistas e a violência política é de suma importância para a sobrevivência da democracia.

Donald Trump, com um exemplar do 'The New York Post' enquanto fala com os jornalistas sobre a nova ordem que afeta as redes sociais, na quinta-feira, na Casa Branca.
Donald Trump, com um exemplar do 'The New York Post' enquanto fala com os jornalistas sobre a nova ordem que afeta as redes sociais, na quinta-feira, na Casa Branca.Jonathan Ernst (Reuters)

“Quando começam os saques, começam os tiros. Obrigado”. O Twitter assinalou que esse tuíte “glorifica a violência”. O autor de uma mensagem tão totalitária não era um fascista qualquer, mas ninguém menos que o presidente norte-americano, Donald Trump.

Mais informações
Una mujer increpa a un oficial de policía durante las protestas en Minneapolis (Estados Unidos).
Protestos contra morte de homem negro nas mãos de policial branco se espalham pelos Estados Unidos
Trump assina ordem para limitar imunidade das redes sociais pelos comentários de seus usuários
Minneapolis declara estado de emergência por protestos contra o racismo policial

Nada disso é novo em se tratando de Trump, mas marca uma diferença em relação ao Twitter, que dias antes havia apontado que um tuíte presidencial dizia mentiras. Não é novidade que Trump, um populista de extrema direita, minta ou ameace manifestantes que protestam em diferentes partes dos Estados Unidos contra a execução policial de um negro indefeso, já que o presidente se dedica a elogiar ou promover ações racistas e repressivas de vários grupos terroristas de direita e neonazistas. No dia anterior, o caudilho da Casa Branca reproduziu no Twitter uma mensagem de um seguidor, “um cowboy de Trump”, que dizia que “o único democrata bom é um democrata morto”.

Jornalistas presos ao vivo, assassinatos de minorias pela polícia e o aumento da miséria e do racismo no contexto de uma crise global. Os Estados Unidos estão se tornando a Alemanha da República de Weimar? Os paralelos com o tempo em que a democracia alemã foi destruída por dentro pelo fascismo são reais, mas não podem nos confundir. A democracia dos EUA ainda pode se defender desses ataques.

A ofensiva de Trump contra as redes sociais se soma aos ataques recorrentes à imprensa independente, que o caudilho define como “inimigos do povo”, que são moeda corrente, mas é claro que estamos vendo uma aproximação do populismo de Trump do universo mental do fascismo.

Como é possível que a Casa Branca promova e provoque atos de racismo tão próximos da modalidade dos fascistas? Do ponto de vista histórico, podemos ver que estamos diante de um novo capítulo na história do fascismo e do populismo, duas ideologias políticas diferentes que agora compartilham um objetivo: promover o racismo sem evitar a violência política. Ao contrário do fascismo, em sua história o populismo (de Juan Domingo Perón a Hugo Chávez e Silvio Berlusconi) foi uma concepção autoritária da democracia que, a partir de 1945, reformulou o legado do fascismo para recombiná-lo com diferentes procedimentos democráticos. Após a derrota do fascismo, o populismo emergiu como uma forma de pós-fascismo que reformula o fascismo em função de uma era democrática. Em outras palavras: populismo é fascismo adaptado à democracia. Historicamente, o populismo rejeitou a centralidade do racismo e da violência na política, mas os novos populistas novamente tornam a fazer da violência e da discriminação um eixo central de seu modo de agir.

Nesse contexto, não é surpreendente que nos Estados Unidos pessoas ideologicamente alinhadas com Trump possam se envolver em atos de violência política e atos racistas. Essas formas de violência política ocorrem fora da esfera do Governo e do líder norte-americano. Mas Trump é responsável moral e eticamente por promover um clima de violência racista e de ataques à mídia, em particular por meio das redes sociais.

O resultado é um clima de violência fomentado em nome de mentiras racistas disfarçadas de verdades. A história nos ensina até que ponto as mentiras fascistas e racistas tiveram consequências horrendas. Sabemos o que aconteceu quando a mentira fascista se tornou realidade. Se o fascismo alemão triunfou, não foi apenas pelas pessoas que apoiaram as políticas racistas de Hitler, mas também pelas pessoas que simplesmente não se importaram com o fato de o racismo ser um elemento característico do nacional-socialismo. A principal diferença entre aquele momento e este é a considerável condenação que as mentiras racistas do presidente recebem e o impacto que elas têm em amplos setores da sociedade norte-americana que resistem a elas.

Ao contrário da época ditatorial de Hitler e Mussolini, quando a liberdade de imprensa foi eliminada, hoje a imprensa independente continua trabalhando nos Estados Unidos. Sua tarefa é essencial para a democracia. Acusar a mídia de mentir, de ser pouco confiável, pressupõe a ideia de que a única fonte de verdade é o líder. Numa época em que o presidente norte-americano demoniza os jornalistas e as minorias, a imprensa independente continua informando sobre as mentiras e o racismo, e dando força aos fatos. A essa defesa da democracia se soma agora o Twitter e isso incomoda Trump, e muito, como também a seus acólitos pós-fascistas do Vox na Espanha e sequazes muito próximos do totalitário presidente do Brasil, Jair Messias Bolsonaro, o Trump dos Trópicos que quer destruir a democracia em seu país.

Como a história do fascismo demonstra, pôr em questão as mentiras racistas e a violência política é de suma importância para a sobrevivência da democracia. Tanto nos Estados Unidos como na Espanha e no Brasil, as mentiras racistas e a glorificação da violência constituem ataques sérios contra a democracia. O que fazem é minar a confiança nas instituições democráticas, tal como fizeram os fascistas. Hoje sabemos que é preciso defender a democracia de modo bem ativo porque as instituições e tradições democráticas não são tão fortes como muitos acreditam. As mentiras, a glorificação da violência e do racismo, com efeito, podem destruir a democracia.

Federico Finchelstein é catedrático de História na New School of Social Research, em Nova York. Este artigo foi preparado pela Agenda Pública para o EL PAÍS.

Faça seu login para seguir lendo

Saiba que já pode ler este artigo, é grátis

Obrigado por ler o EL PAÍS

Mais informações

Arquivado Em

Recomendaciones EL PAÍS
Recomendaciones EL PAÍS