Moderação ou radicalismo, o dilema da extrema direita na Europa

O fenômeno do radical Zemmour e as dúvidas de Le Pen sobre seu plano de ‘desdemonização’ ilustram na França as tensões ideológicas e estratégicas que se repetem na Itália e na Alemanha

Uma mulher passa por cartazes do polemista Éric Zemmour em Paris, em 13 de outubro.
Uma mulher passa por cartazes do polemista Éric Zemmour em Paris, em 13 de outubro.SARAH MEYSSONNIER (Reuters)

As dúvidas dilaceram a direita nacionalista europeia. Para onde ir? Na França, na Itália e na Alemanha – nos partidos da extrema direita clássica e nas formações do nacionalismo populista – repete-se a batalha que há alguns anos foi travada dentro do Partido Republicano dos Estados Unidos, quando Donald Trump se lançou na praça com uma aposta que radicalizou e transformou o velho partido de Ronald Reagan e da família Bush.

A batalha, na Europa, contrapõe de um lado aqueles que chamam a atenção para o fato de que os europeus não são norte-americanos e que, para conquistar o poder, seria preciso uma dose de moderação que lhes permita se desvincular dos estigmas de radicais, para atrair eleitores que fogem das estridências e as classes médias que decidem as eleições. No outro lado estão os que sustentam que suas respectivas nações enfrentam perigos existenciais, como a imigração, e que não é hora de meias palavras. A solução, para eles, é o radicalismo.

Na França, a luta entre moderadores e radicalizadores é travada atualmente entre Marine Le Pen, líder da Reagrupação Nacional (RN, herdeira da histórica Frente Nacional) e candidata pela terceira vez à presidência em 2022, e Éric Zemmour, o polemista que, segundo algumas pesquisas, já iguala ou mesmo ultrapassou a dirigente pela direita, apesar de ainda não ter se declarado oficialmente como candidato. Na Itália, Matteo Salvini, chefe do partido A Liga e ex-ministro do Interior, enfrenta, à sua direita, Giorgia Meloni, líder dos Irmãos da Itália. Na Alemanha, a ressaca das eleições federais de setembro semeia a discórdia entre moderados e radicais em um dos derrotados, o partido direitista radical Alternativa para a Alemanha (AfD, na sigla em idioma local).

“É uma tensão que na verdade se observa no bloco da direita em seu conjunto”, observa o cientista político Cristóbal Rovira Kaltwasser, coautor de Populismo – una breve introducción (editora Alianza) e professor da Universidade Diego Portales, no Chile. Na França e na Espanha, essa tensão entre o centrismo e a guinada a posições mais radicais também paira sobre os partidos da direita tradicional. Acrescenta Rovira Kaltwasser: “Em qualquer partido de direita isso acontece: ‘Ou nos movemos mais para o eleitor de centro, ou mais para o eleitor radical’. E isto também se vê nessa direita de viés populista e radical. Ela se pergunta: ‘Vale a pena continuarmos a nos radicalizar e a sermos fiéis à nossa ideologia pura? Ou adaptamos algumas de nossas ideias para ganhar a batalha?’”.

Desde que assumiu as rédeas da Frente Nacional, há uma década, Le Pen tenta aparar as arestas mais agudas do partido fundado por seu pai, Jean-Marie Le Pen. É o que na França se chamou de desdemonização: deixar de ser tratado como pária. Marine Le Pen mudou o nome do partido, declarou que não é nem de esquerda nem de direita e captou o voto proletário. Eventualmente se apresentou inclusive como uma dirigente feminista e ecologista. Homenageou uma figura central do consenso democrático francês (e inimigo jurado de seu pai), o general Charles de Gaulle. E deixou de lado um ponto central do seu programa: tirar a França da União Europeia e do euro.

O resultado é considerável, mas insuficiente. Em 2017, Marine Le Pen chegou ao segundo turno da eleição presidencial e, apesar da derrota para Emmanuel Macron, quase 11 milhões de franceses votaram nela. Dois anos depois, seu partido foi o mais votado nas eleições francesas para o Parlamento Europeu. Mas, em parte devido ao sistema eleitoral francês, que beneficia o partido ou candidato mais votado, a RN não alcançou o poder neste tempo todo: tem apenas seis deputados e, dos 36.000 municípios franceses, só governa uma dezena de povoados e pequenas cidades.

Zemmour, que em pouco mais de um mês passou de zero a 15% das intenções de votos em algumas pesquisas, aproveitou o vácuo deixado por Le Pen na extrema direita, preenchendo-o com um discurso apocalíptico contra o islamismo e contra os imigrantes e seus filhos. “Ele apela a pessoas frustradas com a RN, cansadas por terem visto que nove tentativas presidenciais – seis de Jean-Marie e três de Marine Le Pen, contando a atual – não funcionaram”, comenta o cientista político Jean-Yves Camus, especialista em questões da extrema direita. Por não estar manchado pela marca Le Pen/Frente Nacional, e embora seu discurso seja mais radical, Zemmour também atrai eleitores da direita tradicional – aquela dos presidentes Jacques Chirac e Nicolas Sarkozy – que jamais votariam em um Le Pen, mas se deixam seduzir pelo polemista da televisão. “Eu sou o candidato do RPR”, disse ele em alusão ao velho partido gaullista de Chirac. Sua intenção é clara: ocupar o nicho de mercado da direita tradicional, a exemplo do que fez Trump no Partido Republicano.

Há ecos da disputa Le Pen x Zemmour no duelo travado na Itália entre Salvini e Meloni no amplo espectro da direita populista, nacionalista e radical. Salvini, depois de sua tumultuosa passagem pelo Governo, colocando a Itália na crista da onda populista europeia na esteira da vitória Trump nos EUA, empreendeu uma guinada para o centro. O antigo eurocético votou a favor da posse como primeiro-ministro do guru europeísta Mario Draghi, que conta em seu Governo com ministros da Liga. “Minha ambição não é representar a direita radical”, declarou Salvini, convencido de que, para ser uma força hegemônica, terá que deixar o nicho populista e radical. A pujante Meloni, uma política com origens no neofascismo e aliada do partido ultradireitista espanhol Vox no Parlamento Europeu, ultrapassou nas pesquisas um apagado Salvini, correligionário do partido de Le Pen na UE.

Na Alemanha, a AfD vive tensões similares, que as eleições legislativas do mês passado agravaram. A agremiação da ultradireita alemã é a quinta força, com pouco mais de 10% dos votos, e se fortaleceu em dois Estados da antiga República Democrática Alemã. Seu copresidente Jörg Meuthen, considerado o expoente da ala moderada, renunciou ao cargo nesta semana.

Trump, presidente dos EUA desde 2017 até janeiro deste ano, continua projetando sua sombra na Europa. Rovira Kaltwasser analisa: “O sinal de Donald Trump, no caso norte-americano, é claro: o que o Partido Republicano diz é que a solução passa por se radicalizar ao invés de se moderar. Partidos populistas de direita radical observam isso e dizem: ‘Olhem o exemplo: devemos nos manter fiéis aos nossos princípios, e só assim podemos tratar de aumentar nosso caudal eleitoral”. A estratégia oposta seria a de líderes como Le Pen, que, depois de sucessivas tentativas de alcançar o poder, concluiu que precisava suavizar aspectos de seu programa. “Mas acredito”, aponta o cientista político, “que haja facções nestes partidos para as quais, na verdade, a questão do acesso ao poder importe menos: o que querem é que suas ideias ganhem terreno no espaço público”.

É uma briga familiar: ideológica e estratégica. Ou seja, um debate de ideias e um debate sobre o caminho para o poder. A incógnita é se as divergências acabam frustrando estes esforços. Na Alemanha, a AfD perdeu um milhão de votos em relação às eleições legislativas anteriores. Já na França, a soma das intenções de voto em Le Pen e Zemmour nas pesquisas se aproxima ou supera 30%, mais do que Macron e a esquerda. A divisão nem sempre é um sinal de fraqueza.

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