Análise
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Os dados que mostram como o Brasil monopolizou o debate sobre a eleição no Uruguai no Facebook

A figura de Mujica persiste como forte influenciadora de discussões, mas foram perfis da direita brasileira que surfaram no tema, usando até o atacante uruguaio do Flamengo

Sob a intensificação do contexto polarizado da política na América Latina, após os protestos no Chile (e agora na Colômbia), as eleições na Argentina e a reviravolta institucional na Bolívia, foi no Brasil que houve maior reverberação da vitória de Luis Lacalle Pou sobre Daniel Martínez na apertada disputa presidencial do Uruguai. Em especial, no Facebook, em que mais de 40 mil links foram compartilhados sobre o pleito e, dentre os de maior volume de interações, mais de 80% foram de sites e portais brasileiros.

No total, entre 24 de outubro e 28 de novembro, houve 3 milhões de menções no Twitter às eleições uruguaias — 2,8 milhões em espanhol, 217 mil em português —, e no Facebook os 300 links que obtiveram maior engajamento somaram 5,5 milhões de interações (soma de reações, comentários e compartilhamentos). Do Uruguai vieram 66% dos tuítes em espanhol (1,8 milhão de menções), também com relevante volume de referências provenientes do Chile (10%, 180 mil), da Argentina (6%, 168 mil) e da Venezuela (3%, 82 mil).

São 3 os picos principais de repercussão em espanhol: o primeiro, na noite de 27 de outubro, durante a primeira rodada de votação, obteve nível máximo de debate de 360 tuítes/minuto. O segundo, entre 13 e 14 de novembro, durante debate televisivo entre Martínez e Lacalle Pou, gerou máxima de 444 tuítes/minuto. O último pico, o mais representativo, foi na noite de domingo (24), quando da divulgação do resultado estreito entre os dois adversários, com pico de mil tuítes/minuto. O anúncio definitivo da vitória de Lacalle Pou, com o reconhecimento de Martínez, ocorreu apenas nesta quinta-feira (28).

No Brasil, o principal foco de repercussão foi o impacto da vitória de Lacalle Pou, de centro-direita, para os alinhamentos políticos do governo brasileiro na região — e muito por conta da derrota da coalizão de esquerda que governa o país há 15 anos. Também a partir desse contexto, muitos links de forte engajamento no Facebook abordam a vitória do ex-presidente de esquerda Pepe Mujica na disputa pelo Senado; o link mais compartilhado internacionalmente sobre as eleições uruguaias na plataforma é de um site brasileiro alinhado à esquerda e que repercute o êxito de Mujica, somando 181 mil interações.

Para além dos artigos brasileiros sobre as eleições, dentre os links mais populares no Facebook há postagens de portais da Espanha, da Argentina e do Chile, enquanto o link uruguaio com maior repercussão faz outra abordagem temática: de 23 de novembro, destaca o fato de que militantes do Partido Nacional (de Lacalle Pou) e da Frente Ampla (do adversário Daniel Martínez) cantaram juntos o hino nacional do país — e somou 70,8 mil interações na rede social.

Já no Twitter, vale-se ressaltar que a hashtag pró-Lacalle Pou #sevan, em referência à saída da esquerda do governo, aparece em 5% das menções em espanhol (140 mil recorrências), e que a capital Montevidéu concentrou percentual bastante alto dos tuítes, respondendo por 44% do debate em espanhol (1,2 milhão de menções). Em Buenos Aires, Santiago e Caracas, também houve dezenas de milhares de publicações sobre as eleições uruguaias.

Também no Twitter a figura de Mujica persiste como forte influenciadora de discussões. A postagem de maior volume de retuítes sobre o contexto eleitoral do Uruguai no período, com mais de 24 mil compartilhamentos, pouco se associa diretamente ao pleito: é da conta oficial do ex-presidente boliviano Evo Morales, agradecendo a Mujica pelo apoio quando da renúncia de Morales como presidente. Outras contas de políticos e influenciadores da esquerda uruguaia predominam entre as mais influentes da discussão na rede, mas o perfil de Lacalle Pou obteve engajamento bem superior ao de Martínez na discussão.

No Brasil, direita é mais influente — até o Flamengo tem impacto no debate

Especificamente no Brasil, porém, perfis da direita e alinhados ao governo federal exerceram maior influência no debate associado ao Uruguai, dentre os quais o presidente Jair Bolsonaro, a deputada federal Carla Zambelli e o influenciador Leandro Ruschel estão entre os principais. O presidente brasileiro foi citado nominalmente em 16% das postagens a respeito das eleições no Uruguai em português; o ex-presidente Lula, em 5%.

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Curiosamente, também houve no Twitter notável associação entre o contexto uruguaio e o futebol brasileiro, em função do sucesso recente do Flamengo: um dos principais jogadores do clube é o uruguaio Giorgian de Arrascaeta, e perfis da direita, ao comemorar o resultado de Lacalle Pou, fizeram alusão à idolatria por Arrascaeta (que apareceu em 6% das postagens no Brasil sobre a política uruguaia).

Os dados da movimentação na Internet

  • Links de portais brasileiros são os de maior repercussão no Facebook sobre a disputa no Uruguai — que acumulou mais de 5,5 milhões de interações na rede social. Principal artigo destaca vitória do ex-presidente José Mujica ao Senado do país;
  • Brasil somou 217 mil postagens no Twitter sobre as eleições em português; em espanhol, houve 2,8 milhões de referências no mundo inteiro; Uruguai reuniu 66% dos tuítes; Chile, 10%; e Argentina, 6%;
  • No Twitter do Uruguai, perfis de esquerda exerceram maior influência que os de direita, embora o candidato eleito Lacalle Pou tenha obtido impacto bem superior ao do adversário, Daniel Martínez, na plataforma;
  • No Twitter brasileiro, base de direita pró-governo foi bem mais atuante, e menções ao jogador uruguaio Arrascaeta, do Flamengo, responderam por 6% das menções no país;

Sobre a metodologia: A análise desenvolvida pela FGV DAPP emprega uma metodologia linguística de identificação de temas, atores, e instituições, a partir de dados de Twitter, Facebook, YouTube, WhatsApp e Instagram, para o monitoramento do debate público no ambiente digital. A pesquisa utiliza fontes primárias (APIs) e secundárias para obtenção de dados das plataformas, sempre respeitando a política de acesso a dados de cada uma e a privacidade dos usuários. Para mais informações, acesse o caderno metodológico de referência da FGV DAPP.

​Lucas Calil é mestre e doutor em Linguística pela Universidade Federal Fluminense, pesquisador de redes sociais e Coordenador de Linguística da Diretoria de Análise de Políticas Públicas da FGV.