Ataques cibernéticos

Acusações de ataques cibernéticos agravam as tensões entre a China e o Ocidente

Pequim mostra uma crescente assertividade e dá poucos sinais de interesse por um diálogo que não seja nos seus termos

Código de computador em uma tela junto a uma bandeira da China.
Código de computador em uma tela junto a uma bandeira da China.Thomas White / Reuters

Um novo foco de tensão voltou a se abrir entre a China e o Ocidente. As acusações dos Estados Unidos, da OTAN e da União Europeia contra Pequim acerca de uma campanha global de ataques cibernéticos supostamente orquestrada no território chinês ocorrem apenas três dias depois de os presidentes Xi Jinping e Joe Biden participarem juntos da reunião virtual do Fórum de Cooperação Econômica da Ásia-Pacífico (Apec), na sexta-feira, primeiro contato entre ambos desde que se encontraram na cúpula ambiental promovida em abril pelo inquilino da Casa Branca. Se três dias antes os sorrisos se multiplicavam aos borbotões, nesta segunda-feira ambas as partes voltam a mostrar os punhos, e em um setor decisivo da disputa entre as superpotências.

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As acusações de pirataria digital contra a China não são novas. Washington vem há anos denunciando que Pequim está por trás de uma série de ataques cibernéticos contra as agências federais e empresas norte-americanas, algo que o Governo de Xi sempre negou de maneira taxativa. Já em 2015, a Administração de Barack Obama responsabilizou piratas informáticos respaldados pela China por terem invadido sistemas informáticos do Escritório Norte-Americano de Gestão de Pessoal, o braço de recursos humanos do Governo dos EUA, numa operação em que seus autores tiveram acesso a até duas décadas de dados pessoais dos funcionários federais.

Até o momento, a China não respondeu oficialmente às acusações. Mas a agência estatal de notícias Xinhua, através de sua conta do Twitter ―uma rede social bloqueada na China―, distribuiu uma caricatura em que alude às informações sobre a espionagem que os Estados Unidos praticaram contra a Alemanha, um de seus aliados mais próximos. “O que é um bom amigo para os Estados Unidos? A vigilância. No que diz respeito a um comportamento irresponsável, destrutivo e desestabilizador no espaço cibernético, os Estados Unidos parecem ser os melhores de todos”, comenta a Xinhua.

A China habitualmente respondia que também é alvo de ataques cibernéticos vindos do exterior. Mas as novas acusações surgem quando as relações entre Pequim e o Ocidente, mas sobretudo entre Pequim e Washington, encontram-se em seu pior momento das últimas décadas. A chegada de Biden à Casa Branca melhorou um pouco os modos, mas, contrariando o que alguns esperavam, não contribuiu para suavizar de forma decisiva uma relação bilateral que é excepcionalmente tensa devido à guerra comercial trumpista, à competição tecnológica e à rivalidade geopolítica, além das disputas pela situação dos direitos humanos em Hong Kong e da etnia uigur em Xinjiang.

Em um editorial, o jornal Global Times, pertencente ao Partido Comunista da China e de linha nacionalista, acusa os EUA de “estimularem novas disputas geopolíticas transformando os atritos sobre o espaço cibernético em conflitos sérios entre países”. “Constantemente trata de lançar junto com seus aliados novas acusações contra a China, fazendo da China um símbolo da ‘escuridão’ mundial. Como os Estados Unidos já impuseram à China rótulos como ‘genocídio’ e ‘crimes contra a humanidade’, nenhuma nova acusação nos surpreende”, prossegue o texto.

Não há prenúncios de melhoria nas relações. Depois da desastrosa reunião no Alasca entre os funcionários da diplomacia dos dois países, em março, na semana passada a vice-secretária de Estado para a Ásia, Wendy Sherman, evitou fazer escala na China durante uma viagem pela Ásia. Segundo o jornal Financial Times, Pequim lhe ofereceu uma reunião com o número cinco do Ministério de Relações Exteriores, Xie Feng, e não com seu homólogo, Le Yucheng. Uma situação similar se vive no estamento militar: o secretário de Defesa, Lloyd Austin, buscou no começo deste ano uma aproximação com o general Xu Qiliang, dirigente da Comissão Militar Central, o órgão responsável pelas forças armadas chinesas; mas as autoridades chinesas lhe ofereceram uma reunião com o ministro da Defesa, o general Wei Fenghe, que está hierarquicamente abaixo da comissão.

XI Jinping deixou claro várias vezes em seus discursos que está convencido de que seu país vive um momento de ascensão, e os EUA, de decadência. E que não pretende ceder. Em seu pronunciamento de 1º de julho na praça Tiananmen, por ocasião do centenário da fundação da PCC, ele já havia dito que “nunca permitiremos que nenhuma força estrangeira nos pressione, nos oprima ou nos subjugue. Se tentar, se chocará violentamente contra uma grande muralha de aço formada pelos 1,4 bilhão de chineses”.

Ao mesmo tempo em que Xi insiste na disposição de confrontar o Ocidente se for necessário, ele avança em seus esforços para se apresentar como paladino do mundo em desenvolvimento. Na cúpula virtual da sexta-feira da Apec, enfatizou a necessidade de cooperação na campanha global de vacinação contra a covid-19 e de um “desenvolvimento sustentado e inclusivo”, pois “vivemos em uma aldeia global, na qual os países triunfarão, ou cairão, juntos”.

O novo enfrentamento encontra a China mergulhada, justamente, em uma campanha de reforço da sua segurança cibernética. É uma ação que afeta algumas das empresas tecnológicas mais importantes do país, ou pelo menos mais conhecidas, começando pela Didi Chuxing. Esta firma, considerada o Uber chinês, está sendo submetida a uma inspeção por parte de sete departamentos e organismos reguladores, incluídos os ministérios de Segurança Interna e de Segurança Pública.

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