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As igrejas católicas que se tornaram protestantes em segredo

No Império espanhol do século XVI, em plena Contrarreforma, grupos católicos praticavam o protestantismo mesmo com a ameaça da Inquisição

Reforma protestante
Erasmo de Roterdã, retratado em obra de Alberto Durero de 1526. Bibliotheque National de France

Em outubro de 1517 Lutero reuniu as 95 teses contra o catolicismo na igreja de Wittenberg na Alemanha, um fato que mudou o curso da História e que completa agora 500 anos. A partir desse momento a Igreja cristã se divide entre o mundo católico e o protestante que se enfrentarão em sanguinárias guerras de religião. A Espanha, o poderoso império católico da época, se transformou o símbolo da reação da Igreja de Roma sintetizada na Contrarreforma, iniciada no Concílio de Trento. O que pouco se sabe, no entanto, é que o império que assumiu a tarefa de reavivar a fé católica no mundo, também teve seus "hereges". E até mesmo uma Bíblia clandestina protestante em castelhano circulou pela Espanha da época.

Valladolid e Sevilha foram dois dos grandes focos de surgimento do protestantismo, primeiro com a curiosidade pelos livros de Erasmo de Roterdã, mais tarde incluídos no Índice de livros proibidos, e depois com o seguimento clandestino das doutrinas de Lutero e Calvino. As duas cidades eram à época as mais importantes do império. Valladolid era considerada a capital política, já que Madri ainda não havia sido proclamada como sede permanente da corte. E Sevilha podia ser definida como a capital econômica por controlar o monopólio comercial do Novo Mundo e ser a porta de entrada das riquezas das Índias. As duas cidades de ambiente cosmopolita, abertas aos novos horizontes e à reformulação do mundo conhecido, foram contagiadas pela febre reformista. O pensamento reformista espanhol foi muito influenciado por Erasmo, como afirmou Marcel Bataillon e mais tarde José Luis Abellán. Essa Espanha da Reforma desapareceu nas fogueiras do Santo Oficio como se nunca tivesse existido.

Casiodoro de Reina, o herege espanhol

Retrato de Casiodoro de Reina.
Retrato de Casiodoro de Reina. Deutsche National Bibliothek

Uma oportuna biografia resgatou a novelesca história de Casiodoro de Reina, que após a fuga de Sevilha viajou por toda a Europa. Doris Moreno é a autora de Casiodoro de Reina. Liberdade e Tolerância na Europa do século XVI, publicada pelo Centro de Estudos Andaluzes. Moreno revela a mudança vivida pela Europa no Século XVI: “O otimismo dos humanistas foi minando. Muitos defensores do entendimento entre as Igrejas foram retirados do espaço público, quando não diretamente eliminados, à medida que as posições se radicalizavam. As terceiras vias foram condenadas a permanecerem de lado”.

Esse protestantismo muito marcado pelo humanismo cristão contou com figuras como os irmãos Valdés, Francisco de Enzinas e o doutor Cazalla, que impulsiona o foco protestante em Valladolid. Em Sevilha Constantino Ponce de la Fuente, cônego magistral da Catedral e anteriormente capelão de Carlos V, pregava em uma igreja secreta criada na cidade e que recebia a presença de personagens da nobreza. Mas a igreja clandestina foi descoberta e Ponce de la Fuente foi preso com outros. Morreu na prisão do castelo de São Jorge em Triana, sede do Santo Ofício, mas seus ossos foram desenterrados e queimados em um dos autos de fé realizados na cidade para extirpar a heresia protestante.

Em Sevilha o episódio reformista teve participantes muito singulares, já que todo um monastério católico esteve envolvido, o de San Isidoro del Campo, que praticou a Reforma em segredo. Existiu até um comércio de livros proibidos que entravam em Sevilha através de um tropeiro chamado Julianillo Hernández, que escondia os exemplares no fundo de odres de vinho que trazia de Borgonha. Um episódio herético que quatro anos mais tarde culminou em uma empreitada notável: a tradução completa pela primeira vez ao castelhano dos Livros Sagrados com a publicação da Bíblia do Urso, um texto que ainda hoje os protestantes de língua castelhana continuam utilizando.

A Bíblia do Urso, publicada em Basileia no ano de 1569, é forjada nessa Espanha convulsionada, mas profundamente influenciada pelas novas leituras, pela revolução que significou o humanismo cristão e pela consciência de que a luz do Renascimento deveria entrar nas doutrinas católicas, muito desacreditadas pelos casos de corrupção e o negócio das indulgências. Casiodoro de Reina é o grande protagonista dessa revolução espanhola. Casiodoro é o monge da Ordem de São Jerônimo que inicia a tradução da Bíblia no monastério sevilhano, apesar da Igreja Católica proibir a tradução às línguas românica e vulgares tal como fazia a Reforma protestante. Se Lutero traduziu a Bíblia ao alemão, os monges sevilhanos decidiram realizar o mesmo projeto na Espanha.

Escudos do Santo Ofício e sambenitos. Gravados pelo impressor Bernard Picart para o livro 'Ceremonies et coutumes religieuses de tous les peuples du monde'.
Escudos do Santo Ofício e sambenitos. Gravados pelo impressor Bernard Picart para o livro 'Ceremonies et coutumes religieuses de tous les peuples du monde'. Rijsmuseum

Não puderam. A Inquisição descobriu a heresia praticada no monastério de San Isidoro del Campo em Santiponce, em um monumental convento que ainda hoje se levanta diante das ruínas romanas de Itálica. Alguns monges conseguiram fugir, entre eles Casiodoro de Reina, mas outros foram presos no castelo de São Jorge para serem queimados em diversos autos de fé que acabaram com a semente da heresia protestante na Espanha.

Casiodoro de Reina e outros colegas – como Cipriano de Valera e Antonio del Corro, um dos primeiros britanistas – se estabeleceram na Europa reformada. Mais tarde, nessa Europa protestante, Casiodoro de Reina e Cipriano de Valera protagonizam a grande aventura da Reforma espanhola com a versão calvinista da Bíblia do Urso. Uma história que remete não só à religião, mas a um episódio da História da Cultura europeia. A história de espanhóis esquecidos e perseguidos por seu humanismo heterodoxo, por pensarem e se atreverem a ler o proibido e seguir o espírito de seu tempo: o Renascimento clássico na época das intolerâncias religiosas.

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