Igreja Católica

Papa cerca os tradicionalistas da Igreja ao limitar celebração de missas em latim

Francisco restringe cerimônias que seguem o rito anterior ao Concílio Vaticano II e assim enfrenta o setor ultraconservador que as usava para desacreditar a grande reforma católica

O papa Francisco, durante a oração do Angelus, em 11 de julho, no hospital Policlínico Gemelli, em Roma, onde permanece internado.
O papa Francisco, durante a oração do Angelus, em 11 de julho, no hospital Policlínico Gemelli, em Roma, onde permanece internado.Europa Press / Europa Press

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O papa Francisco surpreendeu nesta sexta-feira com um movimento de pouca relevância prática, mas de enorme significado doutrinal e ideológico dentro da Igreja Católica. O pontífice limitou com um motu proprio (documento papal) a celebração das missas tridentinas (pelo Concílio de Trento), isto é, aquelas oficiadas no rito antigo e anterior ao Concílio Vaticano II. Até agora, os grupos conservadores e do setor mais ultradireitista da Igreja continuavam a oficiá-las dessa forma, já que Bento XVI assim permitiu em um documento de 2007, para evitar mais fraturas como a que havia ocorrido com os lefebvrianos, um dos grandes grupos tradicionalistas. A partir de agora, terão de pedir autorização aos bispos para os celebrá-las e em muito poucos casos serão autorizados.

A medida é altamente insólita porque altera de modo contundente a decisão de seu antecessor (Bento XVI), que ainda está vivo. Além disso, se insere na guerra ideológica que a Igreja atravessa entre as distintas correntes, especialmente a do setor ultraconservador contra Francisco. O rito antigo, em que a missa é oficiada em latim, de costas e com outro missal, ainda é adotado por alguns pequenos grupos de católicos na Europa Central e nos Estados Unidos. Bento XVI havia autorizado que assim fosse, embora teoricamente essa missa estivesse fora da reforma do Vaticano II, porque ele queria acomodar diferentes sensibilidades e evitar mais fraturas, como as que ocorreram quando foi excomungado o bispo francês Marcel Lefebvre, que havia desafiado Paulo VI anos antes com uma missa desse tipo para 7.000 fiéis. Os lefebvrianos foram apartados da Igreja em 1988 por João Paulo II, quando o próprio Lefebvre ordenou quatro bispos.

A missa tridentina foi instituída por volta de 1570, após o Concílio de Trento. As orações são pronunciadas pelos padres em voz baixa e apenas em latim. Além disso, eles têm que usar luvas para não tocar diretamente na Eucaristia e ficam de costas para os fiéis. Este rito deixou de ser usado em 1969, quando foi substituído pela atual missa por Paulo VI.

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O Papa intitulou seu documento Traditionis Custodes (guardiães da tradição). Uma forma de se revoltar contra a ideia pré-estabelecida de que os chamados tradicionalistas têm a patente de guardar as essências da Igreja autêntica. Para Francisco, a única maneira de salvaguardar essa “tradição” é por meio da unidade. E ele considera que foi ameaçada por este tipo de rituais. Grupos católicos conservadores, no entanto, há muito clamam pela manutenção das duas formas de celebrar a missa. O cardeal Robert Sarah, que é um forte crítico do Papa e tem sido o símbolo da atual oposição a Francisco (ele é o favorito de políticos de extrema direita como o próprio Santiago Abascal, do partido Vox), defendeu essa dualidade nas redes sociais, destacando que “o respeito pelas duas formas ordinárias e extraordinárias da liturgia latina nos levará a um impulso missionário para a evangelização”.

Francisco, normalmente pouco dado a criar fronteiras muito claras dentro da Igreja, agora se cansou de que o rito tridentino seja usado para dividir e não para unir, e o excluiu da lei. Quem o oficiar sem a autorização do bispo correspondente estará fora. Francisco explicou em uma carta que em 2020 enviou um questionário à Congregação para a Doutrina da Fé para ver como as missas estavam sendo celebradas depois do documento papal de Bento XVI e que as respostas obtidas o entristeceram e preocupavam, por isso optou por intervir. “Os livros litúrgicos promulgados pelos santos pontífices Paulo VI e João Paulo II, de acordo com os decretos do Concílio Vaticano II, são a única expressão da lex orandi do Rito Romano”, acrescentou. Além disso, o bispo será o “responsável por regular as celebrações litúrgicas na sua própria diocese” e “é sua competência exclusiva autorizar o uso do Missal Romano de 1962 na diocese, seguindo as diretrizes da Sé Apostólica”.

Por fim, Francisco enfatiza que “os sacerdotes ordenados após a publicação deste motu proprio que pretendam celebrar missa com o Missal Romano de 1962 terão que apresentar um pedido formal ao bispo diocesano, que consultará a Sé Apostólica antes de conceder a autorização” e que aqueles que já o fazem terão que pedir autorização para continuar a fazê-lo.

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