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A mentira racista tem consequências

Como a história do fascismo demonstra, questionar as mentiras racistas e a violência política é de suma importância para a sobrevivência da democracia.

Federico Finchestein
Donald Trump, com um exemplar do 'The New York Post' enquanto fala com os jornalistas sobre a nova ordem que afeta as redes sociais, na quinta-feira, na Casa Branca.
Donald Trump, com um exemplar do 'The New York Post' enquanto fala com os jornalistas sobre a nova ordem que afeta as redes sociais, na quinta-feira, na Casa Branca.Jonathan Ernst / Reuters

“Quando começam os saques, começam os tiros. Obrigado”. O Twitter assinalou que esse tuíte “glorifica a violência”. O autor de uma mensagem tão totalitária não era um fascista qualquer, mas ninguém menos que o presidente norte-americano, Donald Trump.

Nada disso é novo em se tratando de Trump, mas marca uma diferença em relação ao Twitter, que dias antes havia apontado que um tuíte presidencial dizia mentiras. Não é novidade que Trump, um populista de extrema direita, minta ou ameace manifestantes que protestam em diferentes partes dos Estados Unidos contra a execução policial de um negro indefeso, já que o presidente se dedica a elogiar ou promover ações racistas e repressivas de vários grupos terroristas de direita e neonazistas. No dia anterior, o caudilho da Casa Branca reproduziu no Twitter uma mensagem de um seguidor, “um cowboy de Trump”, que dizia que “o único democrata bom é um democrata morto”.

Jornalistas presos ao vivo, assassinatos de minorias pela polícia e o aumento da miséria e do racismo no contexto de uma crise global. Os Estados Unidos estão se tornando a Alemanha da República de Weimar? Os paralelos com o tempo em que a democracia alemã foi destruída por dentro pelo fascismo são reais, mas não podem nos confundir. A democracia dos EUA ainda pode se defender desses ataques.

A ofensiva de Trump contra as redes sociais se soma aos ataques recorrentes à imprensa independente, que o caudilho define como “inimigos do povo”, que são moeda corrente, mas é claro que estamos vendo uma aproximação do populismo de Trump do universo mental do fascismo.

Como é possível que a Casa Branca promova e provoque atos de racismo tão próximos da modalidade dos fascistas? Do ponto de vista histórico, podemos ver que estamos diante de um novo capítulo na história do fascismo e do populismo, duas ideologias políticas diferentes que agora compartilham um objetivo: promover o racismo sem evitar a violência política. Ao contrário do fascismo, em sua história o populismo (de Juan Domingo Perón a Hugo Chávez e Silvio Berlusconi) foi uma concepção autoritária da democracia que, a partir de 1945, reformulou o legado do fascismo para recombiná-lo com diferentes procedimentos democráticos. Após a derrota do fascismo, o populismo emergiu como uma forma de pós-fascismo que reformula o fascismo em função de uma era democrática. Em outras palavras: populismo é fascismo adaptado à democracia. Historicamente, o populismo rejeitou a centralidade do racismo e da violência na política, mas os novos populistas novamente tornam a fazer da violência e da discriminação um eixo central de seu modo de agir.

Nesse contexto, não é surpreendente que nos Estados Unidos pessoas ideologicamente alinhadas com Trump possam se envolver em atos de violência política e atos racistas. Essas formas de violência política ocorrem fora da esfera do Governo e do líder norte-americano. Mas Trump é responsável moral e eticamente por promover um clima de violência racista e de ataques à mídia, em particular por meio das redes sociais.

O resultado é um clima de violência fomentado em nome de mentiras racistas disfarçadas de verdades. A história nos ensina até que ponto as mentiras fascistas e racistas tiveram consequências horrendas. Sabemos o que aconteceu quando a mentira fascista se tornou realidade. Se o fascismo alemão triunfou, não foi apenas pelas pessoas que apoiaram as políticas racistas de Hitler, mas também pelas pessoas que simplesmente não se importaram com o fato de o racismo ser um elemento característico do nacional-socialismo. A principal diferença entre aquele momento e este é a considerável condenação que as mentiras racistas do presidente recebem e o impacto que elas têm em amplos setores da sociedade norte-americana que resistem a elas.

Ao contrário da época ditatorial de Hitler e Mussolini, quando a liberdade de imprensa foi eliminada, hoje a imprensa independente continua trabalhando nos Estados Unidos. Sua tarefa é essencial para a democracia. Acusar a mídia de mentir, de ser pouco confiável, pressupõe a ideia de que a única fonte de verdade é o líder. Numa época em que o presidente norte-americano demoniza os jornalistas e as minorias, a imprensa independente continua informando sobre as mentiras e o racismo, e dando força aos fatos. A essa defesa da democracia se soma agora o Twitter e isso incomoda Trump, e muito, como também a seus acólitos pós-fascistas do Vox na Espanha e sequazes muito próximos do totalitário presidente do Brasil, Jair Messias Bolsonaro, o Trump dos Trópicos que quer destruir a democracia em seu país.

Como a história do fascismo demonstra, pôr em questão as mentiras racistas e a violência política é de suma importância para a sobrevivência da democracia. Tanto nos Estados Unidos como na Espanha e no Brasil, as mentiras racistas e a glorificação da violência constituem ataques sérios contra a democracia. O que fazem é minar a confiança nas instituições democráticas, tal como fizeram os fascistas. Hoje sabemos que é preciso defender a democracia de modo bem ativo porque as instituições e tradições democráticas não são tão fortes como muitos acreditam. As mentiras, a glorificação da violência e do racismo, com efeito, podem destruir a democracia.

Federico Finchelstein é catedrático de História na New School of Social Research, em Nova York. Este artigo foi preparado pela Agenda Pública para o EL PAÍS.

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