Papa Francisco aposta moderadamente nas mulheres

O Pontífice nomeou uma dezena de colaboradoras para cargos importantes, mas elas continuam longe do topo do poder no Vaticano

O papa Francisco saúda um grupo de freiras em audiência no Vaticano, em 15 de janeiro passado.
O papa Francisco saúda um grupo de freiras em audiência no Vaticano, em 15 de janeiro passado.franco origlia

A arquitetura interior do Vaticano fornece algumas pistas sobre seus costumes e sua organização política. Muitos departamentos da Cúria, como a poderosa Secretaria de Estado, quase não tinham banheiros femininos até há relativamente pouco tempo. A situação se transformou nos últimos anos. Mas as funcionárias de algumas áreas ainda precisam percorrer vários corredores para encontrar algum toalete que tenha sido improvisado ou construído com a mudança de era. Um sintoma do que aconteceu dentro dos muros vaticanos: a presença das mulheres aumentou cerca de 6% na última década na Cidade do Vaticano e quase dobrou nos dicastérios, segundo dados da Santa Sé.

Jorge Mario Bergoglio se propôs em 2013 a aumentar o número de mulheres na Igreja, especialmente em cargos relevantes que apontassem a direção que a instituição tomará nos próximos anos. As mudanças não foram enormes, mas consolida-se a ideia de uma certa normalidade. “Não é bom fazer isso muito rápido. Ainda há resistências, e as mudanças na Igreja precisam ser suaves. Aqui medimos em séculos, não em anos”, afirma um funcionário do entorno do Papa.

A última nomeação foi a da freira Raffaella Petrini como a número dois da Cidade do Vaticano, a mulher com o cargo mais alto no menor Estado do mundo. Sua função será de caráter organizacional e de gestão. Terá um superior masculino. Mas representa outro passo nas reformas do Papa nesta área, somado à designação de Charlotte Kreuter-Kirchhof, a nova número dois do Conselho de Economia há apenas 20 dias.

A primeira grande nomeação feminina feita por Francisco foi a da nova diretora dos Museus Vaticanos. Barbara Jatta se tornou, em dezembro de 2016, a primeira mulher a ocupar esse cargo, substituindo o carismático Antonio Paolucci. A instituição que ela dirige é fundamental para a difusão da cultura. Mas é também a principal fonte de receita das finanças, que estão no vermelho. Jatta era até agora a única mulher que frequentava as reuniões da Cúria, e hoje continua sendo a única que não tem um superior homem.

Francisco havia designado, também poucos meses antes, a correspondente da rádio espanhola Cope Paloma García Ovejero como vice-diretora do Escritório de Imprensa do Vaticano. Ela renunciou um ano e meio depois, juntamente com o então diretor, Greg Burke, por desavenças na forma de gerenciar a comunicação. Depois disso, o Papa também cogitou nomear uma mulher como responsável pelos dicastérios de Economia e Comunicação, mas a decisão não foi adiante por diversos motivos. O que de fato se materializou foi a chegada da freira salesiana Alessandra Smerilli como número dois do Serviço de Desenvolvimento Humano Integral, que, entre outras coisas, promove projetos pelos refugiados. Do mesmo modo, a italiana Francesca Di Giovanni assumiu como subsecretária da Seção para Relações com os Estados, o cargo mais alto ocupado por uma mulher na sala de comando da Santa Sé. Na mesma linha, em agosto de 2020, o Papa argentino contratou as advogadas espanholas Concha Osacar e Eva Castillo, as britânicas Ruth Mary Kelly e Leslie Jane Ferrar e a alemã Marija Kolak como integrantes do Conselho para a Economia da Santa Sé.

O Vaticano deveria definir uma direção clara para as conferências episcopais, assim como para a prevenção de abusos sexuais e de poder sobre as religiosas —um dos piores e mais silenciosos flagelos da Igreja. Mas sua implantação continua sendo irregular em cada país. Lucetta Scaraffia, ex-diretora do suplemento feminino do L’Osservatore Romano Mulher, Igreja, Mundo, olha para a França para celebrar as “poucas” aberturas que considera importantes. “As últimas nomeações são boas, mas correm o risco de terminar sendo apenas uma fachada”, diz. “As mulheres estão muito dispersas e são poucas num ambiente clerical masculino. Eu diria que faltam reformas mais substanciais, como a que a França realizou nos seminários.”

Scaraffia se refere a uma iniciativa que obrigará todos os seminários a contar com presença feminina na hora de avaliar a idoneidade dos candidatos o ingresso na instituição, assim como para dar a aprovação definitiva a sua entrada no sacerdócio. Uma ideia já lançada pelo cardeal Marc Ouellet, prefeito da Congregação dos Bispos. “Para um padre ou seminarista, a mulher representa o perigo. Na verdade, o verdadeiro perigo são os homens que não têm uma relação equilibrada com as mulheres. Esse é o perigo do sacerdócio —e o que devemos mudar radicalmente”, afirmou ela numa entrevista.

Os avanços em outros países, como a Alemanha, também ocorrem mais rápido. A Igreja germânica, de fato, inaugurou um sínodo no ano passado para estudar a possível expansão dos limites da Igreja em questões como a homossexualidade e o celibato, além da possibilidade de ordenar mulheres. O Papa aceitou que seja estudado o papel feminino nos primeiros anos do cristianismo, mediante uma comissão, para determinar se elas poderiam chegar a ser diaconisas. Um grau inferior ao sacerdócio. Essa é a fronteira.

Uma das mudanças mais importantes chegou em fevereiro passado, quando o Papa escolheu pela primeira vez uma mulher como subsecretária do Sínodo dos Bispos: a religiosa francesa Nathalie Becquart. Trata-se de uma assembleia de bispos das diferentes regiões do mundo que assessora o Pontífice e debate sobre questões de doutrina e pastorais específicas. Becquart, nascida em Fontainebleau (França) em 1969 e consultora da Secretaria Geral do Sínodo dos Bispos desde 2019, é a primeira mulher com direito de voto. Mas o setor feminino pede que esse direito seja estendido a cada uma dessas assembleias específicas.

A espanhola Cristina Inogés foi justamente a encarregada de abrir o último sínodo do Vaticano dedicado à sinodalidade (como tomar decisões de forma mais colegiada na Igreja) no início de outubro. A teóloga acredita que “as mudanças recentes marcam uma linha sem volta”. “Muitas mulheres estão assumindo cargos importantes. A nomeação de Petrini rompe outro teto de vidro, mas a presença das mulheres é mais real e substancial desde que Francisco chegou. Ainda há muito a fazer, e o grande desafio são as tarefas pastorais – aí está a batalha. Isso significaria uma reestruturação de muitos cargos da Igreja, tema que esse sínodo abordou. Um repensar das próprias dioceses. E esses já são desafios de longo prazo.” Será hora, então, de fazer reformas no interior da Santa Sé.

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